domingo, 28 de fevereiro de 2010

Remoinho, centro e exterior

Há momentos em que apetece assentar. Memórias passadas assaltam a lembrança disfarçadas de confortáveis e lutam contra aquilo que sei que, por agora, é o que posso e quero viver. Há momentos em que o frenesim artístico rodopia à minha frente e eu, sentado, mal consigo abrir os olhos para o observar, quando habitualmente estou meio no centro dele. Quando nestas alturas me deixo adormecer, sinto o sonho cortado e preso por grilhões de diamante e tenho que deles me libertar logo. Felizmente, ainda só depende de mim. Mas hoje, nem me vou deixar adormecer. Nem hoje nem amanhã. Adormecer e descansar para logo depois ter que ir entrar de novo no tal tornado é demasiado cansativo para um preguiçoso por excelência. Se as consequências só se conjugassem na primeira pessoa, ainda ensaiaria essa atitude mais vezes. Mas não. E só depender de mim torna-o numa responsabilidade muito, muito grande. Demasiado grande. Talvez demais para mim. Ainda assim, tomo o fardo daquilo que sou e, sofrendo com isso, evito sair da liberdade total, nem me deixar adormecer.
Mas custa, mesmo. Gostava de poder adormecer sobre o peito de alguém, protegido como só um bebé sabe que está, e sonhar, sonhar, sonhar, descansar sem a inquietude de quem já conheceu o o furacão poético e dele não se quer afastar. É uma liberdade que aprisiona, o que quer que isto signifique. Também por isto este meu blog se chama assim. Não sei mesmo que nome dar a isto. Não é descritível, só o será quando um texto for uma prancha e qualquer paciente leitor salte dela directamente para o meu eu. Mas escrita criativa é isto; ir tentando.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Transcendências

Acho muito curiosos aqueles momentos vulgarmente conhecidos como "déjà-vus". Ninguém consegue saber ao certo o que são, porque acontecem, de onde surgem. Li num qualquer sítio que não passa de um momento em que o cérebro não assimila imediatamente aquilo que vê, originando de seguida a sensação de já termos vivido a presente cena. Como muitas das coisas das ciências, não passa de balelas, bem rídiculas. É algo mais, tem que ser. Pessoalmente, quando tenho um déjà-vu sinto que estou a repetir uma situação de um passado que já vivi mas não me recordo totalmente. Uma recordação que assalta a mente sem ter aquilo que as recordações exigem, um pretérito. Pergunto-me que vivência terá sido essa e, mais que tudo, se será coincidência estar a repetir tantas situações. Estarei a repetir os mesmos erros, ou as mesmas atitudes correctas? A minha vida já está traçada? Impossível. Se agora escrevo isto, é porque quero. De qualquer modo, são paranormalidades destas que me fazem sorrir e saber que a vida não é algo de concreto e absoluto, existem variações e mistérios e tudo aquilo que somos não está preso a um espaço e tempo. Há algo mais. Se não houvesse, não era vida, nem valia a pena ser.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Tudo

Se amada poesia
É tão corpórea quanto lembrança,
Pergunto: quando morrer
Que poderei deixar em herança?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Cama

Conforto é fonte
E fogo e fim.
É verso feito,
Em mundo em mim,
É rio e monte
Seu cume e leito.
Nele pincel deito
E quadro é nado
Pinto pretérito
E hoje
E fado.

Comoção

Por muito frio que faça, só o fogo caloroso me faz tremer.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O adeus

Temos imensa pena. Fizemos tudo o que podíamos, mas neste momento, apenas as máquinas prendem a sua bebé à vida. Teremos que as desligar, é demasiado pequenina, é certo que sobreviveria algumas semanas mas nestas condições nunca se desenvolveria de modo a combater a infecção. Foi bom que o senhor tenha tido possibilidade de instalar aqui em sua casa a incubadora, terão sido mesmo aqui as últimas horas da sua filha. É provável que depois de desligados os aparelhos sobreviva duas a três horas, com sorte. Deixo-vos a sós, os meus sinceros sentimentos...
A médica especialmente contratada para acompanhar as derradeiras horas da pequena Leonor afastou-se. O casal estava em estado de choque; ainda que fosse aquele o cenário mais provável e mais antecipado, a esperança, por mais que leve, estava lá e agora queimava. A mulher sentou-se e, como que hipnotizada, fitava o vazio. Talvez vislumbrasse todos os anos que Leonor não cresceria, o primeiro dia de aulas que não teria, o primeiro inocente amor que não viveria, as mil profissões que não escolheria, o primeiro animal que nunca teria, tudo, tudo aquilo que pinta a vida de uma menina que nada fez para merecer o destino que tivera. Só Deus tem os que mais ama. O pai, esse, exteriormente mais forte, aproximou-se da incubadora e, sem chorar, olhou para a sua filha. A pequena bebé respirava com dificuldade, já após lhe ter sido visto cortado o único fio que a ligava a vida. Era pequeníssima, indefesa: havia nascido prematuramente, com 7 meses, e a sua fragilidade levou a que contraísse uma grave doença pulmonar. Após saber o provável destino da pequena, o pai, homem bastante rico, fizera questão de instalar no quarto que viria a ser de Leonor uma pequena unidade de cuidados intensivos, para a qual contratara também uma equipa altamente prestigiada em casos daquele foro. Sentia-se injustiçado, revoltado; a filha nunca conheceria o mundo que, por muito que de negativo pudesse ter, era belo.
De repente, uma ideia assaltou-lhe o espírito; olhou em redor, verificando que o quarto estava vazio. Alguns médicos retiraram-se, três estavam a prestar cuidados à esposa. A doutora chefe preenchia distraída uns papéis. Pegou então numa peça de roupa de bebé de corpo inteiro, abriu a máquina silenciosamente e, com um carinho e afecto que só um pai ou mãe têm, vestiu a sua menina. Calçou-lhe também umas botinhas cor-de-rosa e enrolou-a numa manta quente. Escrevinhou um bilhete à pressa, que colocou onde momentos antes estivera a bebé, para quando dessem pela ausência de ambos. E saiu, sorrateiramente, talvez louco, talvez não.
Dentro de vinte minutos estava na praia com Leonor. A bebé respirava com igual dificuldade, mas incrivelmente não chorava; faltariam-lhe forças, ou saberia a inevitabilidade do que a esperava. O pai percorreu a praia e, perto das rochas onde o mar batia furiosamente, sentou-se. Estava maré cheia.
Vês, filha? É o mar. Aqui para nós, é o elemento mais belo, nunca duvides. Um dia já o tememos, até que fomos suficientemente corajosos para o conquistar. É bonito, não é? Dentro dele vivem peixes. Uns grandes, outros pequenos. Também há lá algas; as flores do mar. E há sereias filha. Sereias são uns seres que são metade peixe e metade mulher. Cantam extremamente bem, e são quase tão belas quanto tu. Acima, azul, é o céu, Leonor. É ele que dá cor ao mar. Aquele risco lá longe é o horizonte, o ponto distante onde os dois se tocam. Se calhar vais para lá amor, não sei. Aquilo? Aquilo é o Sol princesa. Não olhes tão directamente, faz mal. O Sol é o que dá vida a toda a Terra. A Terra é onde nós vivemos doce. É um lugar majestoso. Há muitos sítios diferentes; há florestas com fadas e duendes, desertos com oásis e tesouros enterrados, pântanos com torres onde princesas aguardam o salvamento pelo seu príncipe encantado, que antes mata o dragão. Dragão é um lagarto enorme com asas que cospe fogo. Não tenhas medo, nunca te fará mal. Nada te fará mal amor, nunca permitiria. Sabes, filha, neste planeta, há muitos animais. Há girafas e macacos e leões e cavalos. E também há borboletas, que são fadas sem varinha mas que espalham magia, e se vestem de flor, e as flores são os enfeites da Terra. Aqui na praia não há flores Leonor, mas há a música do mar. E o cheiro a maresia. Aqui há poesia querida. Poesia é tudo aquilo que tu sentes ao ver, ou vês ao sentir. É complicado porque estou a tentar explicar, poesia não se explica, vive-se, sente-se, é-se. Tu és poesia amor. Ah, sim, e amor é a coisa mais bela que existe neste planeta, na Terra. Amor é o melhor amigo da poesia. Amor é um sentimento, e também é díficil de descrever. Amor é gostar muito de uma coisa ou de alguém; por exemplo, olha ali ao fundo. O mar e o céu amam-se. Amam-se tanto que não se importam de estar longe um do outro. O céu dá cor ao mar, e o mar dá-lhe música e pinta-lhe um quadro muito bonito. E amam-se tanto que não se importam de esperar. No fundo, sabem que lá ao longe, no horizonte infinito, se hão-de encontrar. Amor é também o que os Homens cá da Terra sentem uns pelos outros. Sim, todos sentem. Alguns não sabem, mas descobrem mais tarde ou mais cedo. Sem excepção. Este planeta nem se devia chamar Terra, devia chamar-se Amor. Eu amo o mundo, sabes Leonor? E sabes, tu és o meu mundo. Não te conheço, mas sei a tua cor preferida, sei que música mais gostas, sei que cor de cabelos vais ter. Sei tudo sobre ti. Porque te amo. Olho no fundo desses teus olhos e vejo-te e vejo-me e vejo a mamã também. Sei que também nos amas minha flor. Agora, tu vais partir, vais fazer uma viagem muito divertida. O papá e a mamã não podem ainda ir, mas irão ter contigo. Sim, no Paraíso, que é um sítio ainda melhor que cá a Terra. Nunca te esqueças, filha. O papá ama-te. Adeus amor.
Estas últimas palavras já foram acompanhadas de grossas lágrimas. A pequena bebé parecera por uma fracção de segundo sorrir e suspendera a respiração, quente, nos braços do pai. Morrera, e talvez a sua alma nunca tivera tão viva.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Neolomentos

Ainda bem que nasci com algum jeito para a escrita, em vez de nascer mais virado para a cantoria. É que voz só há uma, e dedos, tenho-os dez. Para além disso, podemos ocasionalmente ficar afónicos. Dedónicos nunca. Por alguma razão a palavra nem sequer existe. Engraçado, isto; tudo o que existe, ou já foi pelo menos imaginado, tem uma palavra, um representante neste mundo das letras. Surge uma coisa nova, automaticamente há palavra nova. E no fundo de isto tudo, deixo dois desejos, o segundo muito relacionado com o primeiro: o de querer saber coisas inapalavradas e não lhes encontrar descrição, e que se faça justiça para aquelas cujas palavras encontradas são demasiado curtas e redutoras. Vá lá, amor só com quatro letras? Poesia, cinco? Paixão, seis? Que sejam sentidas, porque só descritas, são muito pobres.

Peter Pan

Se eu fosse alquimista, não procuraria pedra filosofal que transformasse vil metal em ouro, mas sim um mapa que me indicasse a Terra do Nunca. E queria ter a minha fada apaixonada, a minha juventude eterna, o meu eterno inimigo. E quanto a sombras, só as queria a mim cosidas pelo amor da minha vida.

Nascente

Árvore vive eterna
Despe-se ao frio
E reveste-se ao Sol queimante
E fita comovida o vazio
Como no Padrão o Infante.

Dá frutos e é roubada
Fazem dela papel que riscam
E desenham e poetizam
Aqueles que sob sua sombra
Têm varinha como de fada.

Árvore é alimento e inspiração
A fonte de poesia, imortal
Por ela morre e dá coração
Pedaço de madeira folha e paixão
Que só sabe a bem, não mal.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Ses

Por entre o vidro percebia-se o frio que fazia no exterior. A chuva caía implacável, sem olhar onde nem a quem. Molhava, era a sua função. E o frio congelava, contrastando com o calor do autocarro, tão confortável, diferença figurada no vapor que me saía da boca e embaciava a janela. Ia absorto nas minhas poesias de transporte enquanto ouvia a sempre fiel e vadia música quando o veículo deu um pequeno solavanco, chiou baixinho e parou. Desviei o olhar da rua e fixei-o na porta, interessado nas pessoas que vinham a entrar. Não que esperasse ver alguém conhecido; não, simplesmente sempre me deleitei com o tão variado tipo de pessoas que se vê num qualquer transporte, e por mais que utilizemos sempre o mesmo, à mesma hora, são sempre diferentes. Hoje, uma senhora idosa entrara primeiro, depois de agradecer ao jovem que a deixara passar. Depois do rapaz, entrou um sujeito gordo, de barba rala, extremamente molhado. De seguida uma senhora de meia-idade e




o Paraíso. Sim, é o Paraíso. É, tenho a certeza. O autocarro pareceu arrancar a toda a velocidade enquanto permanecera parado, o quente do veículo tornara-se frio e todas as gotinhas de chuva lá fora pareciam convites irrecusáveis a passeios e corridas e sorrisos. Entrara uma rapariga, completamente encharcada, completamente majestosa. No intervalo que corresponde ao espaço em branco acima, ela entrou e sentou-se de maneira a que os olhos verdes continuavam na minha direcção, vindos do meio do céu, ou seja, dos cabelos molhados que trazia colados à cabeça. Entretanto, o senhor gordo abeirou-se de mim e pediu licença para ocupar um lugar cujo acesso eu estava a impedir, ao que eu tentei balbuciar um com certeza, que se revelou pouco mais que um pedaço de saliva que foi cair no colo. Tentei limpá-lo com a manga do casaco, mas apenas consegui fazer embater o cotovelo no banco da frente; tudo parecia confuso e absurdo, mas quando levantei o olhar e a contemplei, tudo fez sentido e era belo e felicidade. O coração parecia querer sair e ir deambular algures, preso por um peito que de tão esforçado já queimava. A minha paragem passou, mas as pernas decerto tinham ido dar o passeio que o coração desejava, pelo que ali figuei. Passaram-se cerca de dez minutos (podem ter sido dez segundos ou dez horas, não sei) e ela levantou-se. Quis seguir aquela rainha, aquela princesa, aquele bocadinho de alegria e Sol no meio de um dia tão triste e frio. Mas as pernas não tinham voltado ainda. Com elas tinham ido a coragem e o atrevimento e eu e tudo. Ela saiu, e eu fiquei. Nunca mais a vi.

E se eu tivesse ido atrás dela?

Uno

A vida é bela, delisciosa, cheirosa. Dificuldades? Até o mais belo arco-íris é feito de Sol e Chuva.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Cascata

Tenho saudades do presente. Do passado não vale a pena, já lá vai. O presente é que me é agora e sei que não o viverei como é devido, logo tenho saudades daquilo que não faço e podia fazer. Nunca é tarde, mas quando dou conta, já o é. Agarrem esse relógio, que é ladrão.

Colectivo

Uma rosa só, é rosa
Muitas formam roseiral
Muitos sorrisos são prosa
Um só é poesia, especial.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Devaneio

Sou rei e dono do que me é
Sou poeta e chaves de mundo tenho
Posso quero e faço e tenho fé
Que barco faço de podre lenho.

E regras são como espelho
E água e barro e massa
Não há infância em que não pinte velho
Não desastre que feliz não faça.

Sou livre e sou o ar!
Rima sem métrica nem folha e linha.
Trago ao meio (tão bom quebrar)
Nem rei na Média tão grande poder tinha.

Poesia louco e apaixonado
E tudo isto
Num quarto.

Fechado.

Nozes

Se for aberta a portinhola de uma gaiola, logo o pássaro que lá estiver sai a voar, livre, feliz como nunca fora em cativeiro. Nós não temos gaiolas, temos asas mais fortes que as de um frágil passarinho e nunca saímos do mesmo sítio.

Getsemani

A agonia invade quem é de amor sinónimo, um grito silencioso de ajuda que sabe não poder vir, para que a paixão vença intemporalmente uma guerra que trava entre si e sua ausência, pois amor é gravura e escultura e pintura e ódio é traço de giz, que cruz apaga.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Face

No Carnaval, colocamos máscaras, ou tiramo-las?

Grito

Para onde vamos? Que se passa?
Houve um tempo em que a Terra era toda unida, e o mar era um uno e vasto oceano.
O Universo, hoje, constantemente afasta-se do centro que já foi.
Mas isso é a Lei da Natureza.
Mas, os Homens?
Porque se afastam? Que força os move?

Quando toda a Humanidade for sinónimo de Amor, quando o ódio não passar de uma palavra arcaica para algo que já nem se sabe o que é, quando o Homem quiser, então, a teoria do expansionismo do Universo será uma anedota e os planisférios terão que ser radicalmente modificados.

Parece díficil. E é.

Se não fosse, já teria acontecido.
E nunca tinha a mesma piada, algo fundamental.

Porque rir é a chave.

Abram portas!

?

Sinto-o a afogar-me o coração, a transbordar-me da alma, a queimar-me a garganta. Formiga-me nos dedos, congela-mos mas fá-los mexer, frenéticos, apaixonados. Comove-me e dá-me lágrimas alegres, sorrisos tristes, choros felizes e gargalhadas melancólicas. É em mim paradoxo e antítese e metáfora e hipérbole. Pega nos meus sentidos físicos e molda-os como se foram barro e faz deles o que quer, faz-me ver azul e verde em preto e cheirar chuva sob sol radiante e saborear doce no que é amargo e sentir macio na dura rocha do oceano e ouvir música na voilência das ondas que nela batem. Invade-me e faz-me mover, é em mim fim e príncipio e é a minha identidade. Sou eu.
Há quem lhe chame amor, há quem lhe chame poesia, há quem lhe chame paixão.
Eu, eu não sei que nome dar a isto.




Terá nome?

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Canção de embalar

Está escuro mas é tudo belo e colorido, estás aqui comigo. Estamos os dois deitados, e, ainda que cegos, olho na direcção onde sei estar o teu rosto e deixo o meu coração acelerar com a eterna beleza que dele emana. Olha também para mim, olha-me e sente este momento. Não sei onde nem quando estamos, mas sei como estamos e não há mais nenhum lugar ou tempo ou modo em todo o mundo em que eu preferisse estar. Fica acordada, por favor, vamos eternizar este momento que por ser perfeito vai acabar, não o sendo, portanto. Fica acordada.
Eu, vou dormir.
Vou dormir porque afinal nem tudo é belo e quente e do fundo de uma qualquer luz celeste percebo que afinal não estás comigo, choro e percebo que a unica maneira de te ter é sonhar e por isso vou dormir só para te ter, por momentos que seja. E tenho a certeza que, no meu mundo, tu és presente.

Desce, pára, sobe.

Apaga-se a esperança e cega a vista
Profundo e frio lugar de chamas
Queimam alma que é de artista
Pintam-se lágrimas papel em dramas.

Logo o espiritual sai e pele se torna
Indisposição insónia e gota de sal contida
Vontade de correr e ficar, logo morna
Indefinição de sentido comprida.

Mas pouca luz se abre e logo aquece
Fraca e ténue mas por amor tida
Porque quando mais fundo se vai e desce
Melhor sabe qualquer curta subida.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Sensibilidade

São 6:15 da manhã.
Acabei de chegar a casa.
Acho que nunca tive tanta necessidade de escrever.
E acho que nunca me faltaram tanto as palavras.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A mágoa do palhaço

Era uma vez um palhaço. Como qualquer outro, a função deste era fazer rir as pessoas, e fazia-o particularmente bem; era conhecido internacionalmente, as piadas e brincadeiras que interpretava eram sempre originais e frescas, uma lufada de ar na rotina cinzenta das almas que o ouviam. E tão bem que combinava a sua personalidade com as cores que trazia no rosto; na verdade, os vermelhos e azuis e branco que trazia emanavam directamente do coração. E ria, ria, ria.
Numa das digressões da companhia circense para a qual trabalhava, este palhaço conheceu alguém que lhe viria mudar a vida para sempre; uma mulher (o amor tem o condão de alterar o que seja, deste a rocha mais dura à brisa mais esquiva) pela qual se apaixonou, bela, não pelo aspecto físico mas pela maneira como mexia com o artista. Na noite anterior à saída do circo daquela cidade, o palhaço procurou a amada. Ainda vestido após o espectáculo, o homem disse, absolutamente atrapalhado e envergonhado (características que sempre desconhecera) aquilo que sentia e os planos que tinha para abandonar tudo o que tinha, a sua personagem, por aquela que chegara ao seu espírito para não mais sair. Mal terminou a custosa confissão, a intrlocutora, após uma fracção de hesitação, arrancou do fundo de si uma gargalhada do tamanho do mar. Cada fôlego que tomava para redobrar o riso era uma faca espetada no peito do palhaço, que viu ainda elogiada aquela sua capacidade para fazer rir. Após aqueles eternos escassos segundos, tentou explicar, do meio do dilacerante nó que lhe atava a garganta, que falava a sério, talvez pela primeira vez desde que se lembrava enquanto pessoa. Segunda tortura, o apaixonado viu o seu sentimento ridiculariado: os palhaços não amam, os palhaços só fazem rir.
Mais que morto, o palhaço saiu a correr, mergulhando na noite da cidade adormecida. Largos minutos depois encontrou um largo e, sentando-se num pequeno banco frio, onde se sentou. Cobriu a cara colorida com as mãos cinzentas e rompeu o silêncio com um enorme e sentido soluço, borrando todas as cores do seu rosto com lágrimas que corriam incessantemente. O riso parecia-lhe a coisa mais rídicula do mundo e odiou-se a um extremo de apenas quem já sentiu o verdadeiro e cruel amor. E chorava, chorava, chorava.

Suspenso

Saberás que és feliz quando do fundo do mais profundo silêncio romper um grito tão louco e rico que por mais que fales e escrevas e cantes não consegues nunca calar, nem queres.

Faz-me

Sou nuvem ar e nada
Mas sei que amor tenho
Azul e verde e ouro pintam
Qualquer meu preto ou castanho.

Amor é fogo que arde
E queima e bem se vê
Sorrimos e corremos e choramos
E não sabemos porquê.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Bem-vindo

A minha família tem um novo membro. Sou eu o pai, e é a coisinha mais fofa do mundo. Apesar de pequenino, é muito irrequieto e adora brincar. Trava duras e longas batalhas com roupa e garrafas de plástico e gosta de comer pão. É loirinho de olhos verdes e corre que se farta. Este meu filhote anda em quatro patas, chama-se Mendez (uma versão latinizada do meu apelido) e é o meu novo cão.

Curva rectílinia

A vida é muito metaforizada. É-o aliás tanto que me escusarei a fazer aqui semelhante exercício, em vez disso, pego numa das mais conhecidas comparações: a com um caminho. E utilizo-a para fazer referência a fases particularmente interessantes deste caminho, que são as barreiras invisíveis e incorpóreas que ultrapassamos. Não me refiro aos obstáculos, mas sim a determinados feitos que, não representando nada fisicamente, perfiguram uma passagem, uma conquista. Quando entramos para a escola, por exemplo, ou somos baptizados; existem claro sinais para cada uma dessas conquistas, mas não passam disso mesmo, sinais. Por exemplo, num casamento, não são um par de alianças ou juras testemunhadas de amor eterno que o efectivam, mas sim tudo aquilo que o antecede e justifica e tudo o que sucede. Falo disto não por uma das minhas súbitas pancadas meio para o filosóficas; na verdade, eu mesmo, ontem dia 9 de Fevereiro, ultrapassei uma destas barreiras psicológicas, chamemos-lhes. Os sinais desta? Bolo, velas, música, prendas.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Num segundo

Corre, corre
O chão sob ti arde.
Mas quando passo morre
P'ra respirar é tarde.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

DIstâncias

Que relação mais improvável, a do Sol e da Lua. Amam-se, sei que sim, mas nunca se viram. Talvez tenham sido almadiçoados por uma bruxa qualquer. Mas sei que se amam. Como? Bem, o Sol faz com que a Lua brilhe, mantendo-a viva, apaixonada. A Lua, por sua vez, mantém viva a energia do Sol, fazendo com que após uma longa noite de escuridão seja possível o romper de um novo dia, alegre, quente. Talvez um dia a noite deles passe e venha a madrugada. Até lá, a paixão não passa nunca. Como o círculo que entre si descrevem, não teve início. Nem terá fim.

Constante

Perdemos demasiado tempo em finais felizes. Final é final, acaba, o que há de bom nisso? Tudo pode ser um conto de fadas à moda antiga. Esses não tinham finais felizes; o final era eternizado, viviam felizes... para sempre.

Vida nocturna

O Homem foi feito para viver de dia, enquanto o Sol aquece. A mim admira-me esta realidade; preferimos um dia barulhento, falador, agitado, que muito fala mas pouco diz. A noite, por contrário, é calma, calada, boa ouvinte. Quando mais estamos cansados do devastador dia, a noite abraça-nos terna e dá-nos paz, conforto, sonhos. Ah, os sonhos. Sim, o presente que a nossa querida noite nos dá. Mas não, de dia é que se vive. A mágica noite é sempre esquecida, apesar de ter palavras de grande sapiência a transmitir. São neste momento 03:43 da manhã, e a noite pede-me que a fale. É de noite que vivem os artistas.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Posse

Não tenho o mar
Nem tenho o céu
Mas se escrevo
É tudo, tudo
Meu.

Sorriso

Num olhar de criança, bebo uma paisagem verdejante. Estou no topo de uma colina e o tapete verde estende-se até um horizonte indefinido, uma curiosa junção eterna entre terra e céu. Inspiro e os raios de Sol entram-me pelas narinas, enchedo-me de calor e alegria. Aqui e ali existem árvores que projectam descanso a heróis, velhos homens que ali decerto descansaram e como eu pintaram na alma aquele tão belo quadro. Não se ouve nada, apenas a brisa a beijar as flores brancas que adornam o palco. Estas, li uma vez, provam a existência de Deus; tecia a teoria que não tinham razão aparente de existirem, haviam sido criadas para enfeitar o Mundo. Criadas, criador, Deus. Claro que vários refutaram já esta tão bela ideia, mas perante tão majestoso cenário não posso deixar de a ter em conta; afinal a ideia de Paraíso nunca me pareceu tão perto, tão real. Fecho os olhos. A paisagem continua a dançar na minha mente, não desaparece. Neste momento, é como se nada mais existisse, ou melhor, tudo existisse menos este sonho que me invade; e o que não existe é tãão mágico. Desejo ardentemente não existir, ser mais um elemento desta ilusão tão quente e apaixonada. O desejo realiza-se, só porque quero. E a minha boca abre-se num imenso e intenso sorriso.

Sexto sentido

O sexto sentido é o de sentir
Conjugação de ver e ouvir
De saborear e cheirar
E tactear sentimentos.
É saber lamentos
Interpretar tristezas
O aroma da felicidade
É ter invisíveis certezas
É crer sem ver e saber
Verdade.

Complemento último

Amor são tostas mistas, é chuva a bater de fora, são pantufas, são t-shirts, é colcha, é cheiro de terra molhada, é música, é riso, são crianças. O amor não é nada. Amor é o que eu amo, amor é verbo conjugado, não é substantivo. São substantivos sinónimos de significados muito diferentes que querem dizer a mesma coisa. Não procurem parvoíces destas em gramáticas de qualquer língua. Nunca de se fez uma gramática disto. Felizmente.

Saber o escuro

Chovia corria e frio cortava
Noite densa plano de tela
Cidade deserta dormitava
Luz fraca como se fora de vela.

Do meio do vazio que se sentia
Uma voz pairava de todo incerta
De um vulto que do nada surgia
Talvez de janela ou porta aberta.

A voz do vulto suspirava
Como lua que havia descido
Encantava a noite, mergulhava
Dizia-se dona de tesouro contido.

Possuia o ar e o mistério
O som que se houve sem eu presente
O múrmurio celeste em cemitério
O que se vê sem ser visto de olhar crente.

Só ela sabe tudo o que não se conhece
Enquanto é noite e olho sonhava
É rainha enquanto não amanhece
E foge, galopa, mal Sol raiava.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Infantil poesia

Mamã, o que é um raio-x?
É uma máquina que deixa vermos o interior das pessoas.
Ah...
Mãe?
Diz, filho.
Acho que tenho um raio-x nos olhos!
Então porquê? Isso é impossível querido...
Passou por mim um velhote que sorriu e eu vi-lhe o coração, tenho a certeza!

Amo-te

Mas eu amo-te. Não, agora falo eu, eu amo-te, não entendes, não vês, não sentes? Olha no fundo dos meus olhos. Dizem que são o reflexo da alma, e se olhares para eles, só te vês a ti, a ti, a ti. Estou cheio de ti. Cheio do teu cheiro, que me causa arrepios e dores de barriga que sabem bem. Cheio dessa tua aura que me provoca um sentimento esquisito de comoção, como se chorasse só de pensar, um choro alegre, um grito contido que dou bem cá dentro. Não vês? Eu amo-te. És cega? Então ouve o bater do meu coração. Se deixares de ouvir, ele também deixa de bater, não quer ser ouvido por mais ninguém. Para quê? Ele só quer que eu corra por ti, seja debaixo de Sol tórrido seja sob uma violenta chuvada. Ele não se importa, está mais apaixonado, mais forte que qualquer desses elementos. É mais apaixonado. É mais forte. Porquê tanto medo? Eu protejo-te. Porque te amo. Se receias o que nos rodeia, não te preocupes. Levo-te para o topo da mais alta nuvem, escondida no mais profundo mar, no centro de uma aconchegada chama, debaixo da terra. E fico lá contigo. Quando a noite se dissipar, quando amanhecer, mal chegue a madrugada, saímos os dois. E somos felizes, os dois. Estás a ver, não há que recear. Eu amo-te. Estás a ver? Estás a ouvir-me? Onde estás?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O violino

Violino.
O mais belo instrumento.
Do seu aspecto fino
Requintado
Sai arrebatador sentimento
Sai tristeza e sai mágoa
É de amor enamorado
E escorre-o, como água.

Quando se ouve um violino
Ouve-se o seu coração de madeira
Nervo e veia a corda inteira
Um choro alegre e contente
Juro que ele sabe e sente
Profunda poesia à sua maneira.

Violino é alma e fogo
É de emoção sintonia
É encarnação de anjo e céu
É encanto
É magia.

Essência

Sou poeta.
Amo o som do silêncio.
Amo o sabor do vento.
Amo o toque do ar.
Amo o cheiro da água.
Amo a cor da paixão.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Identĭtas

Se a voz que me ouvem não é aquela que ouço
Então de mim que conheço? Nem alma, nem osso.

Apenas plural

Palavra amigo em singular é vã
Mais que pai ou mãe ou marido ou irmã.

Porque dois amigos são felizes em par
Mas se um morrer, não há amizade
Só um com sofrer sem amar
Desamigo para a eternidade.

Adormecer

Gosto de adormecer de barriga para baixo, porque desprezo o meu quarto e abraço um colchão que não me dá nem tectos nem paredes nem portas nem muros, apenas me dá a mim mesmo.

Ser artista

O olho humano, apesar de mais potente que o da maioria dos animais, conhece também limites no que à escala de cores diz respeito, ou seja, não as reconhece todas. Só gostava de ter um olho sobre-humano, descobrir com que magia se pinta o amor, pegar num pincel e desatar a amorear tudo o que me rodeia, inclusivamente eu mesmo.

Terra do nunca

Gosto da ideia de destino, o fado tão aclamado pelo povo português. A ideia de cada pessoa estar predestinada a qualquer coisa, um talento, uma semente que nasce connosco e, assim receba boa água e carinho, possa vir a crescer e desabrochar numa grande e bela flor. A conquista de imortalidade sem que se viva para sempre, o fazer gravar os caracteres do nosso nome em pedra ou coração. Aliás, apavora-me sequer pensar que posso morrer e, num espaço de duas ou três gerações, ser esquecido. Apesar do que haja "para lá". Afinal por aqui passamos por alguma razão, viver e não fazer a diferença e não ser recordado é o mesmo que estar numa avenida apinhada de gente, dar um berro descomunal e ninguém nos ouvir. Quero ser como o Peter Pan, quero que a juventude daquilo que fui, sou e serei aqui permaneça, intocável, útil, como um iceberg que no meio de um imenso oceano se enraiza e, imponente, obriga o curso da água a desviar-se perante a sua presença.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Um dia

Lembro-me quando era velho e me sentava à sombra de uma árvore chamada Infale e escrevia com os olhos e sentia com as pontas da boca e amor era toda aquela paisagem que me rodeava a alma e que era interior, num qualquer tempo suspenso entre o passado e o futuro e que não sei onde deixei.