Padeço de singular doença
A doença de nenhuma ter.
Tudo é meu em seu tamanho
Mas só desejo o que não tenho
Mãos vazias, coração a ver.
domingo, 16 de janeiro de 2011
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Insónia
A noite acordou-me quando é tarefa dela embalar-me. Abri os olhos, ofuscado pela dura realidade escura, antes de os ter aberto tudo era tão belo e simples... Ainda confuso pelas realidades tão próximas e tão distantes, encontrei uma carta debaixo da almofada. Lembrei-me de que era um documento sem importância que deixara na mesa de cabeceira, e tornei a deitar a cabeça. Não, não podia ser teu. Mas a razão presente foi vencida pela emoção que sempre quer estar, e abri o papel. Era o tal documento, e eu até teria encolhido os ombros, se não tivesse logo deitado a cabeça e tentado voltar ao sonho. Voltei a adormecer, mas a noite foi escura, tanto cá fora como lá dentro.
Brilhos e barulhos, amores e paixões
Dizem eles que o brilho da Lua vem daquele que é do Sol. Pois sem o Sol a Lua lá continuará, e não fosse o brilho dela na noite, e todos se apaixonariam pela escuridão calma e esqueceriam a paixão cansativa e barulhenta do dia. O céu é um só, mas só será pleno enquanto este estranho amor se mantiver, tão distante quanto o reflexo do teu rosto no rio que em mim corre.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Conhecer-me
Queria levar-te a conhecer.
Não o mundo, que esse eu não conheço.
Quem conhece?
Queria levar-te a conhecer o nada que conheço
É que quando nada se conhece tudo se pode fingir conhecer
Sem nunca se arriscar errar.
Assim podia mostrar-te mais do que tudo
Um nada que todos gostariam de conhecer mas nunca poderão
Porque esse nada
É meu.
Mas o barco é outro, na minha jangada vou sozinho.
Não o mundo, que esse eu não conheço.
Quem conhece?
Queria levar-te a conhecer o nada que conheço
É que quando nada se conhece tudo se pode fingir conhecer
Sem nunca se arriscar errar.
Assim podia mostrar-te mais do que tudo
Um nada que todos gostariam de conhecer mas nunca poderão
Porque esse nada
É meu.
Mas o barco é outro, na minha jangada vou sozinho.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Um ano depois - 09-01-2010
Não, não quero dormir, estou demasiado cansado. Tenho preguiça de me entregar aos lençóis, para quê se é tão mais fácil sair e fingir que se vive, e deixar a vida cá dentro, a fazer comichão, a lembrar que existe e quer ser o primeiro plano de um quadro que pinto de cores de nada? O sonho cansa, porque nos mostra aquilo que o nosso dia podia ser mas deixa-o guardado de noite, como um oásis de areia. E se eu adormecesse de dia, ou melhor, fingisse que dormia e trouxesse para o Sol a magia da Lua?
Há um ano adormecei, sem saber que nome dar a esse sono. Continuo sem saber, por isso, continuo adormecido. Talvez só acorde quando chegar o sono eterno, e mesmo aí dependerá da cama que Deus nos tem preparada.
Há um ano adormecei, sem saber que nome dar a esse sono. Continuo sem saber, por isso, continuo adormecido. Talvez só acorde quando chegar o sono eterno, e mesmo aí dependerá da cama que Deus nos tem preparada.
sábado, 25 de dezembro de 2010
Feliz Natal
Luzes, doces, música, alegria, amor, muito amor. Não sei que nome dar a isto... mas cheira a Natal!
sábado, 11 de dezembro de 2010
natal
A casa estava cheia, mais que o habitual. Cheia de luzes, cheia de enfeites, cheia de bonecos de neve e Pais Natal. E cheia de pessoas. Estaria mesmo cheia, ou vazia como mais não podia estar? A pequena Leonor, sem o saber, achava que sim. Ela gostava muito de toda aquela alegria, mas algo não estava bem; primeiro, não percebia o motivo de todo aquele aparato. Sabia que era noite de Natal, sabia que se trocavam prendas e se comia a Ceia, mas não sabia porquê. Tudo tem uma razão de ser, mas ela ainda não tinha descoberto qual era.
Nesse ano em particular estavam lá em casa uma segunda família que segundo ela percebeu eram amigos de trabalho do pai. E isso mudou muita coisa também, o que contribuiu para aquela sensação de estranheza que Leonor sentia. Estava habituada a, no Natal, estar à vontade, só com os pais e o irmão, mas como aqueles senhores eram muito importantes, de nariz empinado, tinha que se portar muito bem e até teve que vestir um vestido muito bonito mas muito pouco cómodo. Às tantas tinha até receio de se rir sem pedir autorização primeiro... Tinha ouvido na escola que o Natal se passava em família, e agora percebia a importância disso.
A dada altura, quis perguntar ao irmão mais velho o que era o Natal. O irmão, que estava mais interessado numa conversa com o filho do casal amigo sobre os jogos e consolas que iam ou não receber, disse-lhe que não sabia, o que aliás não era mentira nenhuma. Depois perguntou à Mãe; também ela estava a trocar receitas e sabe-se lá mais o quê com a outra senhora, e disse-lhe, apressadamente, que o Natal era uma altura do ano em que as pessoas andavam mais felizes porque se preocupavam mais uns com os outros e ofereciam prendas aos amigos. Leonor perguntou à Mãe porque é que então havia pessoas na rua que pareciam muito tristes e cheias de frio, e perguntou-lhe que prendas recebiam elas; a Mãe, já sem paciência, disse-lhe que ela não tinha idade para se preocupar com isso. Por último tentou o Pai, fez-lhe a mesma pergunta, mas este estava a ter uma discussão tão acesa com o colega que nem lhe respondeu, disse-lhe só que depois explicava.
Leonor ficou um pouco triste. Passado algum tempo chegou a meia-noite e com ela a tão esperada abertura de prendas. Relógios caros, consolas, roupa, cd’s e sapatos, tudo se desembrulhou. Leonor recebeu tudo aquilo que pedira, bonecas e roupas bonitas. Pensou que tinha sido muito pateta por ter tido todas aquelas dúvidas. O Natal era aquilo, eram as prendas, e agora estava bem contente. Começou então a brincar com os novos jogos, despreocupada. Começou o Natal sem saber o que ele significava, e acabou a pensar que sabia.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Livro Branco
Um famosíssimo escritor anunciou o lançamento de uma nova obra. Muito antes de se saber o conteúdo ou sequer o título, houve logo uma grande onda de entusiasmo, daquele autor só podia ser coisa boa! Eis que saiu o Livro Branco e todas as suas páginas rimavam precisamente com título: em branco, mais de cem folhas vazias do que fosse. E o livro do autor famoso trazia uma recomendação, lançada como que um slogan promocional: este livro possui truque para ser lido. Ora, saberia bem o escritor, tão bem quanto eu sei, que o Homem adora o que não conhece e sonha com o que pode descobrir, e logo milhares de pessoas acorreram a comprar aquela misteriosa obra. Cada um experimentou mil e um ensaios; aqueceram o livro, puseram-no dentro do congelador,
expuseram-no à humidade e ao vento. Olhavam com ânsia para as linhas que teimavam em não surgir, fosse feito o que fosse. Não tardou a que surgissem reclamações. Foi confrontado o autor com recibos do preço da obra, que para eles não devia ser o custo para aquilo que se revelou ser um mísero bloco de notas. E nem tinha sido assim tão caro... O escritor a tudo sorria, com ar de criança divertida. É que o truque que o leitor deveria ter usado para ler aquele livro, era tê-lo preenchido com os próprios dedos.
expuseram-no à humidade e ao vento. Olhavam com ânsia para as linhas que teimavam em não surgir, fosse feito o que fosse. Não tardou a que surgissem reclamações. Foi confrontado o autor com recibos do preço da obra, que para eles não devia ser o custo para aquilo que se revelou ser um mísero bloco de notas. E nem tinha sido assim tão caro... O escritor a tudo sorria, com ar de criança divertida. É que o truque que o leitor deveria ter usado para ler aquele livro, era tê-lo preenchido com os próprios dedos.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Abandono
A multidão gritava
Havia movimento por todo o lado .
O prédio ardia
Havia gente que fugia
Choro, enorme, desconsolado.
Nos meus olhos reflectia
Ardente, o fogo intenso
Não devia ele ser quente?
Em mim queimava diferente
Era de um frio cortante imenso.
Fecharam-se, pesados
De tragédia não de sono
Em cinzas sonhos, uma vida
Parece que foi ontem já esquecida
E eu companheiro do abandono.
Havia movimento por todo o lado .
O prédio ardia
Havia gente que fugia
Choro, enorme, desconsolado.
Nos meus olhos reflectia
Ardente, o fogo intenso
Não devia ele ser quente?
Em mim queimava diferente
Era de um frio cortante imenso.
Fecharam-se, pesados
De tragédia não de sono
Em cinzas sonhos, uma vida
Parece que foi ontem já esquecida
E eu companheiro do abandono.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Desamparo
Crescemos com os braços dela encostados nas nossas costas, bem quentinhos, de repente olhamos para trás e ela não está. Sim, claro que ela nos avisou, mas por muito escuras e densas que sejam as nuvens, se nunca olhámos para elas, quem não se surpreende por começar a chover?
Viver
Sonhei no sono
Que tudo era um sonho.
E enquanto sonhos sonhava
A vontade em mim acabava
Não de viver;
Mas de acordar.
Que tudo era um sonho.
E enquanto sonhos sonhava
A vontade em mim acabava
Não de viver;
Mas de acordar.
Guerra e Paz
A planície podia até ser bonita, não estivesse recheada de metal e sangue e carne, crateras de explosões, elevados montes sem-vida. O Sol rompia o horizonte e, se iluminar não fosse uma obrigação sua quem sabe encomendada por Deus, provavelmente levaria a sua aurora para outros locais merecedores de serem beijados pelos seus raios.
Aconteceu neste cenário que dois sobreviventes, dos poucos que poderão ter havido e mesmo estes por pouco tempo, que a morte já aí vinha, definhassem perto um do outro. Um deles, falou, e foi esta expressão que chamou à atenção do segundo:
-É isto o Céu?
-Ainda não, e espero que não seja assim... - respondeu o segundo soldado, com a voz a fugir-lhe - De qualquer modo... não creio que seja o Céu a nossa próxima e derradeira paragem.
A estas palavras seguiu-se um momento de silêncio; ambos as digeriam e cada um mais que o outro as sabia verdadeiras, fatais, trágicas. O primeiro olhou em volta, a toda a largura do campo de batalha, e disse:
-Quantas vidas tirei esta noite?
-Quem tentou tirar a minha já veio tarde, que vida é para quem a merece viver.
-Eu não queria vir... eu não queria... eu fui obrigado! - as lágrimas inundaram-lhe os olhos, mas vinham frias, como se para aquele corpo o calor tivesse sido algo de outros tempos, outra vida.
-És meu inimigo ou defendes as minhas cores? - perguntou o segundo homem. De facto, por mais que olhasse a farda do soldado, a sujeira imunda de sangue e terra e fuligem escondia quaisquer pistas do lado da barricada dele.
-Que interessa isso? Matas-me, agora? Olha para nós, cobertos de sangue e suor. Foram só nossos e, ah!, morreria feliz. Mas não, levo para a morte sangue de mortos, mortos por mim, mortos enquanto me tentavam matar... Morte, morte, morte, pensava que os seres humanos nasceram para viver e dar vida...?
-Não, não te vou matar. Faltam-me forças e vontade, bem, essa sempre me faltou. Acho que é uma boa altura para perdoar os pecados do teu país para com a minha nação...
-Que pecados? Hum?
-Então... eu... os pecados... eu... não sei.
-Porque lutávamos, quem defendíamos? Pedaços de papel e ouro, era quem defendíamos.
O pouco sangue que o segundo homem teria ainda no corpo subiu-lhe às faces, rosando-as; sentia-se envergonhado, usado. Olhou para si mesmo, como se esperasse ver sair dos braços cordas gigantes.
-Eu tenho um lar... terei? Foi há pouco tempo que me despedi da minha mulher e da minha filha, mas parece que passaram anos. Parece que sempre vivi aqui, e que essa vida que tive foi um sonho do qual acabei de acordar...
-Não! - o grito do segundo soldado ecoou pela planície sem vida - Não, agarra-te a isso. Se foi um sonho, pois que seja ele o teu redentor. Se acreditas em Deus, dá-lhe a conhecer, quando fechares os olhos, esse teu lado.
-Acreditas em Deus?
-Quero acreditar, se não houver nada para a frente, então que terei deixado eu para trás? Muito pouca vida, e muito mal vivida, e acabada a tirar outras que muito poderiam ainda viver. Quero conhecer Deus, pedir-lhe perdão, perdoar-me a mim próprio. E tu...?
-O meu Deus ficou em casa, junto com a minha família. Ao vir para aqui, ao servir fatos e gravatas que agora bebem sobre os nossos corpos, renunciei ao único Deus que alguma vez servi. E matei-o aos poucos, com cada bala que saiu da minha arma. Ah, sim, acredito em Deus, mas ele há muito que deixou de acreditar em mim.
-Para onde achas que vamos, então? - A pergunta não era de desafio, era da mais pura necessidade de conforto.
-Se não formos para sítio nenhum, estaremos melhor que aqui.
Se houveram mais palavras trocadas, estas foram inaudíveis. Talvez trocadas pelo olhar, que as bocas perderam forças. Não tardou a que os olhos a ambos pesassem, sucumbindo sob um sono imenso. Adormeceram, e tal como milhares de outros, não mais acordaram.
Aconteceu neste cenário que dois sobreviventes, dos poucos que poderão ter havido e mesmo estes por pouco tempo, que a morte já aí vinha, definhassem perto um do outro. Um deles, falou, e foi esta expressão que chamou à atenção do segundo:
-É isto o Céu?
-Ainda não, e espero que não seja assim... - respondeu o segundo soldado, com a voz a fugir-lhe - De qualquer modo... não creio que seja o Céu a nossa próxima e derradeira paragem.
A estas palavras seguiu-se um momento de silêncio; ambos as digeriam e cada um mais que o outro as sabia verdadeiras, fatais, trágicas. O primeiro olhou em volta, a toda a largura do campo de batalha, e disse:
-Quantas vidas tirei esta noite?
-Quem tentou tirar a minha já veio tarde, que vida é para quem a merece viver.
-Eu não queria vir... eu não queria... eu fui obrigado! - as lágrimas inundaram-lhe os olhos, mas vinham frias, como se para aquele corpo o calor tivesse sido algo de outros tempos, outra vida.
-És meu inimigo ou defendes as minhas cores? - perguntou o segundo homem. De facto, por mais que olhasse a farda do soldado, a sujeira imunda de sangue e terra e fuligem escondia quaisquer pistas do lado da barricada dele.
-Que interessa isso? Matas-me, agora? Olha para nós, cobertos de sangue e suor. Foram só nossos e, ah!, morreria feliz. Mas não, levo para a morte sangue de mortos, mortos por mim, mortos enquanto me tentavam matar... Morte, morte, morte, pensava que os seres humanos nasceram para viver e dar vida...?
-Não, não te vou matar. Faltam-me forças e vontade, bem, essa sempre me faltou. Acho que é uma boa altura para perdoar os pecados do teu país para com a minha nação...
-Que pecados? Hum?
-Então... eu... os pecados... eu... não sei.
-Porque lutávamos, quem defendíamos? Pedaços de papel e ouro, era quem defendíamos.
O pouco sangue que o segundo homem teria ainda no corpo subiu-lhe às faces, rosando-as; sentia-se envergonhado, usado. Olhou para si mesmo, como se esperasse ver sair dos braços cordas gigantes.
-Eu tenho um lar... terei? Foi há pouco tempo que me despedi da minha mulher e da minha filha, mas parece que passaram anos. Parece que sempre vivi aqui, e que essa vida que tive foi um sonho do qual acabei de acordar...
-Não! - o grito do segundo soldado ecoou pela planície sem vida - Não, agarra-te a isso. Se foi um sonho, pois que seja ele o teu redentor. Se acreditas em Deus, dá-lhe a conhecer, quando fechares os olhos, esse teu lado.
-Acreditas em Deus?
-Quero acreditar, se não houver nada para a frente, então que terei deixado eu para trás? Muito pouca vida, e muito mal vivida, e acabada a tirar outras que muito poderiam ainda viver. Quero conhecer Deus, pedir-lhe perdão, perdoar-me a mim próprio. E tu...?
-O meu Deus ficou em casa, junto com a minha família. Ao vir para aqui, ao servir fatos e gravatas que agora bebem sobre os nossos corpos, renunciei ao único Deus que alguma vez servi. E matei-o aos poucos, com cada bala que saiu da minha arma. Ah, sim, acredito em Deus, mas ele há muito que deixou de acreditar em mim.
-Para onde achas que vamos, então? - A pergunta não era de desafio, era da mais pura necessidade de conforto.
-Se não formos para sítio nenhum, estaremos melhor que aqui.
Se houveram mais palavras trocadas, estas foram inaudíveis. Talvez trocadas pelo olhar, que as bocas perderam forças. Não tardou a que os olhos a ambos pesassem, sucumbindo sob um sono imenso. Adormeceram, e tal como milhares de outros, não mais acordaram.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
domingo, 28 de novembro de 2010
A maior força
A chuva fustigava as janelas geladas, a rua estava escura e mesmo os candeeiros amarelos só pareciam realçar o breu da noite. Ao longe os pontinhos brilhantes da cidade traziam possibilidades de vida, de sonho, mais nostálgicos que promissores. Pareciam entrar na sala trocistas, com quem mostra um saboroso osso a um cão que, preso pela trela, nunca lhe conseguirá chegar. Dentro da divisão não havia qualquer luz própria, só o jogo de sombras e reflexos mortiços vindos de fora. A um canto do sofá estavam duas crianças, as únicas pessoas da casa, abraçadas; os irmãos, ela mais velhinha e ele muito pequenito, procuravam um no outro uma companhia que pareciam esperar em vão ver aparecer ao fundo da rua que descia, da qual não tiravam o olhar. O menino tremia ligeiramente nos braços da irmã, que se fazia protectora em idade de ser protegida. Uma pequena lágrima morava no canto do seu olho, uma parente quente das frias que lá fora caíam. De repente trovejou e um lampejo de luz e som inundou a rua e a sala, qual grito de gigante enfurecido. Os irmãos deram um pequeno salto, mas maior que o susto foi o sentimento de medo e inferioridade e encurralamento. A lágrima parada caiu e puxou outras. Mana, tenho medo, vamos ficar sozinhos muito tempo? Não estamos sozinhos, tens-me a mim e eu tenho-te a ti... e não há nada para teres medo! Mas está a chover tanto mana, e aqueles barulhos grandes... Olha bem, a chuva não passa de água, e a água não é boa? Vê, quando cai no alcatrão e nos carros, é como se lhes passassem um pouco de verniz, e as luzes tornam-se bonitas quando lá batem. Se cai na terra, então, dá de beber às árvores e às flores, para elas crescerem fortes e frescas. Levantou-se e abriu um pouquinho da janela; e sentes o cheirinho? É a mistura do cheiro do ar com o cheiro da terra, trazido pela água que nos aquece como se fosse fogo. Fechou-a de novo. Olhou para o rosto do irmão e dos lábios começara a brotar um sorriso. Ouve bem, só terás que ter medo do que quer que seja se estiveres sozinho. E tu nunca vais estar sozinho, porque eu vou estar sempre aqui. Se estiver frio abraço-te, se estiver calor dar-te-ei de beber. Se estiver escuro dar-te-ei a mão, se a luz te ofuscar a vista eu serei então sombra. Venha quem vier, estarei contigo, seja onde for. Abraçou de novo o irmão depois de lhe ter abraçado o coração. Olharam juntos rua e as luzes já lhes pareciam bonitos enfeites de um Natal já não assim tão distante; a nostalgia deu lugar à esperança e até a chuva fria caía como gotas de calor. Celebravam a trovoada e deixaram-se encantar com o seu espectáculo.
Entretanto, a porta da rua abriu-se a luz da sala acendeu-se. Estava tudo bem, agora.
Entretanto, a porta da rua abriu-se a luz da sala acendeu-se. Estava tudo bem, agora.
Abrigo
Não quero ficar seco se não tencionas de facto abrigar-me. Vá, finjamos só mais um pouco que brilha quente o Sol... Depois, voltarei para a o conforto da chuva fria.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Loucura
Não há vergonha em ser-se louco
Rubras faces por rubro o peito
A virtude está em ser defeito
Não é capricho, mas ser-se são...
É ser-se tão...
Pouco.
Quem nunca amou que a fome deixara?
Quem, pergunto, foi sempre racional?
Até o ódio pode não fazer mal
Se manter vivo e insano a bater
Como o sangue sempre a correr
De uma ferida que nunca sara.
Ah, nos filmes de branco e preto
É o cinzento, rebelde, a diferença
É minha forte a crença
Que se fora o mundo de justiça entupido
Bom era ser-se bandido
E assaltar o que é parado, certo.
Há-de ser a morte a curva da direita estrada
O fogo no imenso gelo duro
Derreterá água como cairá o muro
E depois, a vida eterna que já teve início.
Há quem pense que seja precipício
Voarei eu na minha diferença alada.
Rubras faces por rubro o peito
A virtude está em ser defeito
Não é capricho, mas ser-se são...
É ser-se tão...
Pouco.
Quem nunca amou que a fome deixara?
Quem, pergunto, foi sempre racional?
Até o ódio pode não fazer mal
Se manter vivo e insano a bater
Como o sangue sempre a correr
De uma ferida que nunca sara.
Ah, nos filmes de branco e preto
É o cinzento, rebelde, a diferença
É minha forte a crença
Que se fora o mundo de justiça entupido
Bom era ser-se bandido
E assaltar o que é parado, certo.
Há-de ser a morte a curva da direita estrada
O fogo no imenso gelo duro
Derreterá água como cairá o muro
E depois, a vida eterna que já teve início.
Há quem pense que seja precipício
Voarei eu na minha diferença alada.
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