domingo, 28 de novembro de 2010

A maior força

A chuva fustigava as janelas geladas, a rua estava escura e mesmo os candeeiros amarelos só pareciam realçar o breu da noite. Ao longe os pontinhos brilhantes da cidade traziam possibilidades de vida, de sonho, mais nostálgicos que promissores. Pareciam entrar na sala trocistas, com quem mostra um saboroso osso a um cão que, preso pela trela, nunca lhe conseguirá chegar. Dentro da divisão não havia qualquer luz própria, só o jogo de sombras e reflexos mortiços vindos de fora. A um canto do sofá estavam duas crianças, as únicas pessoas da casa, abraçadas; os irmãos, ela mais velhinha e ele muito pequenito, procuravam um no outro uma companhia que pareciam esperar em vão ver aparecer ao fundo da rua que descia, da qual não tiravam o olhar. O menino tremia ligeiramente nos braços da irmã, que se fazia protectora em idade de ser protegida. Uma pequena lágrima morava no canto do seu olho, uma parente quente das frias que lá fora caíam. De repente trovejou e um lampejo de luz e som inundou a rua e a sala, qual grito de gigante enfurecido. Os irmãos deram um pequeno salto, mas maior que o susto foi o sentimento de medo e inferioridade e encurralamento. A lágrima parada caiu e puxou outras. Mana, tenho medo, vamos ficar sozinhos muito tempo? Não estamos sozinhos, tens-me a mim e eu tenho-te a ti... e não há nada para teres medo! Mas está a chover tanto mana, e aqueles barulhos grandes... Olha bem, a chuva não passa de água, e a água não é boa?  Vê, quando cai no alcatrão e nos carros, é como se lhes passassem um pouco de verniz, e as luzes tornam-se bonitas quando lá batem. Se cai na terra, então, dá de beber às árvores e às flores, para elas crescerem fortes e frescas. Levantou-se e abriu um pouquinho da janela; e sentes o cheirinho? É a mistura do cheiro do ar com o cheiro da terra, trazido pela água que nos aquece como se fosse fogo. Fechou-a de novo. Olhou para o rosto do irmão e dos lábios começara a brotar um sorriso. Ouve bem, só terás que ter medo do que quer que seja se estiveres sozinho. E tu nunca vais estar sozinho, porque eu vou estar sempre aqui. Se estiver frio abraço-te, se estiver calor dar-te-ei de beber. Se estiver escuro dar-te-ei a mão, se a luz te ofuscar a vista eu serei então sombra. Venha quem vier, estarei contigo, seja onde for. Abraçou de novo o irmão depois de lhe ter abraçado o coração. Olharam juntos rua e as luzes já lhes pareciam bonitos enfeites de um Natal já não assim tão distante; a nostalgia deu lugar à esperança e até a chuva fria caía como gotas de calor. Celebravam a trovoada e deixaram-se encantar com o seu espectáculo.
Entretanto, a porta da rua abriu-se a luz da sala acendeu-se. Estava tudo bem, agora.

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