domingo, 27 de novembro de 2011

A cabana

Descobri uma cabana.
Eu já a conhecia
Já tinha os meus olhos passado
Mas madeira não era o que eu via
Nem isolada numa bolha de magia
Sol, mesmo que chuva de cada lado.

No meio de mil a cabana os calava
E nem a areia se atrevia a passar
O estreito.
Calor no peito
E dois num a dançar.

Dois num.
Há tantos que não são nenhum
E um que se desdobra em multidão.
Mas um coração
De dois nascido
É mais que material comprido
É poesia
É paixão.

Dois num.
Numa direcção.
Ainda com cê pois já curta é a palavra
Sem corte
E se o português é forte
Nem ele nem outra há que diga
O que é isto que nos liga
Onde encontrei esta sorte.
Não foi feitiço
Porque bruxas são mais reais
É mais, mais, mais
E quando acabar
Ó tempo, já foste
Vai ser tarde demais.

domingo, 16 de outubro de 2011

A Estação do Amor

Era uma vez quatro jovens, três rapazes e uma rapariga. É importante saber que cada um entra nesta história a seu tempo, nunca em simultâneo, ainda que os gestos de um influenciem o próximo. O primeiro que importa vestia-se de castanhos e escondia-se em espinhos, uma máscara feia que disfarçava um interior mais doce. Na verdade, este jovem estava apaixonado pela rapariga já mencionada, mas mal a vira; afinal, como eu disse, cada um entra a seu tempo, e quando tentava chegar-se a ela, ela fugia. Este seco e cinzento rapaz, destruído pela sina que lhe calhara em mãos, nas noites de maior saudade (saudade do que nunca se teve? seja.) gritava e chorava a paixão que nunca acalmava.

Entre  agora o seguinte jovem. Este, ouvia de longe os lamentos do primeiro. E chorava com mais força ainda, afinal as dores dos outros por vezes magoam mais que as nossas próprias. Na verdade, ao longe, ele via a amada fugidia, e percebia a razão de tal louca atracção. Testemunha e cúmplice deste amor não correspondido, vestia-se de cinzento e era frio, pois não pode ser quente aquilo que não consegue aquecer.

Fale-se agora da donzela fatal. Ignorante da trágica existência do seu pretendente, apenas sabia em rasgos do choro do segundo jovem, mas não ligava; vestia-se das cores mais alegres, vestidos cor de canto de andorinha e perfume do mel silvestre. Do fundo do seu olhar vinha o aroma da terra molhada, e estes olhos pousava-os no terceiro rapaz, quarta personagem deste conto. Amava-o pela sua majestosidade, achava-o rei de um reino repleto de ouro e quentes paixões. Mais bonita se punha quanto mais atrás chorassem, e o seu apaixonado o mesmo fazia, mas não por amor.

Na verdade, este terceiro rapaz gabava-se dos calores que lhe eram trazidos pela bela rapariga. Brilhava forte, quente, mas não gostava dela. Assim, acabava por incendiar as suas pretensões. e as cores alegres e o perfume de mel silvestre eram substituídos pelo seco e queimado. E de novo aparece o primeiro triste rapaz, também ele afectado pela superior impetuosidade do menino dos olhos da menina. Quem lhe dera ser ele, sem ser como ele.

Um dia, o primeiro rapaz, o Outono, resolveu ignorar a chamada a esta história eterna e fugir a ir ter com a Primavera, a sua amada. Ela acabou por entender quem de facto o amava, e deixou de dirigir o perfume da sua aura para o Verão, que brilhou menos intenso, carrancudo, amuado. E o Inverno chorará mais tarde, mas de alegria, pois o amor venceu. A fuga do Outono fê-lo atrasar-se, mas hoje, finalmente, bateu à porta. Já fez frio e nevoeiro, mas há algo de mágico nesta neblina; algo de primaveril. O Verão brilhou até ontem, mas só porque cá estava só e mais não sabe fazer. Queima, e nunca ama. E mesmo que a Primavera nunca mais possa receber o Outono nos braços, porque a Lei do Mundo a isso obriga, para sempre se saiba que as flores e os animais com que se veste não mais são para agradar ao Verão, mas sim porque, a partir deste ano e para sempre, está profunda, perdida e assolapadamente apaixonada pelo Outono.

sábado, 15 de outubro de 2011

1, 2, 3

Um
Amor? Não vejo nenhum.
Prometi que de beijos faria jejum
Ou prometeu-me a vida,
Já me esqueci.
Sei que se a paixão é espaço
Eu sou, dentro de uma latinha, atum.

Dois
Mas e depois?
Belos olhos, pois.
Ai, e o sorriso também.
Pronto
Mas a razão ganhará o confronto
O coração grita
E porra, tem força de bois...

Três
Nas entrelinhas sem querer já me lês.
E eu vou embalado.
Coitado, o coração correu desenfreado
Descarrilou
E nunca esteve tão direito.
Andar em terra parece bem perfeito
Ah, mas eu caí outra vez. De vez.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Porquê lá?


Conta-se a história de singular rapaz
Perdido numa ilha de onde só mirava água
Um oceano de lágrimas, choro, mágoa
Coisas daquelas que a vida faz.

Noite e dia corria parado
Ciente da necessidade de criar fuga
Mas não era fácil tal trabalho
"Faço, erro
Faço, refaço
Faço de novo
De novo falho."

Não queria da ilha morada eterna
E no desespero que o consumia
Gritou, buscando plateia
Fosse um homem ou sereia
Mas ninguém
Nem pedra ou animal
O ouvia.

Eis que surge de nenhuma lâmpada
Um génio sem desejos para ofrendar
Nem três
Nem dois
Nem um
É mesmo isto que aqui lês
O que lhe ofereceu verás depois
Mas desejo, nenhum.

"Onde queres ir, náufrago?
Para onde a tua embarcação?"

"Aportei do seio materno
O meu caminho é ja eterno
E barcos são etérea visão."

"Mas que buscas?
Que pretendes?
Só recebe quem o sabe pedir
Ou por sorte mera o venham acudir
Mas olho à volta e não vejo deuses
Nem mãos estendidas
Portanto, se as tuas maleitas são compridas
Fala,
E veremos."

"Quero mais, quero nova terra.
Quero paz mais que a ausência de guerra
Quero sair.
Aqui não tenho nada
Nem cama nem roupa lavada
E mal o frio começa a ganir
Sinto a mais ínfima molécula 
Congelada."

"Queres ser feliz?"

"Quero viver."

"Apura então o nariz,
E começa a ver.
O mar banha-te, gratuito
As frutas nascem das árvores
Saborosas.

O Sol é também muito
E as chamas, no gelo
Serão doces prosas
E tens paisagens airosas
De arrepiar o pelo.

Tens mais do que a vista alcança
Tens cores
Sensações
Sossego.
As borboletas e a sua eterna dança
Sombras que a paterna nuvem lança
Dádivas, elas, aos milhões.

Que queres mais, rapaz?
Dinheiro?
Casas?
Materiais?
Eles corrompem a alma por inteiro
Terás amores de plástico
Insípidos
Artificiais.

Ama o que tens
E até podes desejar mais
Ter sonhos ambiciosos.
Mas sejam eles sinceros
Preciosos.
E tudo terás
Em segundos meros.

Não queiras sair da ilha
O continente tem do ódio directrizes
Há tantas
Tantas coisas à tua volta
Prontas para nos fazerem felizes..."

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Dos jardins sem flores

Há croissants sem chocolate
E jardins sem flores.
Mas não há beijo que de amor dado
Não tenha golpe encantado
De encher o cinzento de cores.

E o motor dispara
Como se fora morrer
Mas é a vida
(Plural, bem entendida)
Que lhe dá razões para não mais viver.

Porque viver é coisa mundana
E no mundo há mais que respirar
Esquece tudo, nada importa
Este poema é coisa torta
Nem podia de outra maneira acabar.
Pois se pensas que ser mais é natural
Pensa de novo, que achaste mal;
Ser mais não é viver
Ser mais, é amar.

domingo, 9 de outubro de 2011

Tic-Tac

Tic-Tac Tic-Tac
Espero um tempo que não passa
Acelera, cheio de raça
Mas quando estou cheio do teu olhar em mim.

Tic-Tac Tic-Tac
Onde estás?
Não mais chega o tempo em que o tempo anda
Ah, que esta paragem já tresanda
Fedor de saudade que só mais me faz te amar.
Não, não me estou a queixar
Mas se estou cheio de estar vazio de ti
Mas completo de tanto em ti pensar
Tenho, e não me calo, que cantar,
Uma ode ao tempo que faz só o que quer.

Tic-Tac, Tic-Tac
Vem quando quiseres
Porque em mim já chegaste.
Não corras, desliza
Porque tanto é forte o tornado
Como a doce brisa
E tu, princesa
Não és guerreira.
Lutas e de que maneira
Com o sorriso que alguém te pintou.

Tic-Tac Tic-Tac
Quanto menos te tenho mais te quero
E assim espero, não desespero
Pela tua mão que me festinha a alma.
Amor na palma
E o tempo passa
Parado
Juro-te que não estou cansado
Talvez só um pouco
(E cada vez mais)
Apaixonado.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Conta

Contemos os sonhos
Os cumpridos e por cumprir.
Mais os que ficaram por florir
Na simples essência do pensar.

Contemos as pessoas
As que passaram e ficaram
Mais as foram e nem acenaram
As que amamos
Estimamos
As que desprezamos de tal forma
Que, por norma
Nem delas devemos falar.

Somemos à já larga conta
Aquilo que aconteceu.
Manhãs de amor que coração aqueceu
Ou noites de choro que o cérebro arrefeceu.
Mais as horas que foram minutos
Os momentos diminutos
Os segundos do tamanho de anos.

Juntem-se à factura aleatórias emoções
Como os sorrisos nascidos sem pai
Nem mãe
As lágrimas orfãs também
Todos irmãos do dia-a-dia.

Resultado.

Sou pequeníssimo dentro do próprio eu
Ou
Sou maior que o corpo que Deus me deu?

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sei lá, qualquer coisa

A minha mente é uma caneta super espectacular colorida e que dá luz e música, mas porra, está sem tinta. Preciso mesmo de ver uma vaca a mascar e, do nada, fazer um balão com uma pastilha elástica. Tipo isto que está a nascer do nada e prepara-se para ir, de malas e bagagens, para lado nenhum, esse mítico local para onde peregrinam todos aqueles que não querem chegar a sítio algum, só não querem ficar onde estão. Eu não quero ficar onde estou, mas vá, nem me importo de ficar na cama. Posto agora ou invento mais? Qual preparação qual quê, se a caneta não tem tinta, posso rabiscar à vontade. Para ti são rabiscos... ou consegues ler-me?

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E não te encontrei

Triste noite em que te quis mostrar a Lua, - tão bela que está! (esteve?) - e não sabia quem tu eras.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Desejo

How do I wish upon a star when what I actually desire is the star itself?

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

sábado, 6 de agosto de 2011

Retrospectiva

Nascer.
Abrem-se os olhos
Sorrisos aos molhos
E eu a ver.
Comer, beber, dormir, outra vez comer.

Crescer.
Estudar, trabalhar.
Ah, e a paixão.
Depois as paixões
Que são muitos corações
Para singela acção.
O primeiro carro
E o primeiro amar.

Sonhar.
Outro carro, o mesmo amar.
Os teus olhos nos meus
Filhos meus e filhos teus
Virão, já estão a vir, já vieram.
Ah, já nasceram e cresceram
E eu a ver.

Envelhecer.
Dos filhos netos,
Muitos e mais baixos tectos.
Já não posso andar, quanto mais voar.
Voa o tempo.
Solta-se um lamento,
Ferida viva.
Ainda hoje nasci, e vou morrer.
Já morri.

Que bela retrospectiva.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Para onde foste?

I walked across an empty land
I knew the pathway like the back of my hand
I felt the earth beneath my feet
Sat by the river and it made me complete

Oh simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired and I need somewhere to begin

I came across a fallen tree
I felt the branches of it looking at me

Is this the place we used to love?
Is this the place that I've been dreaming of?


Oh simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin

And if you have a minute why don't we go
Talk about it somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?

[break]

Oh simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin

So if you have a minute why don't we go
Talk about it somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
So why don't we go

This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?

Vazio

Mas de todos os grandes problemas da vida, a grande facada no meu peito é encher uma tigela de cereais e depois descobrir que não tenho leite.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Medicação

O meu irmão pequenino está a gritar outra vez. Sabes, eu antes ia para o pé dele e tentava acalmá-lo, mas já desisti. Um dia bateu-me e tudo, mas nem foi na cara que isso mais magoou. Dói agora mesmo, que ouço os berros desesperados... já fechei a porta e pus fones nos ouvidos, mas os gritos permanecem na minha cabeça, talvez por eu sempre procurar se já cessaram. Desde que ele nasceu que ouvi os meus pais comentarem que ele tinha problemas, mas nunca percebi bem. Até certa altura, tudo parecia normal... depois, tudo começou. Sem razão aparente, tinha acessos de raiva; outras vezes, só dizia coisas sem sentido.Uma noite veio ter à minha cama, sem fazer barulho. Acordei de repente por causa da respiração dele na minha cara, tinha os olhos imensamente abertos. Assustei-me tanto! E começou a sussurrar há pessoas no meu quarto, há pessoas no meu quarto! E a voz foi aumentanto, vi bichos no tecto, cobras de baixo da cama! Daí a nada eram já berros, O ARMÁRIO ESTÁ A ARDER, E QUEIMA CÁ POR DENTRO! Entretanto os meus pais chegaram e levaram-no, enquanto o foram acalmando. Isto foi quando ele tinha cinco anos, tem agora oito. Sempre foi muito espero ele, principalmente na maneira de falar. Parecia muito mais velho. Numa manhã, aqui há uns dias, disse-me que gostava muito de mim e pediu desculpa por às vezes se portar tão mal. Disse ele que podia ser um bom menino e portar-se bem. E depois pediu-me uma coisa esquisita; mano, não deixes que ninguém me leve, por favor. Tenho medo dos senhores de branco... Calculei que fossem médicos, mas não consegui saber por que raio teria ele medo deles, ou porque recearia que alguém o levasse, pois entretanto a minha mão chegou ao pé de nós.

Os  gritos, que entretanto tinham parado, recomeçaram. Mas eram diferentes, agora. SOCORRO, SOCORRO, ouvia-se. JOÃO, MANO, SALVA-ME! O rapaz saiu do quarto e foi até ao do irmão; não tinha reparado no rebuliço que se tinha instalado. Estavam na casa um grupo de médicos que tinham vindo buscar o pequeno Pedro. João sabia que ele se recusara, nos últimos tempos, a ir ao hospital, e os crescentes ataques de raiva e alucinações deviam ter precipitado a necessidade de o internar. Assim que Pedro viu o irmão, estendeu os braços em busca de socorro, mas tinha dois homens a tentar prendê-lo a uma maca. A mãe chorava desconsolada, enquanto o pai tentava, em vão, acalmar o filho. Eles sabiam, e João também soube, que estavam a entrar num caminho sem retorno. E Pedro sentia-o também: Não os deixes, mano, não os deixes. Ajuda-me, salva-me, eles vão matar-me, ELES VÃO MATAR-ME. 
João não suportou o cenário e voltou para o quarto. Foi para a janela. Na televisão, alguém falava de Deus, diziam eles que Ele estava lá em cima e ouvia os nossos pedidos.


Não sei se existes, mas se estás mesmo aí em cima, por favor, ouve-me. Estão agora a levar o meu irmão para o hospital, e sei que ele vai ficar lá, preso. Criaste-nos para sermos presos em camas e comprimidos? Já nem te pergunto porque é que fizeste o meu maninho assim. Só te peço uma coisa, apesar de saber que é errada... por favor, leva a vida do meu irmão.

sábado, 16 de julho de 2011

Covinhas

Foi depois de mil redes de buracos furados
Que apareceu o teu sorriso, e me quis prender.
O chão não era nada
A lua, distanciada
No meio deambulava, perdido, sem ver.

Corria parado voando debaixo de água
Absorto nos pensamentos que julgava serem sentir
E sorriste, tranquila
A cidade enorme fez-se vila
Calada, eu podia-te ouvir.

Faziam covinhas as tuas rubras faces
Escondias no sorriso a cor intensa do ar
Tornou-se Verão o que era Inverno
Subi ao Céu vindo do Inferno
E só quero as tuas covinhas saborear.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Derivando

E eu serei sempre, para ti, um paquete de luxo com a estabilidade de uma jangada.

Agora

As palavras duram para sempre, e geralmente os posts deste blog também. Pois, são feitos com palavras. Este será diferente. Vão à janela, agora, e vejam a Lua, agora. É como aquela rapariga bonita da nossa escola que aparece no baile de finalistas ainda mais bonita. Pois bem, é este o meu poema de hoje. Se não o lerem, agora, passou. Mais virão.

Para sempre

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A Fuga

Há uns dias fui dar de comer ao meu piriquito, e mudar-lhe a água, como é hábito. No dia seguinte fui lá de novo, e ele tinha fugido. Sem querer, deixei a porta da gaiola aberta...

Tenho a certeza que ele morreu, mas também tenho a certeza que hoje o ouvi cantar através da janela. Quando é que alguém deixará também a minha porta aberta, tencionalmente sem querer?

A estrela

Era uma vez uma estrela. Vivia no espaço, como quase todas as estrelas (há umas que vivem em olhos). E tinha amigas estrelas, e amigos cometas. Os planetas eram demasiado grandes para serem amigos delas. Esta estrela tinha um sonho, que era o mesmo de todas as estrelas do espaço; brilhar tanto como o Sol, que é, de quase todas as estrelas, a mais especial (as dos olhos voltam a ser excepção). Mas havia um problema; ninguém sabia como era possível brilhar tanto quanto o Sol, porque todas aquelas que se pensava terem conseguido, desapareciam! A sorte deste conto, e de muitos outros, é que o facto de o sonho poder significar a morte nunca as fez deixar de sonhar.
Um belo dia, que no espaço é sempre noite, a nossa estrela conheceu um cometa. Bem, ela já o conhecia, mas algo nas suas belas crateras a despertou daquela vez para algo mais. Dentro de si, a estrela sentiu crescer um pequenino ardor, nada de mais, mas suficiente para ser sentido. Ela não sabia o que era. Nem sei eu, ainda, mas descobriremos. Se as estrelas dormissem, aquele ardor teria tirado o sono à nossa estrela. E se comessem, bem, ter-lhe-ia roubado o apetite. E se pudessem escrever, talvez tivesse escrito umas coisas parvas. Ah, e se fosse gente como nós e falasse com estrelas, então teria falado. Se calhar, por ser estrela, falou com gente, sentada num banco de jardim numa manhã qualquer. Mesmo que no espaço não haja manhãs nem bancos de jardim. Outra coisa que não há no espaço é tempo (e no tempo, há espaço?). O que é bastante aborrecido, visto que agora queria escrever que cada dia que passava o ardor crescia mais. Bem, de cada vez que a estrela via o cometa, o ardor aumentava. Um dia, ela tentou chegar-se ao pé dele e falar-lhe desse ardor. A única coisa que lhe saiu, claro está, foi um "parece que vai chover", o que fez com que o cometa ficasse a achar que a estrela era maluca, afinal, o que raio é a chuva?
O ardor cada vez crescia mais. O espaço pode ser infinito, mas a pequenina estrela não, e um dia não suportou mais. "Olha, cometa, eu gosto de ti. Estou apaixonada por ti. Queres namorar comigo?". A ideia teria sido dizer mais ou menos isto, mas quando a estrelinha chegou ao pé do cometa, ele estava a declarar-se a outra estrela, que nem sequer era mais brilhante, aqui para nós. E então, a estrela fugiu a correr, ao mesmo tempo que rebentou. E brilhou como o Sol! E correu, correu, correu. Cá na terra, um rapaz apaixonado e também sofrido de amores viu-a passar, fugaz, no céu negro. Desejou que ela o levasse com ela. Nunca saberia a sua história nem ela a dele, e no entanto, por segundos, abraçaram-se num desejo comum.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A Paixão

-É bom sinal gostarmos das mesmas músicas.
-Ora, como se fosse o mais importante...
-Bem, ao menos podemos amar-nos.
-Como assim?
-"Não se ama alguém que não ouve a mesma canção", nunca ouviste dizer?
-Claro, isso é do Rui Veloso. Adoro essa música!
-Tem graça, eu também...

terça-feira, 24 de maio de 2011

Não sei que título dar a isto

Eu sempre fui um poço cheio, até encontrar alguém que tinha mais sede do que eu.

Com a prenda do padrinho

[refrão:]
Com a prenda do padrinho
A partir de agora, eu tenho
(verde, amarelo, azul-marinho,
encarnado, preto e castanho)[bis]


De verde pintei a campina
sorridente ao sol da manhã
(amarela era a flor pequenina
qu'eu colhi para dar à mamã)[bis]

[refrão]

De azul pintei o mar sem fim
e de azul o céu vai aparecer
(encarnada era a rosa ao pé de mim
de tão linda nem a pude colher)[bis]

[refrão]

De preto pintei a noite escura
onde ninguém se quer aventurar
(castanha era a árvore madura
com tantos frutos a enfeitar)[bis]

José Barata Moura

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Plataforma

Atenção senhores passageiros, andai
Que vai chegando o comboio que é devido
Já não é o tempo restante comprido
Por isso as vossas bagagens enchei e carregai.

Malas enormes, outras muito pequenas
Abertas, nem que pouco, todas elas
Carregadas devagar, como chama de velas
Tardes de chuva ou manhãs amenas.

Caladas as bocas do que é fala
Os olhos, esses, nenhuns se calavam
No silêncio do que sentiam falavam
Consoante o que (não) traziam na mala.

Olhei a minha, já esperante
Da carruagem que por mim chegaria
E nela vi o que nela trazia
Cada objecto um relógio falante.

Pessoas, sonhos, e tesouros.
Que valiam como ponteiros no espaço
Cada um beijo, cada um abraço
Aos seus olhos azuis, e cabelos louros.

Ah, tempo perdido, e mesmo o ganho já saudade
O que tenho e de que posso fazer uso?
O tempo que mas deu, é agora intruso
Leva-me daqui, para longe da realidade.

Atenção senhores passageiros, andai
Que vai chegando o comboio que é devido
Já não é o tempo restante comprido
Por isso as vossas bagagens enchei e carregai.

A vida rica vira pobre, é assim norma
Chega o comboio, e leva-me a bagagem
Eu fico, tanto real quanto miragem
Na indefinida e desconhecida plataforma.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Puzzle

Não me           peças,          constrói-me.

O Silêncio, outra vez.

De súbito, as palavras não chegam. São pequeninas mesmo que com mil letras, e Deus sabe que eu amo as letras. É verdade que as palavras dizem muito, e até o dizem de uma maneira bonita, mas não dizem tudo, não podem dizer tudo. Disse-te que tudo o que existia tinha nome. Menti. Sem querer. Há coisas sem nome, sem palavra. Há coisas que só acontecem, só se sentem, só são verdade. Dizê-las é mentir, porque não se diz, não se diz! O que é que é suposto eu escrever agora? A poesia são palavras e letras, sim, mas é chegado o momento glorioso da vida de um poeta em não há métrica nem figuras de estilo onde se possa enfiar tudo aquilo que se quer dizer. Eu não quero dizer, e já me calei. Tudo há-de ser dito, em silêncios. Sem medos, nem pressas.

Confortos

Adoro andar à chuva, principalmente quando estou na cama a escrever sobre isso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Óasis

A areia queimava-me os pés, aquecida pelo Sol que outrora fazia parte de um sonho e não do pesadelo. Água era um pretérito-imperfeito, doutra maneira poderia ser futuro. E eu já não acreditava no futuro, pelo menos não em um diferente do hoje e igual ao de ontem. A dor nem sequer era sentida, aliás a dor era o não sentir. Água, água, água, onde andas? Tive-te na mão, de ti bebi, eras espelho sem sequer reflectires a minha cara. Podia para e só morrer, mas a esperança é a última a morrer e se eu parasse ela morreria antes de mim. Ah, a esperança não me movia, eu é que a mantinha viva, como aquelas pessoas que não apagam os fósforos tão só e apenas porque ainda há madeiro para queimar. E esta nem me queimava os dedos... À frente, água e plantas e flores e, enfim, vida. Parei. Se for uma miragem, poderei parar de vez, mais vale andar sem destino do que parar  para conhecer o último (valerá?). Se não for mesmo água... Oh, esqueçam, já não posso voltar atrás.

sábado, 14 de maio de 2011

O Silêncio

Cala-te.
Estou farto de não te ouvir,
Farto das tuas palavras vazias de palavra.
Cala-te.
Não torno a repetir.
Que é mais doce a calada larva
Pronta a crescer e florir.

Se não falam as folhas azul contra
Ou as pedras velhas da calçada
Porque falas tu, danada
Usando dos dentes vazia montra?

O som é barato e de comum uso
Tudo o pensado é também falado
O sentido, esse, é o ouro
Descoberto nas minas do silêncio calado.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Tu

Enches-me de silêncio, de sorrisos, de cores, de ti. E eu tenho tanto para encher...

terça-feira, 10 de maio de 2011

A estupidez

Foi antes do Sol nascer que as cores e o silêncio começaram, e foi depois de ele despontar no céu que deixaram de ser vividas. Não sei se foram momentos, horas, dias ou uma vida, afinal de contas, não é uma questão de tempo.

domingo, 8 de maio de 2011

Um sonho acordado

Juro que queria pôr uma foto do Jardim da Estrela como fundo do blogue, mas eu e as tecnologias temos uma relação difícil. Fica ao lado, pequenina. Entretanto calhou que eu fosse lá ontem (ontem Sexta e não ontem Sábado, é que apesar de já serem quase 5 da manhã para mim é Sábado até que o Sol nasça) e uma música tornou-se numa espécie de fundo estranhamente harmonioso para o Jardim. São agora, na minha cabeça, indissociáceis. Aqui está ela:

terça-feira, 26 de abril de 2011

Sem rumo

Escreve escreve
Vazia mente
Já não tem linhas nos espaços teus
Falaste de corações, eles não meus
E o que pertence o não desmente.

Foram-se as ondas da outra barca
A minha ficou sem mar
Nunca teve mapa, só o sonho
E a cruz, onde a ponho?
Quem nunca partiu não pode chegar.

E assim, capitão de uma orfã armada
Aponto ao horizonte, que não vejo
Ah, saudade perdida, ilusão morta
A mente a tece e a mente a corta
Perdido como lábios o são num beijo.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Psicopatia

Passa o rio e ficam as pedras cinzentas
Paradas, porque mexer não é sua razão
A memória vai, e presente é orfão
Oh, alma, nem rejubilas nem lamentas.

A brisa já não move os cabelos meus
Não me molha os pés nus a maré que vem
Escuro é o mal e escuro é o bem
O meu coração é ateu e eu o seu deus.

Onde estão as manhãs de Sol queimante?
Os mergulhos em oceanos cheios de nada?
A adrenalina do sentir, abandonada
Apatia, o só andar, nu reinante.

sábado, 26 de março de 2011

A praia

A praia era belíssima, cheia de gente, colorida, animada. A areia quente era um tapete confortável, a única rocha que não fere os pés, antes os acaricia. O Sol, lá no alto, convidava a banhos da sua luz, todo um cenário idílico. Claro, também a areia escondia perigos, conchas cortantes, pedaços de lixo deixados por alguém que não merece o paraíso mas ainda assim o terá. A luz solar podia aquecer mas também podia queimar e, de todas as pessoas, algumas não sorriam, destoantes no cenário.
Depois havia o mar. Recheado de ondas, ainda mas misterioso se formava, pois não era possível perceber a sua forma, ah, o mar não tem forma. Naquele dia em particular nem do céu se podia distinguir, o horizonte andava perdido entre os azuis. Este mar despertou-me curiosidade, senti-me atraído por ele, era aliás inevitável que a cada momento passado naquela praia me fosse aproximando cada vez mais dele, mesmo que contra minha vontade. A água beijou-me os pés, e logo o gelo subiu-me pelas pernas; claro que custa, todos o sabemos. Neste momento já não podia voltar para trás, ainda que a minha vontade estivesse presa com o calor da areia, as pessoas, todas as grandes pequenas coisas que deixara para trás. Precisava delas, e nem sei bem para quê. Fui entrando no mar. Quanto mais a água me conquistava as pernas menos as sentia. Ele estava a engolir-me. Chegou aquele momento crítico em que temos que ganhar coragem para mergulhar; pensamos e repensamos nos milhares de facas que nos aguardam lá por debaixo, um frio que nos faz esquecer o que são camas e colos. E depois saltei. E sabem aquela fracção de segundo em que sabemos o que nos espera, e que por temos saltado é já inevitável? Aquele fracção de segundo em que pensamos no frio já sem medos? Porque só podemos temer aquilo que não conhecemos ou aquilo que podemos evitar. Depois de mergulhar, tudo ficou bem, e não voltei a pensar na praia. Estava feliz. O mar era a minha praia, e será a praia de todos nós. Claro, isto é uma analogia para a morte.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Sob a Lua

Nós não amamos a pessoa em quem pensamos durante o dia, amamos aquela com quem sonhamos noite após noite.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Viagens

Da janela um conforto quente
Da fria chuva que vai caindo
Chama dentro da paredes humanas.

À lembrança um futuro diferente
Um amanhã nunca mais vindo
Um atalho fora das existências planas.

De uma paragem sei-me carente
Mas o caminho corrido é lindo
Mofinos braços, etéreas lianas.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Tua Palavra é a Rocha que salva

Houve um tempo em que ainda existiam pregadores, homens com o dom da oratória, que falavam com eloquência, paixão e armas importantes como a retórica ou a simbologia, ao jeito d'Aquele sobre quem, enfim, falam. A propósito disto, e retomo já já a narração que ia iniciar, para quem não acredita na figura de Jesus enquanto filho de Deus e não segue os ensinamentos da Bíblia como guias para a sua vida, tenha pelo menos em consideração que também Ele foi um excelente orador (facto histórico) e - confiram com qualquer bom professor de português - a Bíblia é só o livro (ou conjunto de livros, melhor dizendo) mais rico em figuras de estilo. Adiante. Nesse tempo, também os ouvintes tinham outros ouvidos, ou pelo menos não os tinham cheios de outras coisas, digo bem, coisas. Para além de estarem acordados e não trazerem consigo telemóvel, escutavam e bebiam as palavras desses tais oradores, ávidos de palavras sobre a Palavra. E isto é a minha introdução para uma história que, se não aconteceu de facto, podia perfeitamente ter acontecido, e basta que a imaginem para que ela se torne real.
Um destes pregadores falou assim ao seu povo: Irmãos, tomemos em consideração dois homens, que podiam ser quaisquer de vós, que me escutam, ou eu mesmo, que vos falo. O primeiro deles é um homem da Igreja, assíduo no culto ao Senhor seu Deus e aos santos que com ele coabitam nos Céus. Anuncia junto dos seus a palavra de Jesus com eloquência, sendo prendado nas palavras e forte nos argumentos. Um pescador com resistentes redes, e com elas pesca homens que, na prática, estão já pescados, como vós que me ouvis  acreditando já nas maravilhas da vida d'Aquele que morreu por nós. Mais do que isto, este sujeito celebra a Missa com uma regularidade superior àquela que lhe é, à partida, cobrada, sendo ainda assíduo nas rezas diárias. Este é o primeiro homem que vos quero dar a conhecer, irmãos.
O segundo é o contrário deste. Não é baptizado, levando portanto uma existência orfã dos rituais próprios do comum cristão. Não vai à Missa, não procura anunciadores da Boa Nova, não reza. E é este o segundo indivíduo. 
Dizei-me agora irmãos, quem dos dois está mais próximo de alcançar a vida eterna, por via do amor incondicional de Cristo? E respondo por vós, sem dúvidas, o primeiro. Fosse a fé cristã uma balança e a dele estaria provavelmente a rojar a areia que vós piseis. Certo? Errado.
Estais surpreendidos? Também o jovem rico o ficou perante Jesus de Nazaré, depois de ter recusado dar todos os seus bens, logo após ter enunciado de cor os mandamentos de Moisés. Palavras e obras irmãos, sabeis bem qual a diferença, mas pouco sabeis do valor real de cada uma. O primeiro sujeito declamava palavras bonitas, e cumpria com preceito os ritos da Doutrina. Mas conto-vos agora, e não o fiz propositadamente à pouco, que disto ele não passa. Na sua vida em nada faz valer as ideias que anuncia, criando fardos pesados que nunca tencionou carregar, entregando-os a outros e reprimindo-os se não cumprirem as leis que profetiza. Constrói uma enorme mansão, mas fá-lo sobre a areia.
Do segundo sujeito nada tenho a revelar senão aquilo que já vos expus. Porque será salvo, irmãos, aquele que for sensato e edifique a sua casa sobre a rocha firme, a Palavra de Deus, com tijolos de acções, cimento de atitudes e alicerces de obras, e souber fazer tudo isto em segredo. Soubera eu que este segundo homem era praticante de grandes obras, e já estaria ele a fugir das intenções de Jesus. Porque se a nossa recompensa não será dada pelos homens, então não nos preocupemos em mostrar a nossa grande e admirável fé, como o primeiro que vos apresentei. E se amarmos o próximo como Jesus nos amou, não precisamos sequer de referir o seu nome, pois já estaremos a evidenciar a sua vida.

Ainda e já

As fronteiras entre a juventude e a idade avançada resumem-se a duas simples palavras: ainda e .

terça-feira, 8 de março de 2011

Nos meus muros não há portas

Nos meus muros não há portas
Só bolas cristalinas feitas de vento
Que vão e vêm, coisas mortas
Fracos, fortes, e o não lamento.

A minha árvore não tem raízes
E já não sei se frutos lá por cima
As seivas minhas são meretrizes
Chama sem gás, só, esgrima.

Quem foi que me disse sorriso,
Se de sentir tal gesto carece
Folhas secas para trás piso
E vá-se o Sol, não me arrefece.

domingo, 6 de março de 2011

Sopro

Um criança corre com as pernas suas
Novas, frescas, com sede de vida.
Mas ainda curtas, esfolam-se nuas
Na via que é ainda comprida.

Médicos o vissem, comprimido já dado
Um adulto anónimo, um colo pouco quente
Outra criança um choro desenfreado
Cada pessoa, seu tratamento diferente.

Mas há remédio melhor que os da ciência
E, como será?, é extremo de bem
Sara a ferida e é de carinho essência
Um sopro e um beijo de mãe.

A placa de esferovite

Sempre amei o passado, e quando amamos muito uma coisa gostamos de olhar para ela. Um olhar diferente, uma contemplação, um adorar sem vénia mas muito, muito intenso. Fala-se imenso no beijo, no dar a mão, em carinhos e oferendas, mas não tanto neste gesto, pela simples razão de pouco ter de físico. Mas há coisas que só podem ser olhadas, lá está o passado. Tenho então no quarto uma imensa placa de esferovite onde, com alfinetes de várias cores (uns mais coloridos que outros) vou postando fotos e objectos que imediatamente me levam para um outro tempo, e trazem-me cheiros e sons e sensações, talvez mais saborosas do que o foram no momento em que foram presente. E o meu quarto não tem espelho nem janela, só esta placa de esferovite. Os anos passaram-se e sempre prestei culto a esta placa, enriquecendo-a com pedaços de uma vida que eu fui vivendo fora de tempo. E antes de morrer, caí no abismo em vez de subir a escada, porque fiz todo o caminho a andar para à rectaguarda. Agora o passado é por mim ansiado, mas não por o querer reviver; simplesmente faria tudo para o mudar.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Querubim salgado

A criança cresce e o mundo explora
Tudo é doce na plenitude sua
Aquilo que é mau logo se ignora
A Terra a si se abre, de preconceitos nua.

A dor também é enfim descoberta
A primeira ferida menos custa, é curiosa
Mas toda a coisa, má ou boa, é certa
Simples, definida, como a prosa.

Mas eis que a pequena encontra o amor
E a poesia do amar é um presente envenenado
Porque parece doce e vem do criador
Mas este anjo é um querubim salgado.

terça-feira, 1 de março de 2011

O que significa confiar

Em tempos idos, um homem acabado de assim se tornar procurava emprego. Procurou um senhor que sabia ser bom empregador, dono de vastos terrenos, sendo que a paga não era feita em dinheiro; ao trabalhador estariam garantidos os bens de primeira necessidade, a saber comida, roupa, tecto e cuidados de saúde. Por outras palavras, ao trabalhar para aquele patrão o homem não receberia qualquer compensação financeira, mas, vista rápida pelo assunto, não necessitaria de tal, pois nada mais seria necessário comprar. No entanto, este nosso amigo, cauteloso, quis saber segunda proposta, de um outro senhor também ele possuidor de uma herdade e igualmente conhecido por ser bom patrono. Este, ao contrário do primeiro, oferecia a totalidade do ordenado em dinheiro, quantidade que seria suficiente para cobrir as necessidades acima descriminadas, mas não mais.
Postas as duas ofertas, o homem resolveu que o melhor para si e para o seu futuro seria aceitar as duas, pois viria satisfeitas as suas necessidades primordiais e teria ainda o dinheiro para o que lhe aprouvesse. Quanto ao tempo, ele lá se arranjaria, poderia dormir menos e fazer numa hora o trabalho que normalmente levaria três. Os campos de ambos os patrões ficavam relativamente próximos, pelo que impossível, não seria. Mas foi. O tempo, sempre ele,  mostrou mais uma vez que não estica e o nosso homem rapidamente percebeu que não podia servir a dois senhores, era inexequível. Aliás, ambos os patrões, conhecedores da sua situação, já lhe haviam feito saber as suas considerações; o senhor do dinheiro mostrara-lhe que com o seu salário poderia fazer o que quisesse, mesmo que menos comesse ou mais frio passasse. Podia comprar coisas, e isso é algo de fenomenal, disse ele. Assim, todo o tempo e dedicação do trabalhador deveriam ser despendidos para a sua lavoura, e não para a propriedade do vizinho. O primeiro patrono, todavia, falara-lhe de maneira diferente; Filho, começou, " vejo que serves a mais que um homem, não por necessidade mas por sobeja. Como notas, e sei que notas, Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podes servir-me a mim e a esse outro patrão, nem precisas, se me permites que o diga. Dou-te tudo o que necessitas, trabalhando para mim não tens que te preocupar com o dia de amanhã. Vives cada dia e só com o presente terás que estar em cuidado, pois o amanhã asseguro-to eu. Agora, se servires a quem te dá dinheiro, terás que planear e problematizar, e mais tarde ou mais cedo cairás na tentação do supérfluo, e amanhã não terás que comer, ou tecto onde passar a noite. Olha para os animais e para as plantas da minha herdade, a todos estimo como a mim mesmo e todos podem respirar sabendo que o próximo fôlego lhes está assegurado. Comigo não terás jóias nem vestes caras nem banquetes maiores que a barriga, mas se te curvares perante o peso do ouro, então faltar-te-ão os dedos e os membros e o estômago. Confia em mim, e a confiança será a rocha onde edificarás a tua casa.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Lenço

Eu chorava e chovia
Pois o Céu chorava desconsolado
Ou assim o via eu;
Porque tudo o que era núcleo meu
Era ver lágrima em todo o lado.

Já não sei hoje o natal desse sal
Do medo, da solidão e desespero
De onde veio o não se saber por onde ir
Porque do meio do escuro fizeste luzir
Um pedaço de sorriso, um pedaço mero.

Um colo quente como se foras mãe
Um colo que já não dispenso.
Pois o Sol brilha e o Céu sorri
Desde que no meio do choro que verti
Com a tua boca, foste um lenço.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Greve

Tudo é exagero no seu ser
Tudo o que é e que se inventa
Pequena ferida e vou morrer
Sorriso e logo a vida é lenta.

Ah, arrebatadora existência
Mil maratonas de sentir
Nada e tudo me são essência
Triste consigo chorar a rir.

Mas cansa esta guisa de caminhar
Que já fez de muitos passos breve
E por muito que me custe pensar
Hoje, da emoção eu faço greve.

(Mas só um bocadinho)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Embriaguez

Saía o Sol detrás das colinas
E cantavam os pássaros que acordavam
Ah, os cheiros da manhã chegavam
Pão quente, orvalho, vida.
E eram portas que se abriam
Enquanto se abriam olhos meus
Olhos janelas para os céus
Azuis, paisagens de pensar e de sentir.
E tudo isto eu absorvia ávido
Fome tinha de um novo dia
Uma embriaguez que tão bem sabia
Voo plano sem asas ter.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Chove

Chove.
Cada gota é um beijo na minha pele.
A alma aquece com o corpo frio,
E o meu passo é lento no meio
De tantos rápidos.

Chove.
A chuva é minha amiga
Conta-me segredos do Sol
Que nem ele sabe
E do céu traz-me versos
Poesias escondidas de gostos
Comuns.

Ah, os arrepios, a sensação de liberdade.
Se me abrigasse era como os outros
E se cada gota é diferente
Porque haveríamos de ser nós iguais?
Se a chuva é choro, é contente
Comoção de Deus enviada
Chove, e eu não me abrigo
Ele há-de me levar na mão
Consigo.

Para a Catarina Pereira, 
que está engripada por ter dado a mão a Deus.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Querido inimigo, a ti também te amo!

Era julgado na barra do tribunal um homem velho, gasto pelo trabalho de uma vida que nunca lhe sorrira, mas dos lábios poucas vezes lhe saiu o sorriso. Era inocente, e o caso para aqui pouco interessa, tenho que me debruçar sobre aquilo que a justiça ignorou. Dizem que é cega, talvez se tivesse olhos pudesse ver que aquele homem não tinha maldade na sua aura, mas enfim, não se julgam "auras".
O homem que o acusava era muito poderoso, e tinha uma vida rica pela frente à custa de muitas pobres que espezinhara e deixara para trás. À sua maneira, exercera a sua influência sobre o juiz que lá deixara de ser invisual para conseguir ver o caminho para o seu próprio bolso. Condenado, grande surpresa. O velho estava desolado, apesar de já esperar aquele desfecho. Não chorava, na verdade não expressava nenhuma emoção. Ao longo da sua vida aprendera a resignar-se perante certas situações, entregando o seu futuro nas mãos de Deus. Era crente, mas não daqueles que cobram de Deus aquilo que lhes corre mal e o ignora quando a vida é só alegrias. Para aquele homem tudo tinha razão de ser, e todas as situações que parecessem totalmente orfãs de sentido (ou de justiça,  como era o caso) eram por ele aceites.
Era uma questão de tempo. Não, ele não acreditava que o karma acabaria por cobrar contas àqueles que haviam procedido mal, isso implicaria guardar rancor e desejar mal, não; olhava mais além. Tudo acabaria por passar. A vida é passageira e muito curta, e mais à frente tem que haver felicidade guardada, um tesouro no céu. Secretamente, tinha até as suas próprias projecções do Paraíso, e elas se entregava quando tudo parecia ruir. Sonhava em chegar ao céu e poder voltar a ser criança, inconsciente e sem problemas e feliz e ter perfeita consciência disso. Uma inconsciência consciente, era o sonho dele.
Enquanto tudo isto lhe aflorava a mente, sorriu, no meio do tribunal. Ninguém reparou. Encaminhou-se para a saída e cá fora cruzou-se com o acusador. Por um momento, os olhares cruzaram-se; o jovem sentiu repulsa, talvez mais por si mesmo que pelo velho. E afastou-se. O homem, enquanto o via caminhar, sentia pena dele, uma sincera piedade que nada tinha de cínico. Nunca sentiria a pura felicidade, uma felicidade intemporal. E dificilmente amaria. Em casa, o velho tinha à espera a sua esposa. Pensou nos longos anos que passara com ela e no quanto a amava. E aos filhos, e anos netos. Valiam todas as provações por que passara, e viesse mais uma vida inteira de dificuldades se a recompensa fosse aquele. No passado, pensou, e no futuro, existem refúgios para um hoje desesperante.
Enquanto estes pensamentos lhe ocupavam a mente, reparou numa carteira no chão; caíra do bolso do sujeito que o acusara. Correu para a apanhar. Não a abriu, mas adivinhou o dinheiro que lá deveria conter, provavelmente suficiente para lhe suportar um mês de mercearia, talvez dois agora que as dificuldades iriam aumentar de sobremaneira graças ao que teria que lhe pagar, ao jovem e ao tribunal. Mas isso nem chegou a ser hipótese. Acelerou o passo e apanhou o homem à entrada para o elevador. Ele ainda se assustou, pensou que o velho o fosse tentar agredir, mas ao ver a sua carteira acalmou-se. Recebeu-a das mãos do velho, que lhe sorriu e aconselhou cuidado, como se estivera a avisar o neto pequeno dos perigos das correrias. Não o disse, mas era capaz do o amar, àquele homem que tanto mal lhe fizera.

Porque amar quem nos ama pode ter muito que se lhe diga mas é fácil porque faz sentido, agora amar o inimigo é ser-se algo mais, e acreditar em algo mais. E desejar algo mais.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Injustiça

Guimarães a pano de fundo, castelo no horizonte e um aroma no ar a um D. Afonso Henriques que já foi guerreiro mas anda agora adormecido, ou talvez sejamos nós que ainda não tenhamos percebido que quem está acordado é que deve sonhar. A tarde era de um Sol imenso, estranha essa condição humana de procurar a sombra quando aquece e desejar o calor em dias de chuva.
Na esplanada procurava-se então essa frescura que a Natureza não dava, entre chapéus-de-sol e bebidas e gelados. Numa das mesas estavam dois senhores muito bem apresentados, de fato. A indumentária pode parecer inapropriada para o dia que se descreve e nem eu de facto entendo muito bem, mas eu não trabalho numa empresa nem nada disso, mas os dois homens trabalhavam e mandava a sua profissão que se vestissem como certos seres do gelo mesmo em dias de calor intenso. Falavam um com o outro sobre números e contas e dinheiro, dinheiro que iam gastando num ou outro refrigerante para arrefecer por dentro, mas claro, o problema era o terno de fora e de nada servia.
Na praça onde se situava a esplanada deambulava um poeta, um pobre miserável que nem tinha dinheiro para mandar cantar um cego, e então cantava ele. Mas cantava à maneira de Camões, escrevendo.Enquanto andava sem rumo propunha uma oferta a quem achasse digno de tal negócio, que era a seguinte: o segundo outorgante (ele não conhecia esta palavra, mas se lha dessem trabalha-la-ia com o mesmo amor que dedicava às outras) escolhia uma expressão qualquer, ou uma palavra, e a partir dela o poeta criava o que de melhor os poetas criam, poesia. Ou terá sido a poesia a criar os poetas? Adiante. Conforme a pessoa abordada gostasse ou não do poema nomearia um preço e compraria o texto por essa quantia. Claro que a poesia sempre é subvalorizada e o dinheiro que o homem lucrava mal dava para comprar mais papéis e lápis, quanto mais para comer.
Ao longe o nosso amigo poeta viu os dois homens de fato na esplanada. Jeito como tinha para o negócio, percebeu que dali podia arrancar algum dinheiro, ainda que pouco amor por poesia. Tentaria a sua sorte. Aproximou-se e no jeito enigmático que só um poeta de rua pode e sabe ter, expôs as condições. Um dos senhores decidiu que o melhor seria ignorá-lo, o pobre coitado deve querer dinheiro para drogas ou bebida, ainda que não tivesse aspecto disso, como se interessasse. O outro, porém, pôs-se a pensar, com pena do desgraçado. Havia pessoas que realmente pouco tinham, a vida não lhes havia sorrido. Ele por exemplo tinha tudo, aquele homem não tinha nada. Seria justo? Injustiça, disse, escreva sobre a injustiça. Afinal, qual seria a opinião de um injustiçado sobre a injustiça? O seu amigo ficou surpreendido, mas o poeta sorriu e pediu um lugar na mesa onde estavam, que lhe foi concedido. E entregou-se ao papel, com a cara extremamente próxima, de testa franzida e língua massacrada pelos dentes. Por uns minutos escrevinhou e riscou até que, com um sorriso, pousou o lápis. Pegou no trabalho final, pigarreou e, levantado, declamou o próprio poema:

Deus,
O Sol nasce e a todos aquece
Pois para todos é o seu nascimento.
Mas, piedade, olhe-nos um momento
Será que esta gente merece
Tamanha tortura, tormento?

A que coisas a vida obriga
Pele coberta, e a ferver
Preferia mil vezes ter que morrer
A esta punição que tão grave castiga
Ter a perfeição e por ela sofrer.

Injustiça, quem o nega?
O Sol não queima, só conquista
E que brilhe sem ofuscar a vista!
E se é verdade que a justiça é cega
Então que seja a injustiça vista.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Chá

Versos pétalas naturais
Aromas, como mais não há
Não quero tesouros nem nada de mais
Eu só quero de poesia um chá.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Fim

O calor fazia ondas no horizonte
Longe, já parecera tão perto.
O carro seguia, em velocidade
Quer lá saber do que é verdade
Segue em frente, isso é certo.

Vens ao meu lado, ainda.
Apanhei-te lá atrás, num tempo perdido
Foi, espera, quando foi?
A memória é uma coisa que dói
Ah, se ao menos eu tivesse esquecido...

Gostei de ter aqui, no lugar do passageiro
Quem diria que até aqui, duplo significado?
Foste companhia, quero-te comigo
Mas o tempo não foi amigo
E à frente, ali, é amor acabado.

Não digas que não te amo, e não chores.
De choro tenho eu o peito a derivar
Dá-me a mão, quero o teu abraço!
Ah, Pai, o que é que eu faço?
Quero que fiques, mas não quero ficar.

Parei o carro, mas a estrada não acaba
A areia, a areia de correr não pára
Vai, é melhor assim, eu fico aqui
A ferida queima-me a mim e a ti
Mas o tempo, que nos separou, também sara.

Canção de embalar

Papá, tenho medo, não vás embora!, disse eu. O quarto estava muito escuro, e a minha pequenina cama podia esconder por debaixo dela imensos monstros e coisas más. Marta, não tens que te assustar com nada... está tudo bem... vês?, respondeu o pai, enquanto espreitava debaixo da cama e abria o guarda-vestidos. Mas não vás embora papá, por favor, espera que eu adormeça...  Mas nunca te custou a adormecer querida, que se passa?, perguntou-me. Não sei, estou assustada, e só de imaginar ficar aqui sozinha no escuro tremo toda! Desculpa... Não tens que pedir desculpa filhota, o pai fica aqui então. Só espero que não se tenha passado nada que não me estejas a contar, isso sim, assusta-me e preocupa-me.

Tinha de facto acontecido. Na escola, na turma da pequena Marta, um pai de um dos colegas falecera, o que levara a professora a explicar o que era a morte, algo que muitas daquelas crianças não percebia muito bem ainda. Tudo isso fizera Marta pensar na possibilidade do seu pai ou da sua mãe morrerem, o que a afligia.

Não, papá, está tudo bem. Só quero que fiques, sim? Tudo bem querida, queres que te conte uma história?,
perguntou-me o pai. Não, uma história não. Cantas-me uma canção?

O pai sorriu e acenou, sem falar. Baixinho, quase num sussurro, começou a entoar uma canção. A pequena Marta não a conhecia, na verdade nem entendia muito bem o que dizia, não parecia ser português. No entanto, a voz grave mas suave do pai soava-lhe imensamente bem, e logo se sentiu mais segura, mais quente, protegida. Parecia que o pai lhe tinha pegado ao colo, envolvendo-a num abraço quente. A menina pouco percebia de música, e o homem, se tinha algum dom artístico, não era o da música, pelo menos não o do canto. Pai e filha, nenhum dos dois percebia de notas musicais nem de tons, mas a música não é como o dinheiro, só para uns. Toca a todos. A pequena Marta sentiu os olhos a pesarem-lhe e fechou-os, devagar. Cada verso, cada palavra que saía cantada dos lábios do pai era um beijo que lhe era dado na alma, e logo os medos foram substituídos por sonhos, e estava tudo bem.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Alfinete

Quantas vezes nos pediram, na escola que escrevêssemos ou falássemos daquilo que gostaríamos de ser quando fôssemos grandes? E quantas vezes respondemos astronautas, polícias, veterinários, jogadores de futebol? Ou então, claro, falávamos da profissão dos nossos pais e do quanto gostaríamos de ser como eles, crescidos e importantes, mesmo que, lá no fundo, isso nos parecesse uma grande seca. Mas um dia houve um menino que escreveu algo de diferente numa dessas redacções de escola. A professora, que era uma velhota daquelas que muitas vezes se esquecem do que é ser-se criança, considerou do alto das primaveras que já contava e já nem sabia contar que o menino não entendera o pedido, e mais, arquitectou uma sentença toda catita, o pobre rapaz tinha "dificuldades de aprendizagem". Todos concordaram com a opinião da experiente docente. Fica aqui o pequeno texto do Afonso, um menino do 4º ano, e cada um tire a sua própria conclusão!

Compuzição

Cuando eu for grade

Cuando eu for grade quero ser um alfinete.  
a maim é custureira e tem muintos, e eu goxto muinto deles. Axo que todas as pexoas deviam ser alfinetes.
Os alfinetes pódem ser espetados todos que tem lá uma coisinha que naum deixa espetar mais, e axim nunca perdemos o alfinete. Naum podemos é espetar so poco porque senão o alfinete cai e axim perdemos. Se perdermos um alfinite poro espetarmos demaix ao menus sabemos onde ele está se espetarmos poco pudemos perdelo pra sempre.
Eu quero ser um alfinete porque axim podia espetarme na carulina da sala 3. eu temtei espetarme nela mas eu naum sou um alfinete e naum tenho aquela coisinha e entaum espetei muinto e perdime ao menos foi dentro dela e ainda sei onde estou.

Migalhas

Eu tinha um bolo que era só meu
Um bolo enorme, de chocolate.
Um bolo doce, que me aqueceu
E só de pensar, o coração bate.

Quando desejava dele comia
Se não quisesse, logo o arrumava
E foi-se indo fatia atrás de fatia
Conforme a vontade mandava.

E tinha morangos esse bolo
E natas e nozes e muito recheio
Criança, queres correr ou queres o colo?
Deus, porque não há um termo meio?

O bolo claro, teve o seu fim
Como quando caíram de Tróia as muralhas
E eu, que o tive todo mas nem todo veio a mim
Choro agora sobre as migalhas.

Abecedário

Queria dizer-te o quanto és
Quanto, quando, como, onde,
Mas o verso outrora livre se esconde
Pequenino, criancinha aos teus pés.

Algures perdidas num mar de nada
Bóiam, sem dono, as letras meu alimento
Correm a mim e são meu sustendo
Desde que seja a fome passada.

A,B,C,D, percorro e desnudo o dicionário
Mas eu não sei ler, ou elas não me lêem a mim
Nunca soube números e biologias e coisas assim
E hoje, hoje já nem sei o abecedário.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Repetição

Carreguei no play, depois de ter colocado em mim a nossa pequena cassete. Claro que tive que fazer rewind, puxar a fita atrás, porque hoje tu és saudade e sempre o és desde que te tornaste ausência. Chegou ao início e sim, agora o play. Lá estavas, perdão, cá estavas tu, logo dentro de mim pouco depois de teres estado à frente. Lembro-me da primeira vez que te vi como se de facto as imagens passassem na minha televisão, passam na minha alma e vejo-as com os olhos que ela tem. No primeiro momento em que a minha vista pousou na tua houve uma pausa, uma pequena suspensão temporal, como se naquela altura um pintor tivesse pedido que parássemos um pouco para que ele recheasse uma tela com as emoções estranhas que de nós brotaram. Éramos jovens, crianças, e para as crianças amar é fácil, basta viver... Aqui torna-se ainda mais curiosa esta metáfora de que me lembrei para nos descrever. Enquanto não nascia um novo dia que me trouxesse de prenda a tua presença, a minha vida andava em slow motion, câmara lenta. Juro-te que até a água que ia buscar à torneira para me acalmar parecia demorar-se nos canos, malandra, perversa. O tempo brincava comigo e com o que sentia, e pior o fazia quando finalmente estávamos juntos. Acelerava, ele, o tempo. Mal te via já tinha que te virar as costas, e de novo o mesmo suplício do arrastar das horas. Num desses fogachos de tua presença no meu dia convidei-te para sair, e como sempre achei que cinemas eram pouco, levei-te a um jardim, que ainda é menos para quem achar que sim. Não interessa o que falámos porque não disse nada de jeito, o coração atropelava-me as palavras, interessa o beijo. Nova pausa. Essa eterna, pois tenho para mim que ainda hoje, agora mesmo, lá estamos os dois, perdidos um no outro, donos agora desse tempo que cruel brincara com o nosso amor de meninos. Perco mais tempo aqui que no resto do filme, é sempre assim nas melhores partes... Fast Forward agora, andar para a frente (tem mesmo que ser?...). Quanto tempo? Não sei quanto foi, nem quando. Parece que foi ontem, e mesmo que tenha sido parece ter sido há milhares de anos, muitos antes de ter inventado na minha vida isto dos filmes e dos botões. Agora, a dura realidade cai sobre mim e, enfim, apago a tela; posso voltar a atrás lembrando, mas não posso tornar a provar amanhã o mel que deitei fora ontem. A vida tem tantos botões, Deus, porque não criaste o da repetição?

Sim, sim. Não, não.

A Lei aconselha-nos a que não roubemos nem matemos, entre outros atentados ao próximo. Pronto, aconselha-nos é mesmo uma forma de dizer; obriga-nos a isso. A alternativa inclui grades e grilhões e vá, não é bonita. Sei que pareço frio por dar a entender que é esta Lei a única coisa que me impede de espetar uma facada na vizinha do lado só porque não gosto das calças dela, mas agora que já me puseram em causa vocês, eu pergunto: não matar e não roubar, mesmo que por uma cortês atenção à dignidade humana (e à nossa própria, porque remorsos também são, vá, incómodos) faz só por si uma pessoa boa, quente em oposição à tal frieza? Pois bem, se eu amasse a tal vizinha do lado, para além de deixar a faca guardada na gaveta e o sangue nas veias dela provavelmente ainda me relacionaria com ela, nem que fosse o típico pedir "um raminho de salsa", mesmo à antiga. Porque respeitar a Lei de hoje faz com que não sejamos maus, respeitar uma outra Lei (que não se estuda em Direito, nem tem artigos, só capítulos) faz de nós pessoas boas. E se me pedem que ame (pedem, não obrigam), então ou digo sim, sim, ou não, não. Sem zonas cinzentas, sem explicações, sem promessas para um amanhã eterno. Porque um sim muito explicado ou prometido é, na verdade, um não. Ah, e eu digo sim, sim.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Não sei

Não sei se é gelo ou fogo ou ar
A semente desta terra que me alumia
Nem sei se é chão ou é voar
Se me dá vida ou vai matar
Se é mais ilusão ou mais magia.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Quiasmo do dia e da noite.

Vai o dia nascendo                                                  Cai a noite, ao seu jeito rainha
Curto, se fora a tarde a sua vida                              Dos calados, mudos falantes
Pois mal rompe, vê rompida                                    Que em silêncios calados gritantes
A existência de Sol aquecendo.                               É de todos, mas nem tua, nem minha.

                                             A madrugada é o refúgio amigo
                                             Mais o entardecer, de igual destino
                                             Num cai a Lua, noutro chega o Sol
                                             E tudo isto é um caracol
                                             Uma espiral, um desatino.
                                              E os amantes não se encontram
                                             Mal sabem que mal se tocam
                                              Pois se há verdades que sufocam
                                             Ao menos as ilusões, como são, alentam.

Cai a noite, ao seu jeito rainha,                                      Vai o dia nascendo
Dos calados, mudos falantes                                          Curto, se fora a tarde a sua vida
Que em silêncios calados gritantes                                  Pois mal rompe, vê rompida
É de todos, mas nem tua, nem minha.                             A existência de Sol aquecendo

...

E eis que das cinzas da apatia e dos versos dispersos, se levantou o pássaro vermelho escarlate, de asas apontadas ao Sol seu pai, imponente e fogosa, a Fénix renascida.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Parabéns didi!

Venho por este meio informar que hoje, por volta das três e doze da tarde, nasceu o meu irmão do facebook, Diogo Mendes Navalho da Silva. Este homem, sim homem, com 19 anos teima em achar que é uma criança. Continuo e espero que os leitores, leitoras e futuros usurpadores deste blog tenham em conta esta triste situação e lhe tentem continuar a meter juízo.

Extremamente agradecido, o eternamente vosso: Daniel Carvalho

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Pescar

Começar um texto, criar um poema, traçar a mais leve palavra a lápis é tal e qual como ir à pesca. Por mais que nos preparemos, tenhamos atenção às marés, escolhamos uma boa linha, tratemos da nossa cana, tanto podemos apanhar um grande e saboroso peixe como uma bota velha, ou mesmo nada. E às vezes quanto menos preparamos, melhor se torna o isco e o anzol a nós não pica.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

It's not over

My tears run down like razorblades
And no, I'm not the one to blame
It's you ' or is it me?
And all the words we never say
Come out and now we're all ashamed
And there's no sense in playing games
When you've done all you can do

But now it's over, it's over, why is it over?
We had the chance to make it
Now it's over, it's over, it can't be over
I wish that I could take it back
But it's over

I lose myself in all these fights
I lose my sense of wrong and right
I cry, I cry
It's shaking from the pain that's in my head
I just wanna crawl into my bed
And throw away the life I led
But I won't let it die, but I won't let it die

But now it's over, it's over, why is it over?
We had the chance to make it
Now it's over, it's over, it can't be over
I wish that I could take it back

I'm falling apart, I'm falling apart
Don't say this won't last forever
You're breaking my heart, you're breaking my heart
Don't tell me that we will never be together
We could be, over and over
We could be, forever

I'm falling apart, I'm falling apart
Don't say this won't last forever
You're breaking my heart, you're breaking my heart
Don't tell me that we will never be together
We could be, over and over
We could be, forever

It's not over, it's not over, it's never over
Unless you let it take you
It's not over, it's not over, it's not over
Unless you let it break you
It's not over

Secondhand Serenade