domingo, 26 de fevereiro de 2012

Farewell

Houve uma idade em que eu não usava relógio, uma época em que o tempo era contado por joelhos esfolados, desenhos animados e amores Iô-Iô. E a esse tempo volto de tempos a tempos, graças a mãos dadas que me levam ao tempo sem tempo. Sinto saudades dessas alturas, tanto aquelas de há anos como as que viveram nos meses mais chegados, meses em que abraço a ternura de não se saber aquilo que se vê, nem o que se sente. Só se vê e só se sente. Mas cresço e em vez de mais vida, lá se vai a vida. A luz dos anos sós faz sombra do meu corpo sozinho, que nada partilha com ninguém para além de sonhos que ficaram enterrados algures em locais que visitarei à procura do que perdi e com os quais tenho uma cumplicidade estranha; levei-lhes os sonhos, sonhei neles e depois de os perder, choro aos seus ombros, e eles mais não respondem que uma sonora gargalhada.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Um dia

Se um dia a areia for mais forte que o sangue, eu vou parar e deixá-los correr. Se um dia o rio fluir com tanta força que vire a jangada e nos leve para margens opostas, eu vou parar. Se o relógio passar e eu não te puder beijar, até que decidas que queres mais dos lábios que versos de amor distantes, eu vou parar. Se o pêndulo deixar de medir segundos e passar a ser uma guilhotina angustiante, eu vou parar. E esperar. E vão ser segundos e minutos e horas e dias e meses, porra, poderão ser anos, mas o tempo vai por mim passar como o vento que se sente mas não move. Os cabelos podem ficar brancos e a pele enrugada, mas cá dentro a cor é a mesma, e só sem tempo o tempo importa, por deixar de importar. Porque se existe, de facto, uma coisa maior que outra, ei-la: o que sinto é maior do que o tempo que passarei a sentir.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Amor feito

Pedaços de baton e gravata
Pelo chão,
Máscaras que foram e encantaram
E já lá vão.

Agora só a alma nua
Como os corpos quentes que se amam.
Um rio de prazer
A solidão que morre
Amor a acontecer.

Não há adeus porque tudo é eterno
E terno.
Numa pequena cama num pequeno mundo
Há tudo o que é preciso
E a noite, amiga
As estrelas e a lua aos lençóis liga
E abre-se num misterioso e largo sorriso.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A ponte a arder

Estava sozinho numa ponte
E essa ponte era de madeira.
E essa ponte de madeira ardia.
E já contigo, eu só, fugia
Da morte que, do passado, era certeira.

Abaixo de nós só escuridão cerrada
Um vazio de se ser e de sentir;
E cada corda ou madeiro despedaçado
Era o fim que era contemplado
A solidão, como tigre, a rugir.

Queria o meu coração o teu agarrar
Mas a confiança era mais frágil que o carvão.
A ponte da amizade para o amor é traiçoeira:
E se me agarrasse ao ar? Viver? De que maneira?
Antes que servisse a morte de consolação.

A ponte desabou, por fim
E em queda livre, senti pedido o teu desejo.
Daí a agarrar foi um momento
Caímos, juntos, e o não lamento
Estava seguro pelas cordas de um beijo.

Estrelas cadentes

Podíamos era passar menos tempo a pedir desejos e mais a empenhar-nos por ser o desejo concretizado de alguém.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Dois desejos

Era uma vez uma doninha e uma rapariga. Para além de ambas falarem, que não seria caso digno de nota se uma delas não fosse de facto uma doninha, a única coisa que elas tinham em comum era o fracasso no sonho das suas vidas. A menina, que vivia numa aldeia muito longe daqui (onde quer que esteja a ser lido este conto, será sempre muito longe daqui), desejava ter um iate enorme, para poder partir à descoberta do mundo e ir reunindo amizades, pois na sua terra os habitantes eram muito idosos e nunca dali saíra. Quando à doninha, ansiava por encontrar um bonito ornamento de cristal com que se pudesse enfeitar, pois o agradável aroma que costumava exalar (note-se aqui o uso da ironia) afastava qualquer hipótese de relacionamento. De facto, a floresta onde vivia (perto da aldeia da rapariga) era já quase inabitada, pobre doninha. E assim a nostalgia pautava a existência das pobres criaturas, como se fosse possível haver saudade do que nunca se teve.
Um dia, a menina resolveu sair à rua e, olhando para a floresta, algo a chamou, como se o verde das árvores de repente se tivesse transformado em esperança profetisa e alguma coisa lhe dissesse que ali encontraria algo. Não um iate, claro, mas algo. E lá foi (ainda bem que, nestas alturas, não existem flores para regar ou batatas para descascar, o que seria dos contos fantásticos se as cinzentas lides domésticas entrassem na equação), toda contente, embrenhando-se bosque dentro.
Andou, andou, andou. Nada encontrava, talvez porque seja mais complicado quando não se sabe o que se procura. A certa altura, sentiu um cheiro estranho no ar; olhou em volta e lá a viu, sentada numa pedra, a nossa amiga doninha. Fez tenção de se aproximar, ao que a doninha avisou qualquer coisa do género, O cheiro piora com a proximidade. Mas a rapariga dava passos pequenos e seguros, descobrindo aquele cheiro aos poucos, e ainda que a sua repugnância fosse inegável, não deixava de ser suportável. Daí a nada, estava sentada ao lado da doninha, como se também ela tivesse o seu próprio defeito nauseabundo, uma tristeza não cheirada pelo nariz, mas pelos olhos, canal directo ao coração. Aguentas o cheiro?, perguntou o animal, Sim, não tem nada de mal, não te preocupes, respondeu a pequena. Porque estás aqui sentada? Estava para aqui a pensar para com os meus botões e estava a perceber que não tenho botões no momento em que tu chegaste. Se não tens botões, pensa para comigo, sugeriu a menina. Bem, começou a doninha, precisava mesmo mesmo de um feiticeiro qualquer. Não fazes bruxedos, não? Não, mas também me dava jeito um, informou a rapariga, Achas que está algum debaixo dessa pedra? Definitivamente não, e olha que eu sou uma doninha que usa advérbios de modo, saberia se um feiticeiro estivesse escondido nesta pedra. Então, disse a rapariga, já zangada, Vamos procurar um! Aí sentada é que não o encontras.
E foram as duas pela floresta, à procura de um feiticeiro qualquer. O dia avançou e a noite caiu sem que o encontrassem. Procuraram, procuraram, voltaram a procurar, mas embrenharam-se tanto no bosque que as árvores tapavam o pouco luar que lhes ia alumiando o caminho, pelo que pararam. Conversaram sobre os seus sonhos, aquilo que desejavam do feiticeiro qualquer; a doninha contou que quando conseguisse o seu ornamento de cristal iria sair daquela floresta e arranjaria um monte de amigos, também eles giros e enfeitados, que não notassem o seu mau cheiro no meio de tanta beleza cristalina. A rapariga, por outro lado, falou no iate pelo qual ansiava, e explicou que com ele visitaria o mundo inteiro e que em cada país faria um amigo e que o convidaria a viajar consigo na embarcação, tanto que a certa altura o próprio barco fosse um mundo em ponto pequeno.
Enquanto sonhavam e suspiravam, ouviram o crepitar de fogo; ao principio o som parecia apenas ramos de árvore a partir com a força do vento, mas depois lembraram-se que não havia vento e foram investigar, até que chegaram a uma clareira. Nessa clareira, um velho de rosto carrancudo parecia meditar em frente a uma fogueira. Tudo no homem era singular; vestia uma túnica longa e branca, desfeita nas pontas pelo tempo, estava sentado numa pose muito estranha e a barba devia ser do comprimento das primaveras que já contava. A doninha e a rapariga aproximaram-se, movidas pela curiosidade e pelo desejo: Seria aquele um feiticeiro qualquer? Sim, sou, disse o velho, sem esperar pergunta. E sei o que pretendem. E podes dar-nos isso?, perguntou a doninha, Posso dar-vos o quê?, cuspiu o velho, Ora, respondeu a menina, aquilo que pretendemos. O que é que vocês pretendem?
O homem devia ser maluco, não dizia coisa com coisa. Afinal que raio de feiticeiro era aquele? Já desanimadas, falaram-lhe do iate e do ornamento de cristal, ao que o velho escutou, atento, ao mesmo tempo que meneava a cabeça em sinal de desaprovação. Então, concluiu ele, Eu sei o que vocês pretendem melhor do que vocês mesmas. Tomem. Passou-lhes para as mãos dois bocados de cartão cobertos por uma camada prateada. Uma raspadinha para cada uma. Raspem, informou ele, E se nas raspadinhas aparecer três vezes o desenho desse vosso sonho, então ele será vosso. E desapareceu.
Esperançosas mas ao mesmo tempo desconfiadas, as duas personagens sentaram-se na clareira com as suas raspadinhas. Os cartões estavam delineados de modo a haver uma divisão em três partes, cada uma delas escondendo os desenhos. Cada uma delas raspou dois e, para sua surpresa, em cada raspadinha calhou um par de desenhos correspondentes ao desejo do seu portador: à doninha um par de ornamentos de cristal e à rapariga dois iates. Ena, isto está a correr bem, não está?, perguntou a rapariga, Sim, parece que sim, concordou a doninha. Nenhuma delas parecia assim tão animada. Pareciam recear o que estava por detrás da terceira parte. No fundo da cabeça de cada uma, corriam muitos e muitos pensamentos, escondidos por uma fina camada de cor de prata. Raspamos ao mesmo tempo?, sugeriu o animal, Sim, aceitou a menina.
1, 2, 3 e... surpresa. No cartão da doninha apareceu um iate e no da rapariga um ornamento de cristal. Não havia nada para ninguém. Olharam uma para a outra e perceberam; momentos antes de rasparem a derradeira parte, desejaram no fundo do coração que não lhes calhasse a combinação vencedora. Tinham encontrado tudo aquilo que queriam sem precisarem de iates caros ou ornamentos exuberantes, a única coisa que fizeram foi sonhar e por pernas ao caminho. Os cartões combinados dariam para concretizar os sonhos, e a ideia era essa: juntas, teriam toda a amizade de que necessitavam, e juntas podiam descobrir o mundo, sem medo de solidão ou cheiros desagradáveis.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Que nem a morte vos separe, amén

Vasculhei as gavetas do teu quarto, à espera de te encontrar. Procurei-te debaixo da cama, atrás das cortinas, debaixo do tapete. Não estavas em lado nenhum. Pela janela olhei o céu, e nem daí sorriste para mim. A cidade cheirava a frio, ou era o meu coração, não sei. Voltei o meu olhar para dentro. Penduradas na porta do teu roupeiro estavam as sapatilhas de ballet, as tuas sapatilhas de ballet. Tuas. Peguei nelas. Os teus pés, outrora quentes e dançantes, tinham calçado aquelas sapatilhas. Engraçado. Tinha-las quando te vi pela primeira vez, no espectáculo da escola. Lembro-me perfeitamente do dia, da hora, do segundo e do que senti, talvez porque numa outra dimensão qualquer ainda lá estou especado, vendo-te dançar, o teu corpo flutuante ao som da doce música, ou seria o contrário, talvez por uma vez fosse a tua dança a dar origem à canção. Se a paixão nasce e tem pais, a mãe seria a tua dança. Foi ela quem te apresentou a mim. O pai, bem, os pais, seriam os teus olhos, de um azul que mais parecia pintado a lápis de carvão numa folha de papel de gente. Ah, que saudades, que saudades, o peito aperta de uma maneira que parece querer desaparecer dentro de si mesmo. Tentei distrair-me e explorar o teu quarto de novo. Era impossível não te imaginar ali comigo, o teu cheiro, a tua pele suavizada pelo creme nívea (o creme na prateleira olhava-me de gozo, sacana, vai embora!) , os teus lábios. Porque não levaste tudo contigo? Tenho tantas lembranças em mim, não precisava de recordações fora. De repente, vi-o. O diário. Conheci-te por dentro e por fora, mas no diário, nesse, nunca me deixaste tocar. Abri-o, da mesma forma malandra que uma criança rouba um chocolate, não por malícia, por desafio e reconforto. Procurei uma página ao calhas, desde que fosse escrita por ti, servia...

Querido diário,

Hoje o João beijou-me. Sim, sei que não foi a primeira vez, mas parecia! Estávamos num miradouro com uma vista brutal, sim, ele levou-me lá, e falámos muito. Falámos sobre o futuro, os filhos, a casa, o carro, até sobre a marca de leite que íamos comprar mais regularmente! De repente, ele olhou-me nos olhos, como se me estivesse a ler a alma, e disse que me amava. Parecia um menino pequeno, inocente. E foi como uma criança que ele me beijou, um beijo molhado, um carinho dos deuses, e logo depois abraçou-me. Éramos um. Se existissem dúvidas, morreram ali; o João é o homem da minha vida, é com ele que vou casar, e olha, não me importava de ser imortal com ele.

Não consegui ler mais. As lágrimas corriam à mesma velocidade que o filme daquele dia me passava pela cabeça; mas não eram lágrimas de dor, de tristeza, não; estava contente. Pessoas morrem velhas sem terem descoberto o amor, depois de o procurarem nos confins no mundo. Eu descobri-o, e descobri-o muitas vezes, num palco de dança, num quarto, num miradouro, e em muitos outros sítios. Enquanto pensava nisto, uma fotografia caiu do diário. Éramos nós e estávamos a sorrir para a máquina. Não sei onde estás, agora, tal como não sabia de ti antes de te conhecer. Mas fizemos uma pausa na vida, eu e tu, e nessa pausa descobrimos algo que a morte não pode nunca separar.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O ladrão

O ladrão vagueia de noite
Quando os candeeiros sussurram luz.
Não se importa com vida ou coração
Ou com pobre decoração
O que ele só quer é roubar.

Assalta-me a cama que mais me protege
Que o quarto
Leva-me o que tenho
Que não é nada
Leva-me a alma, inacabada
Leva-me o fogo e deixa o lenho.

Que ladrão é este
Que até o meu amor leva consigo?
Não tomado
Dado como amigo.
Ladrão de meia-noite, que me inspira
Não é maldade o que respira
É sonho adocicado.

Oh ladrão, regressa
Volta a quem te deu a vida
E eis que verdade esquecida
Na minha mente tropeça:

O ladrão é meu
Porque o ladrão sou eu
Que fujo noite dentro, vagabundo
Por entre os poemas nocturnos fecundo
Letras que hão-de rimar.
Porque eu só quero sair
E roubar
Roubar matéria com que se escreva
Mas ai de mim que me atreva
A minha cama abandonar.

E o meu eu ladrão vai ficar de mim órfão
Sozinho há-de viver
Amar, andar, sofrer
Tudo olhar, tudo escrever
E eu aqui, como é de lei.

(Se ao menos eu tivesse asas,
Ou este chão fosse de brasas...)


Hoje em dia escreve-se sobre tudo

É contigo que limpo o mal do meu pequeno mundo. Se fico muito tempo sem tratar de ti, ficas duro e frio, como se amuasses, mas eu não tenho a culpa! Eu sei, tu também não. E sei que só estás bem enquanto fazes bem aos outros, é simultâneo, e ninguém te dá valor por isso. Por vezes sinto que nasceste de propósito para essa vida de servidão, outras penso que vieste de um outro fazer mais digno e vistoso. Não sei. De qualquer das maneiras, a verdade é que te dão mais valor antes dessa vida de entrega do que depois, quando o brilho sai todo de ti para quem o dás. Não posso fazer nada, de facto. Mas agradece-me pelo menos por este textinho, olha que nunca ninguém escreveu sobre panos da loiça.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Perdoa-me

Esqueci-me de ti. Esqueci-me das letras, das palavras, das frases, não daquelas que já escrevi mas sim daquelas que ainda tenho para tecer, como aquelas que agora desenho como um menino que foi apanhado pela professora a roubar um pau de giz e descobria a vergonha. Há um problema na nossa relação, sabes? Os beijos que damos são só de mim para ti, só tocas os meus lábios se os abrir para ti e por vezes perco-me nos beijinhos da vida que não é de papel. É mais platónico que físico, o nosso amor, porque muitas vezes penso em ti e desejo-te e sonho contigo mas não me dá para te vir abraçar. Não me dá, que expressão pachorrenta e nojenta, como esta rima podre que não consegui fintar. Há outro problema no nosso casamento. Nunca te poderei perder. Se me cortassem as mãos e eu mais não pudesse acariciar-te a essência, talvez aí mais que nunca eu ansiasse por me deitar na cama contigo. Mas ninguém me vai cortar as mãos e para sempre o nós será um Sol que está lá sempre mas cada dia nasce ou não conforme os ponteiros ao acordar e as folhas da agenda. Hoje, que resolvi vir fazer-te esta declaração, li pelo caminho um poema sobre mortes lentas. Não quero morrer antes de fechar os olhos para o sono eterno e a minha vida és tu. Era agora que juraria nunca mais te deixar e que amanhã viria fazer-te a corte à tua janela, mas não sei como nascerá o Sol, para mim, amanhã. Perdoa-me que te ame assim, mas é o amor que tenho para te dar, é a água que tenho para te regar e   és tu uma flor que não pode nunca murchar, a menos que arrancada. Nunca vais deixar a terra, só espero um dia poder afogar-te como outrora fiz.

domingo, 27 de novembro de 2011

A cabana

Descobri uma cabana.
Eu já a conhecia
Já tinha os meus olhos passado
Mas madeira não era o que eu via
Nem isolada numa bolha de magia
Sol, mesmo que chuva de cada lado.

No meio de mil a cabana os calava
E nem a areia se atrevia a passar
O estreito.
Calor no peito
E dois num a dançar.

Dois num.
Há tantos que não são nenhum
E um que se desdobra em multidão.
Mas um coração
De dois nascido
É mais que material comprido
É poesia
É paixão.

Dois num.
Numa direcção.
Ainda com cê pois já curta é a palavra
Sem corte
E se o português é forte
Nem ele nem outra há que diga
O que é isto que nos liga
Onde encontrei esta sorte.
Não foi feitiço
Porque bruxas são mais reais
É mais, mais, mais
E quando acabar
Ó tempo, já foste
Vai ser tarde demais.

domingo, 16 de outubro de 2011

A Estação do Amor

Era uma vez quatro jovens, três rapazes e uma rapariga. É importante saber que cada um entra nesta história a seu tempo, nunca em simultâneo, ainda que os gestos de um influenciem o próximo. O primeiro que importa vestia-se de castanhos e escondia-se em espinhos, uma máscara feia que disfarçava um interior mais doce. Na verdade, este jovem estava apaixonado pela rapariga já mencionada, mas mal a vira; afinal, como eu disse, cada um entra a seu tempo, e quando tentava chegar-se a ela, ela fugia. Este seco e cinzento rapaz, destruído pela sina que lhe calhara em mãos, nas noites de maior saudade (saudade do que nunca se teve? seja.) gritava e chorava a paixão que nunca acalmava.

Entre  agora o seguinte jovem. Este, ouvia de longe os lamentos do primeiro. E chorava com mais força ainda, afinal as dores dos outros por vezes magoam mais que as nossas próprias. Na verdade, ao longe, ele via a amada fugidia, e percebia a razão de tal louca atracção. Testemunha e cúmplice deste amor não correspondido, vestia-se de cinzento e era frio, pois não pode ser quente aquilo que não consegue aquecer.

Fale-se agora da donzela fatal. Ignorante da trágica existência do seu pretendente, apenas sabia em rasgos do choro do segundo jovem, mas não ligava; vestia-se das cores mais alegres, vestidos cor de canto de andorinha e perfume do mel silvestre. Do fundo do seu olhar vinha o aroma da terra molhada, e estes olhos pousava-os no terceiro rapaz, quarta personagem deste conto. Amava-o pela sua majestosidade, achava-o rei de um reino repleto de ouro e quentes paixões. Mais bonita se punha quanto mais atrás chorassem, e o seu apaixonado o mesmo fazia, mas não por amor.

Na verdade, este terceiro rapaz gabava-se dos calores que lhe eram trazidos pela bela rapariga. Brilhava forte, quente, mas não gostava dela. Assim, acabava por incendiar as suas pretensões. e as cores alegres e o perfume de mel silvestre eram substituídos pelo seco e queimado. E de novo aparece o primeiro triste rapaz, também ele afectado pela superior impetuosidade do menino dos olhos da menina. Quem lhe dera ser ele, sem ser como ele.

Um dia, o primeiro rapaz, o Outono, resolveu ignorar a chamada a esta história eterna e fugir a ir ter com a Primavera, a sua amada. Ela acabou por entender quem de facto o amava, e deixou de dirigir o perfume da sua aura para o Verão, que brilhou menos intenso, carrancudo, amuado. E o Inverno chorará mais tarde, mas de alegria, pois o amor venceu. A fuga do Outono fê-lo atrasar-se, mas hoje, finalmente, bateu à porta. Já fez frio e nevoeiro, mas há algo de mágico nesta neblina; algo de primaveril. O Verão brilhou até ontem, mas só porque cá estava só e mais não sabe fazer. Queima, e nunca ama. E mesmo que a Primavera nunca mais possa receber o Outono nos braços, porque a Lei do Mundo a isso obriga, para sempre se saiba que as flores e os animais com que se veste não mais são para agradar ao Verão, mas sim porque, a partir deste ano e para sempre, está profunda, perdida e assolapadamente apaixonada pelo Outono.

sábado, 15 de outubro de 2011

1, 2, 3

Um
Amor? Não vejo nenhum.
Prometi que de beijos faria jejum
Ou prometeu-me a vida,
Já me esqueci.
Sei que se a paixão é espaço
Eu sou, dentro de uma latinha, atum.

Dois
Mas e depois?
Belos olhos, pois.
Ai, e o sorriso também.
Pronto
Mas a razão ganhará o confronto
O coração grita
E porra, tem força de bois...

Três
Nas entrelinhas sem querer já me lês.
E eu vou embalado.
Coitado, o coração correu desenfreado
Descarrilou
E nunca esteve tão direito.
Andar em terra parece bem perfeito
Ah, mas eu caí outra vez. De vez.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Porquê lá?


Conta-se a história de singular rapaz
Perdido numa ilha de onde só mirava água
Um oceano de lágrimas, choro, mágoa
Coisas daquelas que a vida faz.

Noite e dia corria parado
Ciente da necessidade de criar fuga
Mas não era fácil tal trabalho
"Faço, erro
Faço, refaço
Faço de novo
De novo falho."

Não queria da ilha morada eterna
E no desespero que o consumia
Gritou, buscando plateia
Fosse um homem ou sereia
Mas ninguém
Nem pedra ou animal
O ouvia.

Eis que surge de nenhuma lâmpada
Um génio sem desejos para ofrendar
Nem três
Nem dois
Nem um
É mesmo isto que aqui lês
O que lhe ofereceu verás depois
Mas desejo, nenhum.

"Onde queres ir, náufrago?
Para onde a tua embarcação?"

"Aportei do seio materno
O meu caminho é ja eterno
E barcos são etérea visão."

"Mas que buscas?
Que pretendes?
Só recebe quem o sabe pedir
Ou por sorte mera o venham acudir
Mas olho à volta e não vejo deuses
Nem mãos estendidas
Portanto, se as tuas maleitas são compridas
Fala,
E veremos."

"Quero mais, quero nova terra.
Quero paz mais que a ausência de guerra
Quero sair.
Aqui não tenho nada
Nem cama nem roupa lavada
E mal o frio começa a ganir
Sinto a mais ínfima molécula 
Congelada."

"Queres ser feliz?"

"Quero viver."

"Apura então o nariz,
E começa a ver.
O mar banha-te, gratuito
As frutas nascem das árvores
Saborosas.

O Sol é também muito
E as chamas, no gelo
Serão doces prosas
E tens paisagens airosas
De arrepiar o pelo.

Tens mais do que a vista alcança
Tens cores
Sensações
Sossego.
As borboletas e a sua eterna dança
Sombras que a paterna nuvem lança
Dádivas, elas, aos milhões.

Que queres mais, rapaz?
Dinheiro?
Casas?
Materiais?
Eles corrompem a alma por inteiro
Terás amores de plástico
Insípidos
Artificiais.

Ama o que tens
E até podes desejar mais
Ter sonhos ambiciosos.
Mas sejam eles sinceros
Preciosos.
E tudo terás
Em segundos meros.

Não queiras sair da ilha
O continente tem do ódio directrizes
Há tantas
Tantas coisas à tua volta
Prontas para nos fazerem felizes..."

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Dos jardins sem flores

Há croissants sem chocolate
E jardins sem flores.
Mas não há beijo que de amor dado
Não tenha golpe encantado
De encher o cinzento de cores.

E o motor dispara
Como se fora morrer
Mas é a vida
(Plural, bem entendida)
Que lhe dá razões para não mais viver.

Porque viver é coisa mundana
E no mundo há mais que respirar
Esquece tudo, nada importa
Este poema é coisa torta
Nem podia de outra maneira acabar.
Pois se pensas que ser mais é natural
Pensa de novo, que achaste mal;
Ser mais não é viver
Ser mais, é amar.

domingo, 9 de outubro de 2011

Tic-Tac

Tic-Tac Tic-Tac
Espero um tempo que não passa
Acelera, cheio de raça
Mas quando estou cheio do teu olhar em mim.

Tic-Tac Tic-Tac
Onde estás?
Não mais chega o tempo em que o tempo anda
Ah, que esta paragem já tresanda
Fedor de saudade que só mais me faz te amar.
Não, não me estou a queixar
Mas se estou cheio de estar vazio de ti
Mas completo de tanto em ti pensar
Tenho, e não me calo, que cantar,
Uma ode ao tempo que faz só o que quer.

Tic-Tac, Tic-Tac
Vem quando quiseres
Porque em mim já chegaste.
Não corras, desliza
Porque tanto é forte o tornado
Como a doce brisa
E tu, princesa
Não és guerreira.
Lutas e de que maneira
Com o sorriso que alguém te pintou.

Tic-Tac Tic-Tac
Quanto menos te tenho mais te quero
E assim espero, não desespero
Pela tua mão que me festinha a alma.
Amor na palma
E o tempo passa
Parado
Juro-te que não estou cansado
Talvez só um pouco
(E cada vez mais)
Apaixonado.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Conta

Contemos os sonhos
Os cumpridos e por cumprir.
Mais os que ficaram por florir
Na simples essência do pensar.

Contemos as pessoas
As que passaram e ficaram
Mais as foram e nem acenaram
As que amamos
Estimamos
As que desprezamos de tal forma
Que, por norma
Nem delas devemos falar.

Somemos à já larga conta
Aquilo que aconteceu.
Manhãs de amor que coração aqueceu
Ou noites de choro que o cérebro arrefeceu.
Mais as horas que foram minutos
Os momentos diminutos
Os segundos do tamanho de anos.

Juntem-se à factura aleatórias emoções
Como os sorrisos nascidos sem pai
Nem mãe
As lágrimas orfãs também
Todos irmãos do dia-a-dia.

Resultado.

Sou pequeníssimo dentro do próprio eu
Ou
Sou maior que o corpo que Deus me deu?

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sei lá, qualquer coisa

A minha mente é uma caneta super espectacular colorida e que dá luz e música, mas porra, está sem tinta. Preciso mesmo de ver uma vaca a mascar e, do nada, fazer um balão com uma pastilha elástica. Tipo isto que está a nascer do nada e prepara-se para ir, de malas e bagagens, para lado nenhum, esse mítico local para onde peregrinam todos aqueles que não querem chegar a sítio algum, só não querem ficar onde estão. Eu não quero ficar onde estou, mas vá, nem me importo de ficar na cama. Posto agora ou invento mais? Qual preparação qual quê, se a caneta não tem tinta, posso rabiscar à vontade. Para ti são rabiscos... ou consegues ler-me?

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E não te encontrei

Triste noite em que te quis mostrar a Lua, - tão bela que está! (esteve?) - e não sabia quem tu eras.