quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Universos

Como estas linhas que vedes
Alheias a fomes e a sedes
Seguem ordeiras
Cegas obreiras
As formigas.
Aversas a cantigas são
E não se canta sobre elas;
Formigueiros edifícios erguem
E ainda que os olhos não se ceguem
Não vemos as filas belas
Não nos toca pensar como elas...
Não vemos como deve ser.
Outras vistas se leve ao ser
Que só é no plural,
Uma equação especial,
Todas são, nenhuma é.

Não sei se será acaso de fé
Ou um ocaso de alma,
O que faz perder a calma
Ao bicho que cem vezes o peso levanta
E que a cem outros assim a fome espanta,
Mesmo que para tal empreitada
Deixe a vida assim largada
A um passo incauto meu.
Talvez não lhe cheguem as antenas ao céu,
E tão só saiba o pó da terra,
Ganha sem saber a guerra
Por não saber estar a lutar.
Era disto por certo que a cigarra cantava
Das pautas que os carreiros pintam,
Era disto que ela falava
Por mais que outras fábulas mintam.
Viu a proeza em uma apenas
A riqueza de quererem ser penas
E não um pássaro para voar.






quarta-feira, 11 de maio de 2016

Contas e contos

Como entendo muito pouco de números, pedi ao senhor das finanças que me traduzisse de forma simples o número que aparecia no monitor da máquina calculadora. Então, disse-me ele sem rodeios, isto significa que você é pobre. Era então aquilo que significava o tracinho no ecrã, pensei, normalmente uso-o em palavras ou para iniciar diálogos, bem, para isso não tanto. Imagino que o homem me tenha olhado e lamentado a já avançada idade, por certo achou-me já senil, incapaz de atingir a gravidade da situação. Muito devagarinho, tentou novamente mascarar os números de palavras, avisou-me dos ganhos e das perdas e, tenho a noção, falou muito mais destas últimas. Mas eu não perco nada senhor doutor, acabei por dizer, pelo menos tento. Ainda hoje perdi um barco mas ao menos não perdi a paciência e claro está, logo depois veio outro, também uma coisa tão grande não se pode perder durante muito tempo, não é doutor? O homem sorriu, todavia pareceu-me que apenas se lembrou das aulas que o mandavam ser simpático com um cliente. Logo se apressou a explicar que não era esse tipo de perdas a que se referia, como se eu não soubesse, que perda tinha sido, por exemplo, o dinheiro que eu tinha gasto no bilhete dessa viagem. Persisti no papel de velho tolo. Ah, presumo então que a viagem de regresso tenha sido uma perda também, sim? E a imperial que bebi na esplanada da outra banda, a moeda que pus nos binóculos... Exacto, interrompeu-me ele, tudo isso foram perdas, despesas, dinheiro que podia ser poupado, talvez com menos algumas viagens possamos tornar este vermelho em verde. Verde é bom? Verde é óptimo, retorquiu o senhor das finanças, visivelmente satisfeito por eu estar, por fim, a entender. E talvez haja melhores coisas em que gastar o dinheiro, vejo por exemplo que quase não tem despesas em medicação, um senhor da sua idade certamente... Não, foi a minha vez de interromper, estou rijo como um pêro. Acho que se a minha médica estivesse aqui connosco talvez se sentasse do seu lado, ela também tem lá as máquinas de calcular dela, mas prefiro tomar o ar salgado das minhas viagens de barco. Deixe lá que nem sempre tenho... despesa, quando me vou assim medicar, tem vezes que passeio só pela areia e a minha visita lá à outra margem se faz só com os estes meus olhos. Olhe, continuei eu, outra coisa que não perdi, a visão, meteu isso aí nos ganhos? O homem olhou para mim exasperado mas insistiu, gabo-lhe a paciência, ouça, isso não conta... Ah, também isso, interrompi novamente, também ouço muito bem ainda, seria para mim uma grande despesa não poder ouvir o fado. Porém ouvi dizer que quem não vê, ou não ouve, tem tendência a apurar os outros sentidos, acho eu, que não percebo nada disto, há um financeiro qualquer que sempre nos dá aquilo que tira, não de igual forma, isso seria monótono, uma perda... de tempo. Houve algo no que eu disse que pareceu esclarecer, de algum modo, o senhor das finanças. Você não pode colocar tudo nas mãos de Deus, disse-me ele, Deus?, perguntei. Sim, esse financeiro de que fala, Deus até lhe pode ter dado a visão e a audição mas... Não estava a falar de Deus, cortei eu, ou talvez estivesse, mas enquanto não souber se existe, quem é, poupo o tempo de me ocupar com essas perguntas e deleito-me com as respostas. Vêem-se do barco, sabe, ou nele, conforme a disposição, descobrem-se na areia, vislumbram-se dos miradouros. A face do homem era de derrota, de desistência. Então eu prossegui. Dizem-me pouco esses números, sabe. A sua máquina não lhe poderia dizer o número de horas que estive no barco, que passeei pelo areal, que olhei lá do topo da colina, nem eu, para ser honesto, e o ponto é esse. Tão pouco contei o prejuízo, como já reparou. Uma vez li num jornal que apenas uma ínfima parte da água do nosso planeta é potável, o senhor saberá certamente os números, as percentagens, e por certo se assustou com eles quando os leu. Para si, foi só prejuízo. A mim lembrou-me a sorte de num ápice ter água doce a correr de uma torneira, essa água que você tem aí nos gastos e lembrou-me, a mim que sou apaixonado pelo mar, que há muito sal para saborear. Para mim, foi só lucro. O doutor tentou falar mas é curiosa essa circunstância de as equações terem um fim, ao passo que as palavras se desdobram. Eu não sou pobre, nem sou rico, prossegui, eu chamaria rico, e creio ser uma descrição possível, a quem tem o que os outros não têm, pelo menos em igual quantidade. O que eu tenho você tem, a questão é, e perdoe-me o atrevimento de usar expressões tão próprias do seu vocabulário, calcula o quanto pode perder se não observar, se não escutar, se não saborear com atenção, se não tocar... Tal vez conheci uma mulher que parecia uma brisa mas conjuguei com ela todos estes verbos e descobri um maremoto, um incêndio, um furacão. Há muito que ganhar, é aí que quero chegar, muito que descobrir. Mas nada para possuir, aviso-o já e olhe que disto já percebo. Essa mulher, por exemplo, nunca me pertenceu, não a mim, não a ninguém, lá está, como um furacão. Isto, traduzido aí nos seus números, esta brincadeira de tudo o que se soma se subtrai em simultâneo, daria um redondo zero, portanto diga-me como seria possível que eu desse valor às suas equações. Calei-me. O senhor das finanças limitou-se a dizer, fico feliz por si, há mais alguma coisa em que o possa ajudar? Não, retorqui, e não quero roubar mais tempo ao caro doutor, ainda que o tenha bem mais que eu, nem às pobres almas que penam nas salas de espera. Se calhar de caminho ensino-as a tirar maior proveito desse tempo em que só esperam, está visto que o senhor dessas contas percebe pouco, mas não se ofenda; antes de ouvir este pobre velho, não percebia nada. 

terça-feira, 3 de maio de 2016

Pianista

Traz de uma vez as tuas delicadas mãos. Trá-las, pianista, e toca-me, tu sabes as teclas, conheces as cordas. Repara, sou um piano selvagem. Livre, diriam uns, terão acaso eles visto um piano solto e vivo e que o fosse em simultâneo. Tu sabes a verdade, pianista. Ninguém me ouve aqui, ninguém, mesmo que em vezes o vento venha e me leve os sons. Quem fala do sopro da vida nunca terá, estou certo, sido tocado por quem sabe tocar, por quem, como tu pianista, faz da música um incêndio e fogo de quem a ouve. Vem e arruma-me num quarto, arruma-me nas tuas mãos, sobretudo arruma-me as notas. Tenho todas as que há no mundo e são todas tuas, verás esse mundo, prometo-te. Eu enfim verei contigo. E todos nos ouvirão, pianista.

domingo, 1 de maio de 2016

Miragens

Quanto mais te quiser ver, mais tenho que fechar os olhos. Aprendi há muito, sabes, a perceber o sonho pelo que ele é. Fontes de água que se faz gás, paisagens que se confundem e se revelam miragens. Então, se te vejo, cerro os olhos. Claro está que sei logo que és gás, que és miragem. Que mais poderias ser? Contudo, fecho os olhos. É que, sabes, sou já também capaz de me deixar acelerar as batidas pelas mentiras que o sonho traz. Porque não? Tentar beber a água, tentar ver as paisagens, o mar, tentar sentir-lhe o aroma. Sem nariz, sem boca, só de olhos bem cerrados e orante a uma noite que mente, sim, todavia fá-lo tão bem... Sei tudo isto de tal forma que não me importa a manhã, para que quero esse sol tedioso que sabe somente mostrar-me o que é e o que está, incapaz de me trazer a maresia que eu conheci um dia. De manhã tudo é real, sabes, mas esta água que não se esfuma, tão pouco me mata a sede.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Pena

Julguei um dia impossível que me sentasse hoje, aqui, contigo. Que lar seria para outras mãos dadas, outros beijos, que não o teria como tenho hoje, aqui, contigo. Todos os dias, em todo o lugar. Em cada lágrima que vejo por entre sorrisos, em cada gargalhada que ouço em silêncios, em cada resposta que me dás calada a cada calada pergunta.

Contaram-me, mentirosos, que o objectivo primeiro disso a que eles chamam amor, como se o soubessem, era criar um lar e procriar e definhar na sorte e azar dos dias. Esquecer por lá, nos quadrados de saudade - a tão longa distância...-, a ternura espontânea, o beijo roubado.

E tu contaste-me que era possível. Roubar beijos e furarmos cada prisão, corremper cada lei e cada olhar que nos condena. Por entre lençóis e os mundos do mundo, fizeste-me cúmplice e sedento de uma pena perpétua de liberdade. De ti.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Talvez

Tal vez tracei na linha tamanha do horizonte
Linhas agora perdidas, a monte.

Talvez tivessem sido demais
Linhas,
Talvez,
Talvez não fossem por si saciantes
Da sede sem fim da pele e talvez por tal,
Não se cravaram nunca na sede sem fim da pele,
Eternas.

Talvez, quem sabe?
Quem poderá saber?
Quem me dá de volta esses olhos com que desenhei

O horizonte?

O Sol no colo da lua, do seu manto negro, 
Como o barco da que chora comigo aqui,
                                                                  à beira rio, 
À beira choramos os fados mudos que se cantam
Nas travessas dos amores perdidos. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Sem título

Porque não te levantas menino, e beijas de volta o mar que te beija a face? Porque não procuras mais tesouros, ou fazes castelos como os que desenhaste em casa? Não te levantas porque estás morto. Frio como esse mar frio, mar morto, morto do sal das lágrimas que te choram. O teu irmão rendeu-se, sem saber de quê, de quem, rendeu-se. Porque não te rendeste tu? Roubaram-te tudo, o tecto, os teus, todos os teus anos para fazer brotar amor nas terras áridas onde não é fértil. Perdoa-me menino. Perdoa-me por essas marés em que não te vejo, por todos esses meninos e meninas e homens e mulheres irmãos teus que não olho, que julgo meros grãos desse imenso areal que a espuma leva. Deram-me tudo menino. Beijei de volta o mar, procurei tesouros, fiz castelos com muralhas que agora derrubas e fazes em pó. Levanta-te em mim e levanta-me, leva-me e por favor, vem sempre comigo. 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Fim

Fim. O veludo ondulante fecha-se no abrir das luzes. As batidas do meu peito ecoam nas palmas que suaves percorrem as madeiras, numa percussão harmoniosa. Abraço cada um com os meus olhos cerrados, dou-lhes cada sorriso e lágrima que brotam disto que se sente aqui. Deste alto tão alto, tão acima até dos corredores dos fantasmas. Deste tempo que não contei, em que apenas as minhas cordas vibraram pelo pinho e por entre as peles tão bem vestidas. Em vénia olho o chão, e sorrio; sei-me pequeno, e é assim que me delicio na ocasião de ser tão grande. Ao descer, sento-me lá ao fundo ao lado deles e vejo-me como eles, nunca para me aplaudir no fim mas tão somente para o ver de novo.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ostra

As ostras e os astros, 
De inícios e fins contrários,
Encontram semelhança no entretanto 
De assim serem.
Enfeitam e prendam os azuis que escurecerem
Dando à ausência brilhos de tons primários.

Assim, por querer todos os astros dos céus,
Quero uma ostra.
Guardar as areias do meu fundo
No profundo mar,
Sereias e castelos com as mãos fecundo dos grãos seus.

A linha deste colar que coso
Não traz pérolas nem espera.
E se ouso navegar
É devagar.
Vela sem cera,
Chama de vento, sincera
Chama-me e leva-me
A arder.




quinta-feira, 2 de julho de 2015

Astrónomo

Amo a pequena estrela, não sabendo já cego desse amor se é somente estrela, se já morreu e é só luz, se é o Sol. Amo-a e já é o Sol e é cadente e por só a amar a ela é-me mil constelações desenhadas no peito que lhe dou, quadros da minha tinta mas da sua arte e inspiração. Sou para ela o céu, faz do que tenho breu azul e de azul fecundo o mar que em ondas sai de mim. Nascemos um e somos nascente desse oceano de signos e contos, pontos e continuações. Das linhas e beijos faço coroa, coroo-a rainha e eu sou rei. Legitimamos até o ar que se inspira, expiramos suspiros que podem ser brisas ou tornados, tornados nados assim, por nós. E do que damos por nos darmos nada esperamos senão tão só que o rio corra, espelho alegre do céu que nos deu à luz e que alumiamos.

domingo, 14 de junho de 2015

O mar

O mar olha para ti e chama-te pelo nome,
Ele o sabe e sabe quando precisas de o amar
E quanto. 
Canta as baladas tanto ensaiadas no mar
De amores dos corações dos poetas
Como as marés que de paragens secretas
Vêm sempre e sempre certas.

Protege-te sem te tocar, 
Dá-te a mão e colos doces
Quando só parece ter sal para dar.
Apaixona-te e tu ficas
Embalado, não queres ir
Porque se fosses 
Far-te-ia falta o mar.

E ele diz-te que tu a ele
Que de nada serve tanta água
Se não ferve por uma mágoa
Ou celebra qualquer beijo.

São um, 
Sentes o sangue ondas na praia.
És a corrente, 
Maior que a gente
Que assim não caia 
No voo
De se fazer ovo
No ninho azul.

E nascer de novo.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Alado

O pássaro canta para mim. Na sua poesia assobiada, sossega-me; pede-me que não tanto anseie voar como ele. Diz-me que também voo mas mais que isso caminho, e que nesse caminho abraço e dou a mão enquanto a ele tudo foge. Voam dele os amores e as cores ao longe são manchas até que poise, como eu, e até que a sua natureza num bater de asa o leve de novo ao céu. O leve de si. Chora-me paixões apontando-me as nuvens que só se vêem e mal são o que quer que seja, somente sonhos. Vai tecendo um canto que me embala e mostra que tenho o mundo na mão e a sua cara. Adormece-me, por fim, e faz-me sonhar, mostra-me que as minhas penas são beijos e eu voo na sua vez, rasgo os céus e amo-os, como nunca o pássaro poderá amar.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Bodas de Trigo

Da sua margem, a única que conhecia, o menino viu um fogo que ardia do outro lado. Estranhamente, não o temeu. Não agradeceu a protecção do rio, não se confortou com a segurança da sua margem. Apaixonou-se por ele. Quis tê-lo, havia nele uma luz e um calor que não se vê no Sol, que ilumina a todos. Aquele fogo ardia somente para o menino e era isso que o chamava. Pelo nome. Quanto mais o menino amava mais o fogo ardia, quanto mais o menino se chegava à berma da margem mais alto o fogo se punha. Arrebatado, o menino lançou uma ponte frágil, de madeira. Nela pôs tudo de si pois já nada era seu sem aquela chama, nada lhe pertencia senão fazer parte daquele fogo. Lançou a ponte pensando-se alfaite, almejando fazer de duas margens uma, sem abismos para o rio. Mas tudo o que o menino tinha para dar foi pouco. Tanto ardeu o fogo seu que aos poucos, parecendo troçar da ilusão, lhe queimou a ponte, obrigando-o regressar à sua margem. Não o matou, nem de queda nem de queima, porque este fogo não mata, só se esfuma como as promessas que traz consigo. Agora, na sua margem, o menino descansa à sombra da árvore sua, só sua, embalado pelo canto do pássaro seu, só seu. Já não há fogo nem ponte, só fogos e pontes nas nuvens lá do céu. Até que chova.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O bêbedo

Ele conta os tempos da noite por goles de uma qualquer garrafa ou copo. Nessas horas, a sede é de trago que mais que a ela mate, cada um um degrau mais subindo a esse tapete que faz voar a mente e o pensamento. Bebe e dança, cambaleante, até tonto cair na pista de algodão e linho. Dorme. Afogado no veneno doce, a carne clama tão somente por água. Talvez se sinta morta e anseie pelo que dá vida. Todavia, ele dorme. E não acorda. Não o move aquela angústia como a fome pela bebida. E nessa dormência os sonhos ainda embriagados dão-lhe torneiras e poços frescos, e ele bebe, bebe, bebe. Cada trago traz aquele mágico momento em que a simples água nos sabe a tudo, como se não houvesse mais nesse mundo que nos pudesse saciar e saber tão bem. Mas o bêbedo, por mais que nos sonhos beba, não fica saciado. Na manhã - que ela o salvasse - o sonho prossegue nesse pesadelo.  Ele aceita a dança e dança ao ritmo dos oásis miraginais, sempre marginais à sua roda. Pensa que chegará um dia, mas o dia não chega e dança até que não mais.

domingo, 29 de março de 2015

Não minhas, para mim

(...)
"Sabes, há muitos cépticos por aí dizendo que não existem almas gémeas, nem amor eterno. Eles não conhecem o amor. Sofreram com algo idêntico, mas não o conhecem. Aos poucos, tu mostras-me o que é amar alguém de corpo e alma, entregar o coração e cuidar cegamente sem limites. Fazes-me sentir que tenho uma vida inteira pela frente para cuidar e desfrutar. Não falo da minha, mas sim da nossa. 
(...) disse que gostei de ti. Sim, usei o pretérito perfeito porque isso está bem lá no passado. Hoje, eu vivo-te, eu amo-te de uma forma que espero só eu fazer, é tão único e especial que eu não me importo de ser egoísta e querer todo este sentimento só para mim."


14/02/2013

sábado, 28 de março de 2015

Embalo

Leva-me o mar ao seu sabor, a maré não me ama nem me sabe mas sabe levar-me oh, e quero ir. Leva-me e eu vou, ondas fortes protectoras e assassinas, mas tão fortes, tão fortes que me deixam somente a escolha de escolher não querer saber, só querer aquela água que não sacia mas promete. Vem, vamos, sussurra-me horizontes e beija-me de luz, o dedo que se estende lá do alto. Do céu fazes-te, vestes-te de azul e espuma e pedes-me a mão dando-me asas. O mar assim me leva, baptiza-me Cícero e eu afogo-me no frio, vivo e quente, colo materno, terno, eterno.

Pão

Cautela, cautela amigo
Ama o pão só quando a fome aperta
E terás tão só um campo de trigo.

terça-feira, 24 de março de 2015

Acordar

Naquele momento em que o sono e o real se confundem, em que sonhos enganam o despertar ou seduzem a mente frágil que repousa na almofada, senti-te. Sorri, de novo, num momento sem segundos em que mais que a cama me davas o conforto de ti. Aninhei-me e procurei-te com as minhas mãos quentes, sedentas de aquecer as tuas frias, mas nada achei. A tua presença tão ausente despertou-me como gelo, e as minhas mãos já nada aquecem senão a caneta com que te traço em mim. Onde? De onde vem esta promessa de ti que me mente e de mim faz troça? Da minha camisola veio um aroma, que ainda é teu. Ali estavas. Mas a lã não me beija como as linhas doces dos teus lábios.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A fábula dos pequeninos

Era uma vez uma larva que seguia rastejando pelo seu mundo castanho. Podia ser uma estrada de terra ou um monte baldio, mas claro, a larva não o sabia. Não vê como nós. Mas esta larva em concreto, não vendo como nós, pensa. E sente. Podemos considerar esta uma larva especial. Logicamente, diria eu, pois se se tratasse de um comum insecto, não se escreveria sobre ele. 

Reflectia constantemente a larva na sua triste vida. Sabia-se feia, pequenina, indefesa. Comia, rastejava, voltava a comer, sempre rastejando, temia a cada segundo os predadores que a ela queriam comer e era assim que desenhava a sua existência. Mas não era isso o que mais a preocupava, não, era o sentido. Porquê? Qual seria o fim daquele caminho tão cinzento, perdão, castanho? Tudo aquilo seria suportável se soubesse a que objectivo almejava. A verdade é que de cada vez que o Sol fazia sorrir as flores, a larva se encontrava de novo no seu calvário sem significado. Até essas flores invejava, imaginava-se como elas. Começam por ser frágeis, à mercê dos males do mundo, inibidas de movimento e de vontade, mas acabando por ser belas, por se destacar, por dar cor ao pano azul. 

A nossa larva via outras, e nem essas a consolavam. Não podiam falar nem ouvir, porque a nossa e essas demais não falam nem ouvem. E do que observava, a larva só via mais razões para temer. As suas irmãs eram levadas por pássaros, pisadas por homens, umas. A maioria rastejava até desistir e fechar-se num caixão que elas mesmas faziam, preferindo o conforto da morte às inquietudes da vida. Sempre que uma irmã o fazia, a larva chorava, o que quer que isso signifique neste pequenino mundo. Seguia rapidamente caminho ferida pela imagem da sua igual derrotada. Perguntava-se quando chegaria o momento em que também ela cairia. Seria mais fácil...

Contudo, havia um ardor no seio da nossa amiga larva. Ela não o sabia explicar, medir, tocar. Não a saciava, mas movia-a. Impedia-a de parar, de se render. Se a larva tivesse braços, seria esse ardor a mantê-los erguidos. De um jeito quase imperceptível, dizia à larva que havia um sentido sem lhe dizer qual era. Era nesse ardor que o lutador insecto repousava as armas que não tinha. Era por ele que ela não imitava as suas gémeas. E foi esse estranho queimar, essa energia que era combustível, que um dia fez a larva parar. 

Era estranho. Uma espécie de traição. A pequenina luz de esperança da pequenina larva afinal não era amiga nem sentido, era mais um predador. E tratou de a inundar de uma enorme vontade de não mais rastejar. Acabar com as perguntas sem dar respostas. Implacável. A larva percebeu o que sentiam as suas irmãs quando se tapavam com aquele manto que ela evitava. Era aquele ardor! Mas relembro, a nossa larva era especial. Lutou como nunca o fizera antes. Mexeu-se quando queria parar, comeu quando queria jejuar, abraçou o frio quando o corpo queria o conforto do casulo. Todavia, a luta não parou, até se apresentar como impossível. 

A larva percebeu que tinha chegado a sua hora. Mas quis escolher. Quando a pena imposta parecia ser a morte por expiração, sem alternativa, a larva quis dizer não e decidir como morreria. Rastejou mais um pouco, saindo de um abrigo que achara, e esse percurso foi o mais fácil de sempre. Sentia-se leve. Feliz. Colocou-se longe de plantas, buracos ou pedras. Só queria ver o céu. Sentia que era o seu destino deixar o pó por um instante e voar, voar, voar, ver de cima o que sempre a sufocara. Finalmente, um propósito, um sonho! Ao longe reparou num pássaro que a mirava. Ela sabia-o e ele veio, levando-a. E foi assim a nossa querida larva morreu. 

A pobre larva deveria ter-se tornado em borboleta. Os casulos eram normais e o bicho, tonto, teve a trágica sorte de nunca ver que as irmãs se fechavam naquele casulo para se transformarem. E quando os seus impulsos lho disseram, ela rejeitou. Poderíamos então julgá-la como estúpida ou triste, e garanto que ela aceitaria tais adjectivos em qualquer segundo da sua rastejante existência. Excepto aquele derradeiro. Ali, a larva deu razão a quem a julgou especial. Teve a sua metamorfose, não de corpo, mas de espírito. Sem nunca o chegar a ser segundo as leis da natureza, a nossa larva foi borboleta. Com mais cores que muitas das que ganharam asas. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Imagina que te preocupas com ditadores enquanto conduzes

Imagina que te preocupas com ditadores enquanto conduzes


A rubra luz inibia-me a vontade
A linha sem fim ordenava-me posição
Com poucas letras muito sim,
Muito não
Aqui um início, ali um fim
Ordem! na confusão.

Nada do que faço é meu.
Se erro a curva que almejo
Espero emenda indicada, 
Lá a vejo,
Mas a liberdade é uma fada,
Que enfeitiça com um beijo.

Ditadores.
Por todo o lado! 
Estou a ser observado!
Pau mandado, 
E bem! 
Como se fora mais deles 
Que do ventre de minha mãe!
Ditadores! Ditam dores que não doem, 
Só fazem temer a dor
Conduzem-me 
Chamando-me condutor.
Estou é no lugar no morto! 
Pelo que pago vendido pelo conforto
Que me quer dormente, 
Em transe, 
Absorto. 

E enquanto o fogo me arde as entranhas, 
Imagino-me guerreiro
O soldado primeiro
De grandes lutas, grandes façanhas. 
Revoltas!
Mas vejo pneus a darem voltas
E acordo, estremecido.
Era o real esquecido, 
Desculpe senhor no retrovisor!
É tempo de seguir, 
No que é que eu estava a pensar? 
Não sei, Conduz! 
Lá acelero, há que cumprir o mandar
Ficou verde a tal luz.