domingo, 24 de fevereiro de 2013

O Barracão

As mudanças estavam já a acabar, finalmente. Mesmo depois da compra da vivenda, processo que só por si demorara imenso, só agora é que David começava a sentir aquela casa como sua. Ainda não era um lar, os caixotes eram pilhas indefinidas, não havia calor, cor, o ar não tinha qualquer peso. Mas estava tudo ali, pronto a ser amado. Andou pela casa; a sua calculadora mental adicionava móveis a espaços, tapetes a chãos, candeeiros a tectos. Será que cabia, será que não? Como um pintor, recheava as paredes mortas de vida, e a volúpia sentida não era inferior à que os conceituados críticos sentem ao olhar uma tela que também na sua mente vai além dos traços desenhados para assumir uma sensação transcendente. E ia explorando; não que não tivesse observado bem a vivenda antes de a comprar, não, mas agora que lhe ganhava amor é que os olhos viam mais do que apenas olhar. Não é sempre assim? E cada vez lhe parecia mais bela, mais formidável, mais maravilhosa. Pela janela da sala viu o barracão que ficava na parte traseira da casa. Na altura da primeira visita o homem da imobiliária não tinha a chave do barracão, tinha-a perdido; sorriu ao lembrar-se do quão cretino e desleixado achara o homem, apesar de toda a sua simpatia, o que de resto o fez hesitar na escolha da casa. Uma relação que se fizera difícil, mas normalmente são estes começos que têm fins mais demorados, talvez inexistentes. De qualquer modo, o seu plano era demoli-lo para fazer uma piscina para o verão ainda longíquo, tanto que ainda nem se preocupara em pesquisá-lo, tinha-o mesmo esquecido. Com a curiosidade aguçada, resolveu finalmente ir ver o seu interior. Não esperava encontrar nada, toda a casa havia sido esvaziada e o barracão aparentava não ter tido muita atenção do anterior dono, que David não conhecera. Foi até lá, arrombou a porta e entrou. Um terrível cheiro a mofo obrigou-o a tossir intensamente, e a sair. Uma terrível constipação oferecida pelo inverno rigoroso dificultou-lhe ainda mais a respiração, e teve que sair para apanhar ar, ar esse que resolveu dividir com o barracão deixando a porta aberta uns minutos, aproveitando para ir buscar uma lanterna pois o pequeno compartimento não tinha qualquer janela e não lhe parecia que fosse electrificado. Quando se recompôs, tornou a entrar de lanterna em riste e... não estava vazio. No meio do barracão havia uma mesa de madeira antiga com uma máquina de escrever e um candeeiro a azeite, extremamente velho e gorduroso. Havia também uma cadeira, onde David se sentou, ainda espantado pela descoberta que fizera. O candeeiro, apesar de mal-tratado, parecia ainda funcional, pelo que o tentou acender com o isqueiro. Funcionou. A chama, inicialmente tímida, foi crescendo, e foi então que David os viu: papéis, dezenas e dezenas de papéis escritos forravam as paredes do barracão, alguns pendurados por uma ponta, outros já caídos. Que seria tudo aquilo? Olhando de novo para a máquina, calculou que tivesse sido dela que todas aquelas folhas haviam saído, e pela primeira vez reparou num outro papel também escrito que estava em cima da mesa, preso pela máquina. Pegou nele. Era um poema pequeno. Quando o acabou de ler, teve apenas uma certeza; o barracão não poderia ser demolido.

O Barracão

Olhos únicos da arte minha
Tomaste-me no peito
E foste a minha casa.
Aqueceste-me sem teres brasa
Eterna alma eterno leito
Dos dedos de uma mão que definha.

Restos de mim guardarás, de pé
Resistente ao tempo homicida
E caia um dia o teu tecto,
Não cairá nunca o afecto
De uma existência não comprida
Mas forte como a maré.

Se uma outra vista te ler
Ó barracão, que me foste lendo
Sabe que não será traição nem meu intento
E por mais que esse saiba o tormento
Não saberá o que de graça eu te vendo.

Porque um poeta a um só ama
Sem emoção noutro lugar conhecer
E foste tu a minha amada
O meu companheiro de caçada
E para sempre havemos de ser
Troçando da morte

                                         Que me chama.

                                                     M. B.
 
 
 

1 comentário:

  1. Anónimo24.2.13

    Não sei que comentário posso fazer, isto está brutal!! :)


    Margarida

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Comentários