quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Canto e sacrifício

O cisne e o pelicano, para além do facto de serem aves, pouco ou nada têm em comum; de qualquer modo, cada um deles possui uma característica natural que me levam a admirá-los, por diferentes motivos. O primeiro, mais "poético", chamemos-lhe assim, está relacionado com o cisne. Este belo animal canta uma única vez na vida, precisamente quando está a morrer. No que toca ao pelicano, aquilo que me fascina prende-se por uma questão mais humana, de extremo sacrifício. A ave, em caso de grande necessidade, dá de beber às suas crias o seu próprio sangue, impedindo que morram à fome, acabando, muitas vezes, por desfalecer. As diferenças entre os dois seres, que incluem os próprios habitats naturais, tornam impossível qualquer encontro entre ambos; mas aconteceu, no tempo em que os animais falavam, e é muito importante, pela sua beleza, que seja conhecido.

O pelicano era solitário, o seu sentido de humor difícil nunca lhe havia permitido encontrar uma parceira, e consequentemente criar ninhada. Pouco se importava, de qualquer modo; qualquer relação que não fosse com ele mesmo parecia-lhe despropositada, inútil, incómoda mesmo. Limitava-se a responder às suas necessidades biológicas, comia, bebia, dormia. Por vezes passeava pelas paisagens rochosas à beira-mar, mas nunca se aventurava muito para lá da costa, para a floresta, afinal o alimento essencial para a sua sobrevivência, o peixe, abundava era ali, no largo oceano.
Numa dessas suas voltas, aconteceu algo inesperado; uma súbita tempestade rompeu, inesperada, fortíssima. "Brilhante", pensou o pelicano, "Tão longe do ninho que estou, havia logo de começar esta tempestade tão pesada... Os ventos estão violentíssimos..." De facto, parecia que se iria formar um tufão. Não demorou a que o pelicano cedesse perante aquela força da natureza, e, faltando-lhe as energias, desmaiou, sendo arrastado pela potente deslocação de ar.

O cisne, como qualquer um da sua espécie, era gracioso, de um branco muito puro, apesar da já avançada idade, e que combinava bem com a sua personalidade. Era gentil, e apesar de um pouco reservado, dava-se bem com os da sua espécie bem como com outros seres que viviam junto ao lago da floresta, onde vivia. Adorava apreciar as obras de arte que a Natureza lhe oferecia, e muitas vezes afastava-se do lago e caminhava pelas zonas mais próximas. Havia um local que gostava particularmente, uma gruta, mais perto da costa, mas ainda no bosque. Diversas vezes escapava-se para o seu interior e explorava a caverna. Um dia, quando se dirigia para aquele sítio, reparou, num fino rasto de sangue que se prolongava, a intervalos, até à entrada da gruta. “Esquisito”, estranhou o cisne, “Deve haver algum animal magoado! O melhor é entrar rapidamente, pode alguém precisar de ajuda.”

E assim o fez. Ao entrar, não precisou de caminhar muito para encontrar o ferido; era uma ave, mas nada parecida com nenhuma que conhecesse. Apesar de também ser branco, o pescoço era bem mais curto e a cabeça maior, saltando à vista o bico, que era meio esquisito. O sangue parecia vir da asa esquerda, que se encontrava num ângulo nada natural: estava partida. “Estás bem?” apressou-se o cisne a perguntar, “O que te parece?” ripostou o pelicano, friamente. “Desculpa, não foi por mal. O que te aconteceu? Que animal és tu?”. “Sou um pelicano” começou a ave, “Fui apanhado numa tempestade, desmaiei e acordei a noite passada ali fora. Como ainda chovia, consegui arrastar-me para aqui. Mas estou bem, um pouco mais de descanso e posso partir. Não preciso da tua ajuda…” O cisne, ainda que espantado com aquela reacção pouco amistosa, não desarmou posição. “Claro que precisas, sem uma das asas não conseguirás ir muito longe. Talvez com repouso possas caminhar um pouco e consigas ir até junto dos da tua espécie. Mas, até lá, não podes ficar sozinho! Vou até ao meu lago e daqui a nada trago-te peixe para comeres. Faço-te compan…” “Eu não quero a tua companhia para nada! Nem o teu peixe, nem o teu lago, nem o teu nada! Percebeste? VAI EMBORA!”, gritou o pelicano, já deveras chateado. “Está bem, tu é que sabes…” limitou-se a responder o cisne. E saiu.

Mas ausentou-se da caverna por escassos minutos, pouco depois regressou com alimento para o pelicano, que, já sem forças para ripostar, teve que aceitar a ajuda do cisne. Apesar de tudo, não deixou de se admirar com a atitude do outro animal; nunca haviam tido uma como aquela para consigo, qualquer outro ser preferia simplesmente afastar-se do casmurro pelicano. Acabou por aceitar a permanência do cisne na gruta, apenas interrompida pelas ocasionais saídas para ir buscar mais mantimentos. Passaram-se três dias. Nesse tempo, a amabilidade do cisne acabou por vergar um pouco a dureza do pelicano, que nem por isso deixou de ser antipático. Simplesmente foi crescendo maior afinidade entre os dois, algo natural, vistas as largas horas que agora passavam juntos. Também o estado físico do ferido foi melhorando, mas a asa, apesar de em melhor estado, ameaçava não regressar tão depressa à plena forma. Acabaram por decidir que o melhor era o pelicano regressar, a pé, para junto da costa, onde outros animais da sua espécie o poderiam acolher e mais facilmente ajudar a melhorar. O cisne refutou qualquer argumento do pelicano, que insistia em fazer aquela caminhada, curta mas difícil, sozinho.

Acabaram por partir ao final do quarto dia; caminhavam devagarinho, afinal de contas, o pelicano encontrava-se débil e o cisne já estava longe da flor da idade, o que aliado ao estado do tempo, que continuava tempestuoso, configurava aquela como uma missão complicada. Mas nem tudo correu bem; nenhum deles alguma vez se aventurara por aqueles caminhos; o pelicano nunca por ali andara e o velho cisne jamais se afastara para além da caverna. Pensavam que achar o caminho não seria complicado, mas numa noite, acabaram por perceber que estavam perdidos. Se não andavam em círculos, então afastavam-se da costa, o que acabava por ser deveras pior; a determinada altura o caminho tornou-se inclusivamente a subir, mas era tarde demais para pensarem em voltar atrás. Já haviam caminhado imenso, dias a fio, e o alimento que consumiam estava longe de ser o apropriado para a dieta que necessitavam. O estado físico de ambos era deplorável, mas resistiram até chegarem até chegarem a um estranho local. Parecia uma planície, mas era na verdade um trilho intermédio de uma alta montanha. Chegando-se à berma, inundou-lhes a vista a mais bela paisagem que haviam visto em toda a sua vida; o oceano, a casa do pelicano, afogava-lhes a vista, e o sol lá do alto dava ao mar cores mágicas, indescritíveis. Mais à esquerda, era a floresta que reinava e, a custo, do meio das altas árvores, apercebia-se uma grande clareira, onde estaria o lago, a casa do cisne. “É a última coisa que vejo, amigo pelicano”, disse, com voz rouca, o cisne. “Não digas disparates cisne, nós vamos conseguir. Estás aqui por minh…” Mas o cisne já não estava a ouvir. Esfomeado, exausto e com a idade a pesar-lhe mais que ao pelicano, fixou o olhar no horizonte, fixando algo que só ele saberia. O sol brilhava-se na vista, que entretanto se fechou. E começou a cantar. Em pânico, o pelicano, que não percebia o canto mas sabia que estava a acontecer, resolveu fazer o que podia para impedir o horrível acontecimento que se aproximava. Como próprio bico, feriu o peito, espalhando imediatamente uma mancha de sangue pelas penas brancas da ave; aproximou-o do cisne, obrigando-o a beber. O sangue jorrava lentamente, mas tirava toda a réstia de energia que o pelicano ainda tinha. Pouco tardou a que este se deixasse cair, deixando de novo o bico do cisne a descoberto, donde de novo irrompeu um belo mas triste canto. Ao longe, o sol punha-se, lentamente, acompanhado pela música da ave, que lentamente colocou uma das asas sobre o pelicano, que por sua vez, a custo, esboçou um sorriso, soltando um arrastado “Obrigado”. O cisne soltou uma última lágrima.

E parou de cantar.

2 comentários:

  1. Até agora, é o melhor texto que já me mostraste. Em todos os aspectos (formais, informais ou assim-assim de formais).

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