O poeta não é pobre
O poeta não é um fingidor
O poeta bebe magia
P'ra amor fazer noite e dia
O poeta é um Beija-flor!
domingo, 31 de outubro de 2010
Por onde?
Um beijo
Um abraço
Um colo,
Um sorriso quente.
Todos os têm e os querem
E eu não sou diferente.
Mas o caminho à minha frente
Tem sempre, sempre, dois lados.
E se num te tenho e sou teu
O outro livre é também desejo meu
Sonhos perdidos, abraços nunca dados.
Um abraço
Um colo,
Um sorriso quente.
Todos os têm e os querem
E eu não sou diferente.
Mas o caminho à minha frente
Tem sempre, sempre, dois lados.
E se num te tenho e sou teu
O outro livre é também desejo meu
Sonhos perdidos, abraços nunca dados.
sábado, 30 de outubro de 2010
Carta de quem não foi, para quem poderá ainda ser
Ao cabo de oitenta anos de vida, pensa-se mais no passado do que no futuro, não por não haver amanhã, só mesmo por não se poder saber com certeza o que ele guarda. Sonha-se muito com esse amanhã, mas pensar, pensa-se no ontem. Quem me vê de fora e pudesse, como se faz aos livros, folhear as primaveras da minha vida, diria facilmente que fui uma mulher bem sucedida. Realizada. Estudos, carreira profissional sempre em crescendo e muito prestigiante e bem-remunerada. Administradora de umas das mais cotadas empresas de telecomunicações do país parece algo realmente digno de orgulho. Agora que olho para trás, só vejo quatro paredes e uma secretária e um computador, que dizem ser uma janela mas para mim assemelha-se agora mais a um muro de betão bem alto e cinzento. É só. Nunca pude, nem quis, casar. Fui sempre demasiado dedicada ao meu trabalho e ele sempre me roubou muito tempo, ora aí está uma coisa que o dinheiro não pode comprar. Talvez devido ao meu trabalho deixe, depois de morrer, o meu nome gravado numa pedra fria qualquer. Mas deste mundo mais não deixarei mais que aquilo que levo dele, pouco ou nada. Sinto-me assolada por uma tristeza de morte, e escrevo esta carta para deixar prova e finalmente dizer aquilo que nunca tive coragem de dizer em voz alta. Cá vai: sempre sonhei ser uma astronauta. Mais do que um sonho de criança, sempre quis partir em missões através dessas mil estrelas que pintam o céu que só agora aprendi a apreciar cá de baixo. Parecem pirilampos e também as estrelas dançam e dão-me abraços enquanto ao longo da minha vida de tijolo me tentaram ensinar a bailar com elas. Muitas vezes sonhei comigo no espaço, onde não há tempo nem gravidade e a cortina entre o real e a fantasia é mais ténue que em qualquer outro lado. Pensava eu, pensando como os outros, que eram esses sonhos para artistas preguiçosos que nada querem fazer da vida. Pois agora entendo que quem leva a sua existência sem saber que sapatos vai calçar amanhã não faz mesmo nada da vida. Vive. Eu não vivi, eu limitei-me a a existir, a ser, a corresponder as necessidades físicas de um corpo que tanto aprisiona uma mente que quer voar. Não sei quantos mais anos tenho de vida, sei que pouco posso fazer deles, e sinto que não serão tantos quanto isso. Penso em duas possibilidades de vida depois de adormecer para não mais acordar: ou irei para um local sem corpo e aí a minha mente vai dançar luzidia que nem os meus pirilampos mágicos ou, então, reencarnarei e terei outra oportunidade de existência. Aconteça este segundo cenário e juro a Deus que me está quase a receber que serei astronauta, descobrirei astros nunca dantes contemplados. Ah, verei a outra face da Lua. E rir-me-ei de quem como eu viveu dentro de quatro paredes num mundo que tem quatro cantos e quatro elementos. Ontem tive um sonho bastante peculiar: dormia no meu quarto mas não havia tecto nem telhado nem nada, só o céu. Quem ler esta carta e puder ainda viver, por favor, tira os tectos da tua casa. O céu não tem limites, e o infinito é um papel imenso em branco. Pega nos lápis de cor, e desenha. Pirilampos.
Barquinho de papel
Construí o meu barquinho de papel
Com toda a inocência e simpleza
Que uma criança põe
Quando constrói um barquinho de papel.
Desenhei nele sorrisos
Beijos no seu lado esquerdo
Desenhei castelos e uma princesa
Ia na proa, capitã.
Também lhe desenhei um amor
Pela chuva e trovoada
Que as pessoas odeiam.
Eu gostava e gosto dela
E a princesa da proa também.
Por causa desse amor
Começou a chover muito
E eu estava na rua.
A água apoderou-se da estrada
E fez dela um rio
Engraçado como a Natureza
Conquista e ganha ao Homem
Coisas que, afinal, são suas.
Lancei o meu barquinho de papel
Pintado a amor de criança
Pela corrente do rio da estrada
E vi-o afastar-se lentamente.
Lá ia a princesa, e os beijos
E os castelos e os amores.
Um dia espero que o barquinho volte.
Com toda a inocência e simpleza
Que uma criança põe
Quando constrói um barquinho de papel.
Desenhei nele sorrisos
Beijos no seu lado esquerdo
Desenhei castelos e uma princesa
Ia na proa, capitã.
Também lhe desenhei um amor
Pela chuva e trovoada
Que as pessoas odeiam.
Eu gostava e gosto dela
E a princesa da proa também.
Por causa desse amor
Começou a chover muito
E eu estava na rua.
A água apoderou-se da estrada
E fez dela um rio
Engraçado como a Natureza
Conquista e ganha ao Homem
Coisas que, afinal, são suas.
Lancei o meu barquinho de papel
Pintado a amor de criança
Pela corrente do rio da estrada
E vi-o afastar-se lentamente.
Lá ia a princesa, e os beijos
E os castelos e os amores.
Um dia espero que o barquinho volte.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Passatempo de escrita
Era ainda noite mas o dia rompia, já cheirava a Sol na rua apesar de ainda reinar a Lua. Afonso estremeceu mal o primeiro raio lhe beijou o rosto. Acordou. Doíam-lhe as costas, afinal de contas um banco de jardim não é exactamente o mesmo que uma cama de dossel. Esfregou os olhos, à procura da realidade. Teria sido tudo um sonho?
Proponho um desafio aos leitores do blog. Pegando neste pequeno parágrafo, dêem-lhe um início, imaginem e escrevam o sonho que a personagem Afonso teve, começando, sugiro eu, por dizer como foi ele ali parar. Não estou à procura de um conto genialmente bem escrito, apenas de uma boa dose de originalidade. Não há qualquer restrição a nível de número de linhas ou palavras, deixem a imaginação escorrer. No dia 15 de Novembro publicarei aquele ou aqueles (dependendo do número de textos) que considerar mais originais!
Os textos deverão ser enviados para o meu mail (mendez1_15@hotmail.com) ou através de um comentário, como preferirem. Podem ou não ser assinados! Fico à espera...
Proponho um desafio aos leitores do blog. Pegando neste pequeno parágrafo, dêem-lhe um início, imaginem e escrevam o sonho que a personagem Afonso teve, começando, sugiro eu, por dizer como foi ele ali parar. Não estou à procura de um conto genialmente bem escrito, apenas de uma boa dose de originalidade. Não há qualquer restrição a nível de número de linhas ou palavras, deixem a imaginação escorrer. No dia 15 de Novembro publicarei aquele ou aqueles (dependendo do número de textos) que considerar mais originais!
Os textos deverão ser enviados para o meu mail (mendez1_15@hotmail.com) ou através de um comentário, como preferirem. Podem ou não ser assinados! Fico à espera...
Poesia a dois
Em termos de oração
Muito rezar vale uma vez
Cantar por si vale por duas
Amar, penso, vale por três.
E quando há amor há coração
Há menos cabeça e para quê?
Se a vida nada mais é que emoção
E amor, amor... Só se sente uma vez.
E será quando no fundo de um olhar
A areia e o vento pararem de correr
Razão não é nada, se posso amar
De números e químicas não quero saber.
E como o mar se junta à praia
E cada um, em uníssono, se interpreta,
Só um amor neste momento ensaia:
O amor de ser poeta!
Muito rezar vale uma vez
Cantar por si vale por duas
Amar, penso, vale por três.
E quando há amor há coração
Há menos cabeça e para quê?
Se a vida nada mais é que emoção
E amor, amor... Só se sente uma vez.
E será quando no fundo de um olhar
A areia e o vento pararem de correr
Razão não é nada, se posso amar
De números e químicas não quero saber.
E como o mar se junta à praia
E cada um, em uníssono, se interpreta,
Só um amor neste momento ensaia:
O amor de ser poeta!
Poema escrito juntamente com o André Santos,
do blog http://conquistaoteumundo.blogspot.com/
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
A meio caminho
Acordei deitado na pedra da calçada, nu, frio, sozinho. Conforto e quente e cama pareciam conceitos de outra vida, contudo, mesmo que não vivo, também não estava morto. Estava a meio caminho. Nem terra nem céu.. Olhei para cima, para o pano de estrelas. E gritei, não com voz, que não a tinha, mas com a alma, que essa nunca ma tirarão. Quem és tu? Vamos pega-me, sou teu filho. Se não existes ficarei aqui para sempre. Mas eu sei que existes. Disseram-me que para te ver tinha que vir ter contigo. Aqui estou. Talvez esteja no lado errado da rua, mas aqui estou. Sabes, sempre pensei que mais tarde ou mais cedo chegaria a casa, deitava-me e ficava à espera que acontecesse, e nem quando sonhava cheguei. Agora sei que tinha que ir ter contigo a meio caminho. Estou- te agradecido pelo que tive lá atrás, mas agora quero algo para sempre e ficarei bem. Por favor, se me ouves, dá-me colo...
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
1+1=2 ?
O mundo todo e coração é feito Do simples amor! Paixão e fogo e nunca
De verdades absolutas e certezas De outro penso vir. Cruas simplezas,
Não há sentimento nem emoção, Bom é complicar e só sentir, e assim
Morram bruxas, dragões, princesas Morrerei pois eu poeta sem almas presas.
E quem pensa em duas simples quadras
Resultado de conta sem segredo nenhum
Conte de novo, talvez hajam surpresas
É que um mais um... ah!, é igual a um.
Junta-se a sede à vontade de escrever
Escrevo muito e muito escreverei
Os dedos trabalham mesmo que eu mudo
E muito não me mata a sede, quero tudo
Sei que é impossível, porém tentarei.
Os dedos trabalham mesmo que eu mudo
E muito não me mata a sede, quero tudo
Sei que é impossível, porém tentarei.
Boas festas
O grande problema da Páscoa é que se jejua durante 40 dias ansiando pelo último, no qual se podem comer mundos e fundos.
Já o do Carnaval, é que no meio de brincadeiras e tropelias se chega rapidamente à conclusão que as pessoas não colocam máscaras, limitam-se a tirar as que usam o ano todo.
No que toca à passagem de ano, o problema reside em se desejarem mil e uma coisas em dez segundos e não se perseguir esses desejos nos 364 dias que se seguem.
No dia do pai e da mãe, tomamos atenção às pessoas que menos deveriam ter que esperar por um único dia para a receberem.
O problema dos dias de aniversário é que voltamos a ser algo que nunca devíamos colocar definitivamente de lado nos outros dias do ano.
O dia das mentiras, esse, só nos dá uma boa desculpa para fazermos aquilo que já fazemos nos restantes.
E por último, o grande problema do Natal é ser quando os homens querem e não quando as crianças desejam.
Já o do Carnaval, é que no meio de brincadeiras e tropelias se chega rapidamente à conclusão que as pessoas não colocam máscaras, limitam-se a tirar as que usam o ano todo.
No que toca à passagem de ano, o problema reside em se desejarem mil e uma coisas em dez segundos e não se perseguir esses desejos nos 364 dias que se seguem.
No dia do pai e da mãe, tomamos atenção às pessoas que menos deveriam ter que esperar por um único dia para a receberem.
O problema dos dias de aniversário é que voltamos a ser algo que nunca devíamos colocar definitivamente de lado nos outros dias do ano.
O dia das mentiras, esse, só nos dá uma boa desculpa para fazermos aquilo que já fazemos nos restantes.
E por último, o grande problema do Natal é ser quando os homens querem e não quando as crianças desejam.
domingo, 24 de outubro de 2010
Pote de ouro
O dia era de miúda chuva e Sol raiante
Sabe lá Deus se há-de rir ou chorar.
Se desenhou então no céu, brilhante
Arco-íris de sete cores, fascinante
De perder em vista onde ia acabar.
Da janela pouco me senti satisfeito
Saí, lembrado de histórias de princesas.
Pois li, não sei se em livro se no peito
Que quem de arco-íris acha fim, tem direito
A um pote de ouros e jóias e riquezas!
Errante andei meses e semanas e dias
Já não os podia contar, por não ter dedos.
Passei por vales, rios, mares de magias!
Animais como David, montanhas que nem Golias
Enfrentei dragões, bruxas, espelhos, medos.
Por fim, já após o horizonte conhecido
Encontrei o termo ao arco já amigo.
Procurei por arca ou pote, estaria escondido?
Achei-o enfim, não ali, que nunca fora perdido,
Pois ao longo da viagem... já vinha comigo.
Sabe lá Deus se há-de rir ou chorar.
Se desenhou então no céu, brilhante
Arco-íris de sete cores, fascinante
De perder em vista onde ia acabar.
Da janela pouco me senti satisfeito
Saí, lembrado de histórias de princesas.
Pois li, não sei se em livro se no peito
Que quem de arco-íris acha fim, tem direito
A um pote de ouros e jóias e riquezas!
Errante andei meses e semanas e dias
Já não os podia contar, por não ter dedos.
Passei por vales, rios, mares de magias!
Animais como David, montanhas que nem Golias
Enfrentei dragões, bruxas, espelhos, medos.
Por fim, já após o horizonte conhecido
Encontrei o termo ao arco já amigo.
Procurei por arca ou pote, estaria escondido?
Achei-o enfim, não ali, que nunca fora perdido,
Pois ao longo da viagem... já vinha comigo.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Um poema
Um sentimento fechado
Mais vontade de o abrir.
Poema nasce trancado
O lápis o faz sair
Espelho de alma, um dilema
Mais rima para coração ouvir
Assim se faz um poema.
Mais vontade de o abrir.
Poema nasce trancado
O lápis o faz sair
Espelho de alma, um dilema
Mais rima para coração ouvir
Assim se faz um poema.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Eu
Não sei quem sou. Quem me vê na rua e me conhece só a cara, tem dificuldade em chamar-me poeta, ou escritor, ou lá o que se chama a quem escreve o que eu escrevo. Sou o Diogo, esse sou eu, mas serei eu inteiro? Aqui, nestes campos, assino Diogo Pintas. Não é o meu verdadeiro nome, mas gosto de acreditar que é o meu verdadeiro eu. Mas será? Sou só Diogo, serei Diogo Pintas, serei os dois? E sendo os dois, são misturados, são separados, complementam-se ou são antagónicos? Não sei quem sou. Parecemos dois diferentes, mas os dedos que aqui são extensão de alma são os mesmos que, lá fora, apertam mãos. Aqui comprimento, lá fora cumprimento. Acho que me sinto melhor aqui; porém, também lá fora sou feliz! A verdade é que aqui posso ser quem quero. Muito do que escrevo é pura criação artística. Exemplo? Nunca tive um amor platónico, e talvez o poema anterior o possa fazer adivinhar. Aqui, extendo-me, expando-me, estico-me, anseio e tento uma plenitude que nunca será plena mas será sempre o máximo que posso. Lá fora sou um, mas será o que as pessoas chamarão do eu real. Não quero ser esse, mas também sei que não sou estes. Não sei quem sou.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Do amor platónico
Não me digas que me amas!
Di-lo com os lábios da alma
E com a boca do teu olhar.
Não te quero ouvir falar...
Só te quero ouvir sentir.
Sem te ver ver-te sorrir
Saber que és minha
Ao dar-te a mão.
Não, não quero dedos;
Quero que me dês, sem medos
As mãos... do teu coração.
Pensa em mim, não me conheças
Só quero que me aqueças
Nos tempos de grande frio
Não com beijos de carne dados
Mas aqueles só recordados
De um tempo que não existiu.
Di-lo com os lábios da alma
E com a boca do teu olhar.
Não te quero ouvir falar...
Só te quero ouvir sentir.
Sem te ver ver-te sorrir
Saber que és minha
Ao dar-te a mão.
Não, não quero dedos;
Quero que me dês, sem medos
As mãos... do teu coração.
Pensa em mim, não me conheças
Só quero que me aqueças
Nos tempos de grande frio
Não com beijos de carne dados
Mas aqueles só recordados
De um tempo que não existiu.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Choro a dois
Apetece-me andar à chuva
Uma poesia nada aparente
Estar frio mas sentir quente
Como se bebera néctar de uva.
Chorar sozinho, a andar
E ter um disfarce da natureza
Nada saber e ter certeza
Nem do que sou, nem onde vou chegar.
Cada gota ser um beijo
Directo ao meu coração
Perder dele a razão
Sentir, é o que desejo.
Uma poesia nada aparente
Estar frio mas sentir quente
Como se bebera néctar de uva.
Chorar sozinho, a andar
E ter um disfarce da natureza
Nada saber e ter certeza
Nem do que sou, nem onde vou chegar.
Cada gota ser um beijo
Directo ao meu coração
Perder dele a razão
Sentir, é o que desejo.
A minha prenda
O meu trenó é a poesia
As renas são o teu sorriso
Não voo, não por falta de magia
Mas, por ter a tua companhia
Aqui, tenho tudo o que é preciso.
As renas são o teu sorriso
Não voo, não por falta de magia
Mas, por ter a tua companhia
Aqui, tenho tudo o que é preciso.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Cores
Nos meus anos ofereceram-me muitas coisas. A mamã ofereceu-me duas camisolas e umas calças, muito giras; o papá ofereceu-me um jogo novo para a consola, que eu já lhe andava a pedir à muito tempo!; os avós, para além de um maravilhoso bolo de aniversário, deram-me umas meias e um cachecol para o Inverno; os tios deram-me dinheiro e a minha irmã mais velha um CD de música. Foram todos presentes muito bons... menos o do Padrinho. Deu-me, às escondidas (com certeza com vergonha da prenda), um lápis de carvão, que nem se pode dizer que fosse um lápis muito bonito. Quando mo deu, disse que era um lápis especial... eu posso ainda ser pequenino, mas não me deixo
enganar assim; mas não me importei, afinal tinha tido muitos presentes, muito bons.
Chovera a noite toda; de manhã, quando acordei, a terra estava molhada, as nuvens continuavam cinzentas e um Sol tímido ia espreitando por entre elas, mas mal ganhava um pouco mais de coragem, era logo tapado. Ao pé de minha casa havia um sítio que eu gostava imenso; era uma espécie de colina, não muito alta mas que dava uma imagem linda do céu, totalmente livre de prédios e antenas e telhados e essas coisas dos homens que só estragam paisagens. Tinha lá também um pequeno parque infantil com baloiços, onde muitas vezes me sentava a olhar aquela bonita imagem. Pedi à mãe para ir para lá e, como era mesmo muito perto, a mãe deixou, como aliás costuma deixar sempre. Da janela da cozinha até podia ir-me vendo, por isso, nunca houve problema. Fui para lá então, sentar-me no meu baloiço; quando me sentei, senti uma coisa bicuda no bolso e fui ver o que seria... era o lápis do Padrinho! Não me lembrava de o ter posto no bolso, mas na verdade não me lembrava do que realmente lhe tinha feito. Fiquei com ele na mão, também era má-educação deitá-lo fora, apesar de ter mil e quinhentos lápis de carvão. Olhei para o meu céu. Nuvens imensas pairavam no ar, tão grandes e pesadas que me admirei como não caíam ao chão e se mantinham lá em cima, a voar. Eu sou bem mais pequenino e nunca consegui... Cada uma dessas enormes nuvens era de um cinzento muito escuro, curiosamente da cor do meu lápis de carvão. Quando olhei para ele para fazer esta comparação, não quis acreditar nos meus olhos! O lápis tinha-se transformado num lápis de cera branco.
Sem saber se devia ficar assustado ou admirado ou contente, fiquem a olhar para ele. Virei-o, aproximei-o dos olhos, afastei-o, bati com ele nos ferros do baloiço, até o trinquei; era real e era mesmo branco, um branco de uma pureza que eu nunca tinha visto. Sem saber bem o que esperar ao fazer aquilo, comecei a agitá-lo no ar. E atrás dele vinha um feixe de luz! Parecia uma varinha mágica. Baixei-o o tornei a olhar para ele atentamente. Na minha cabeça fervilhavam emoções e sei lá mais o quê, não sabia mesmo o que se estaria ali a passar. Quando olhei para o céu novamente, vi algo muito estranho: uma enorme nuvem, que há pouco tinha parado ali mesmo em frente, suspensa, tinha uns riscos brancos esquisitos, sem ordem. Olhei para o lápis, e de novo para a nuvem. Experimentei de novo uns movimentos no ar, e confirmou-se: eu podia pintar a nuvem com o meu lápis. Não quis saber de mais nada, nem se seria um sonho, nada. Pus-me a pintar toda a nuvem, que num instante deixou de ser cinzenta e feia para passar a ser um imenso quadro do branco mais branco que já existiu. Sentei-me no baloiço e olhei para o meu lápis mágico e para a brancura da nuvem. Fixei de novo o lápis e, nova surpresa: tinha-se tornado verde.
Com o meu lápis mágico pintei então planícies e colinas, tudo no meu imenso papel branco, a minha nuvem. Era uma relva fresca, muito bonita. Depois o meu lápis ficou azul, e dentro da nuvem pintei o céu, limpo, um céu de Verão. Ainda com o azul do meu lápis pintei um enorme rio que nascia lá ao longe no horizonte vinha dar a um lago muito grande, onde depois, com o rosa que veio a seguir, pintei flores na sua margem e borboletas enormes que mais pareciam fadas! Quanto mais depressa eu desenhava mais rapidamente o meu lápis mudava de cor. Logo a seguir ao rosa veio o castanho, e eu pintei barquinhos no meu lago. Logo depois ficou amarelo! E eu desenhei um enorme e quente Sol, cuja luz saiu do meu quadro e iluminou tudo o que era possível ao meu olhar alcançar. Pintei tudo, tudo. O meu lápis mágico deu-me cores que eu nem sabia existir, e com elas pude pintar mais do que alguma vez algum menino poderá pintar numa folha de papel: desenhei a felicidade, a alegria, a esperança, desenhei o amor. Por momentos, senti-me um pouco triste porque percebi que daí a nada acabaria o desenho e mesmo eu não poderia ficar ali para sempre. Então, peguei no meu lápis e desenhei-me, no cimo de uma pequena colina, e com o meu lápis desenhei o meu lápis, na minha mão. Nessa altura, o lápis tornou-se cor de fogo, e pintei um coração no peito do eu desenhado.
Ele ganhou vida, e logo desatou a abanar o lápis no ar, mas aquele lápis desenhado não tinha cor. Soube o que tinha que fazer: criei uma enorme ponte de corda até à minha nuvem e, uma vez ao lado do meu boneco vivo, dei-lhe, em mãos, o meu lápis mágico. Eu olhei para mim e sorri. À minha volta o meu quadro ganhara vida e eu já não sabia o que era real ou não. Já nem sabia quem era o verdadeiro eu. A verdade é que isso não importa muito; a realidade é muitas vezes uma coisa cinzenta, mas se tivermos na mão um pedaço de magia e imaginação, tudo pode ser transformado. Quando percebi isto, sorri novamente; e no ar surgiu um imenso arco-íris, que nascia em lado nenhum e terminava muito para lá do que será alguma vez descoberto.
enganar assim; mas não me importei, afinal tinha tido muitos presentes, muito bons.
Chovera a noite toda; de manhã, quando acordei, a terra estava molhada, as nuvens continuavam cinzentas e um Sol tímido ia espreitando por entre elas, mas mal ganhava um pouco mais de coragem, era logo tapado. Ao pé de minha casa havia um sítio que eu gostava imenso; era uma espécie de colina, não muito alta mas que dava uma imagem linda do céu, totalmente livre de prédios e antenas e telhados e essas coisas dos homens que só estragam paisagens. Tinha lá também um pequeno parque infantil com baloiços, onde muitas vezes me sentava a olhar aquela bonita imagem. Pedi à mãe para ir para lá e, como era mesmo muito perto, a mãe deixou, como aliás costuma deixar sempre. Da janela da cozinha até podia ir-me vendo, por isso, nunca houve problema. Fui para lá então, sentar-me no meu baloiço; quando me sentei, senti uma coisa bicuda no bolso e fui ver o que seria... era o lápis do Padrinho! Não me lembrava de o ter posto no bolso, mas na verdade não me lembrava do que realmente lhe tinha feito. Fiquei com ele na mão, também era má-educação deitá-lo fora, apesar de ter mil e quinhentos lápis de carvão. Olhei para o meu céu. Nuvens imensas pairavam no ar, tão grandes e pesadas que me admirei como não caíam ao chão e se mantinham lá em cima, a voar. Eu sou bem mais pequenino e nunca consegui... Cada uma dessas enormes nuvens era de um cinzento muito escuro, curiosamente da cor do meu lápis de carvão. Quando olhei para ele para fazer esta comparação, não quis acreditar nos meus olhos! O lápis tinha-se transformado num lápis de cera branco.
Sem saber se devia ficar assustado ou admirado ou contente, fiquem a olhar para ele. Virei-o, aproximei-o dos olhos, afastei-o, bati com ele nos ferros do baloiço, até o trinquei; era real e era mesmo branco, um branco de uma pureza que eu nunca tinha visto. Sem saber bem o que esperar ao fazer aquilo, comecei a agitá-lo no ar. E atrás dele vinha um feixe de luz! Parecia uma varinha mágica. Baixei-o o tornei a olhar para ele atentamente. Na minha cabeça fervilhavam emoções e sei lá mais o quê, não sabia mesmo o que se estaria ali a passar. Quando olhei para o céu novamente, vi algo muito estranho: uma enorme nuvem, que há pouco tinha parado ali mesmo em frente, suspensa, tinha uns riscos brancos esquisitos, sem ordem. Olhei para o lápis, e de novo para a nuvem. Experimentei de novo uns movimentos no ar, e confirmou-se: eu podia pintar a nuvem com o meu lápis. Não quis saber de mais nada, nem se seria um sonho, nada. Pus-me a pintar toda a nuvem, que num instante deixou de ser cinzenta e feia para passar a ser um imenso quadro do branco mais branco que já existiu. Sentei-me no baloiço e olhei para o meu lápis mágico e para a brancura da nuvem. Fixei de novo o lápis e, nova surpresa: tinha-se tornado verde.
Com o meu lápis mágico pintei então planícies e colinas, tudo no meu imenso papel branco, a minha nuvem. Era uma relva fresca, muito bonita. Depois o meu lápis ficou azul, e dentro da nuvem pintei o céu, limpo, um céu de Verão. Ainda com o azul do meu lápis pintei um enorme rio que nascia lá ao longe no horizonte vinha dar a um lago muito grande, onde depois, com o rosa que veio a seguir, pintei flores na sua margem e borboletas enormes que mais pareciam fadas! Quanto mais depressa eu desenhava mais rapidamente o meu lápis mudava de cor. Logo a seguir ao rosa veio o castanho, e eu pintei barquinhos no meu lago. Logo depois ficou amarelo! E eu desenhei um enorme e quente Sol, cuja luz saiu do meu quadro e iluminou tudo o que era possível ao meu olhar alcançar. Pintei tudo, tudo. O meu lápis mágico deu-me cores que eu nem sabia existir, e com elas pude pintar mais do que alguma vez algum menino poderá pintar numa folha de papel: desenhei a felicidade, a alegria, a esperança, desenhei o amor. Por momentos, senti-me um pouco triste porque percebi que daí a nada acabaria o desenho e mesmo eu não poderia ficar ali para sempre. Então, peguei no meu lápis e desenhei-me, no cimo de uma pequena colina, e com o meu lápis desenhei o meu lápis, na minha mão. Nessa altura, o lápis tornou-se cor de fogo, e pintei um coração no peito do eu desenhado.
Ele ganhou vida, e logo desatou a abanar o lápis no ar, mas aquele lápis desenhado não tinha cor. Soube o que tinha que fazer: criei uma enorme ponte de corda até à minha nuvem e, uma vez ao lado do meu boneco vivo, dei-lhe, em mãos, o meu lápis mágico. Eu olhei para mim e sorri. À minha volta o meu quadro ganhara vida e eu já não sabia o que era real ou não. Já nem sabia quem era o verdadeiro eu. A verdade é que isso não importa muito; a realidade é muitas vezes uma coisa cinzenta, mas se tivermos na mão um pedaço de magia e imaginação, tudo pode ser transformado. Quando percebi isto, sorri novamente; e no ar surgiu um imenso arco-íris, que nascia em lado nenhum e terminava muito para lá do que será alguma vez descoberto.
Bolo-Rei
O brinde de um bolo-rei é exactamente como o amor. Sem ele, não corremos o risco de nos magoar, mas a verdade é que o todo deixa de ter piada.
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