Há momentos em que apetece assentar. Memórias passadas assaltam a lembrança disfarçadas de confortáveis e lutam contra aquilo que sei que, por agora, é o que posso e quero viver. Há momentos em que o frenesim artístico rodopia à minha frente e eu, sentado, mal consigo abrir os olhos para o observar, quando habitualmente estou meio no centro dele. Quando nestas alturas me deixo adormecer, sinto o sonho cortado e preso por grilhões de diamante e tenho que deles me libertar logo. Felizmente, ainda só depende de mim. Mas hoje, nem me vou deixar adormecer. Nem hoje nem amanhã. Adormecer e descansar para logo depois ter que ir entrar de novo no tal tornado é demasiado cansativo para um preguiçoso por excelência. Se as consequências só se conjugassem na primeira pessoa, ainda ensaiaria essa atitude mais vezes. Mas não. E só depender de mim torna-o numa responsabilidade muito, muito grande. Demasiado grande. Talvez demais para mim. Ainda assim, tomo o fardo daquilo que sou e, sofrendo com isso, evito sair da liberdade total, nem me deixar adormecer.
Mas custa, mesmo. Gostava de poder adormecer sobre o peito de alguém, protegido como só um bebé sabe que está, e sonhar, sonhar, sonhar, descansar sem a inquietude de quem já conheceu o o furacão poético e dele não se quer afastar. É uma liberdade que aprisiona, o que quer que isto signifique. Também por isto este meu blog se chama assim. Não sei mesmo que nome dar a isto. Não é descritível, só o será quando um texto for uma prancha e qualquer paciente leitor salte dela directamente para o meu eu. Mas escrita criativa é isto; ir tentando.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Transcendências
Acho muito curiosos aqueles momentos vulgarmente conhecidos como "déjà-vus". Ninguém consegue saber ao certo o que são, porque acontecem, de onde surgem. Li num qualquer sítio que não passa de um momento em que o cérebro não assimila imediatamente aquilo que vê, originando de seguida a sensação de já termos vivido a presente cena. Como muitas das coisas das ciências, não passa de balelas, bem rídiculas. É algo mais, tem que ser. Pessoalmente, quando tenho um déjà-vu sinto que estou a repetir uma situação de um passado que já vivi mas não me recordo totalmente. Uma recordação que assalta a mente sem ter aquilo que as recordações exigem, um pretérito. Pergunto-me que vivência terá sido essa e, mais que tudo, se será coincidência estar a repetir tantas situações. Estarei a repetir os mesmos erros, ou as mesmas atitudes correctas? A minha vida já está traçada? Impossível. Se agora escrevo isto, é porque quero. De qualquer modo, são paranormalidades destas que me fazem sorrir e saber que a vida não é algo de concreto e absoluto, existem variações e mistérios e tudo aquilo que somos não está preso a um espaço e tempo. Há algo mais. Se não houvesse, não era vida, nem valia a pena ser.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Tudo
Se amada poesia
É tão corpórea quanto lembrança,
Pergunto: quando morrer
Que poderei deixar em herança?
É tão corpórea quanto lembrança,
Pergunto: quando morrer
Que poderei deixar em herança?
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
O adeus
Temos imensa pena. Fizemos tudo o que podíamos, mas neste momento, apenas as máquinas prendem a sua bebé à vida. Teremos que as desligar, é demasiado pequenina, é certo que sobreviveria algumas semanas mas nestas condições nunca se desenvolveria de modo a combater a infecção. Foi bom que o senhor tenha tido possibilidade de instalar aqui em sua casa a incubadora, terão sido mesmo aqui as últimas horas da sua filha. É provável que depois de desligados os aparelhos sobreviva duas a três horas, com sorte. Deixo-vos a sós, os meus sinceros sentimentos...
A médica especialmente contratada para acompanhar as derradeiras horas da pequena Leonor afastou-se. O casal estava em estado de choque; ainda que fosse aquele o cenário mais provável e mais antecipado, a esperança, por mais que leve, estava lá e agora queimava. A mulher sentou-se e, como que hipnotizada, fitava o vazio. Talvez vislumbrasse todos os anos que Leonor não cresceria, o primeiro dia de aulas que não teria, o primeiro inocente amor que não viveria, as mil profissões que não escolheria, o primeiro animal que nunca teria, tudo, tudo aquilo que pinta a vida de uma menina que nada fez para merecer o destino que tivera. Só Deus tem os que mais ama. O pai, esse, exteriormente mais forte, aproximou-se da incubadora e, sem chorar, olhou para a sua filha. A pequena bebé respirava com dificuldade, já após lhe ter sido visto cortado o único fio que a ligava a vida. Era pequeníssima, indefesa: havia nascido prematuramente, com 7 meses, e a sua fragilidade levou a que contraísse uma grave doença pulmonar. Após saber o provável destino da pequena, o pai, homem bastante rico, fizera questão de instalar no quarto que viria a ser de Leonor uma pequena unidade de cuidados intensivos, para a qual contratara também uma equipa altamente prestigiada em casos daquele foro. Sentia-se injustiçado, revoltado; a filha nunca conheceria o mundo que, por muito que de negativo pudesse ter, era belo.
De repente, uma ideia assaltou-lhe o espírito; olhou em redor, verificando que o quarto estava vazio. Alguns médicos retiraram-se, três estavam a prestar cuidados à esposa. A doutora chefe preenchia distraída uns papéis. Pegou então numa peça de roupa de bebé de corpo inteiro, abriu a máquina silenciosamente e, com um carinho e afecto que só um pai ou mãe têm, vestiu a sua menina. Calçou-lhe também umas botinhas cor-de-rosa e enrolou-a numa manta quente. Escrevinhou um bilhete à pressa, que colocou onde momentos antes estivera a bebé, para quando dessem pela ausência de ambos. E saiu, sorrateiramente, talvez louco, talvez não.
Dentro de vinte minutos estava na praia com Leonor. A bebé respirava com igual dificuldade, mas incrivelmente não chorava; faltariam-lhe forças, ou saberia a inevitabilidade do que a esperava. O pai percorreu a praia e, perto das rochas onde o mar batia furiosamente, sentou-se. Estava maré cheia.
A médica especialmente contratada para acompanhar as derradeiras horas da pequena Leonor afastou-se. O casal estava em estado de choque; ainda que fosse aquele o cenário mais provável e mais antecipado, a esperança, por mais que leve, estava lá e agora queimava. A mulher sentou-se e, como que hipnotizada, fitava o vazio. Talvez vislumbrasse todos os anos que Leonor não cresceria, o primeiro dia de aulas que não teria, o primeiro inocente amor que não viveria, as mil profissões que não escolheria, o primeiro animal que nunca teria, tudo, tudo aquilo que pinta a vida de uma menina que nada fez para merecer o destino que tivera. Só Deus tem os que mais ama. O pai, esse, exteriormente mais forte, aproximou-se da incubadora e, sem chorar, olhou para a sua filha. A pequena bebé respirava com dificuldade, já após lhe ter sido visto cortado o único fio que a ligava a vida. Era pequeníssima, indefesa: havia nascido prematuramente, com 7 meses, e a sua fragilidade levou a que contraísse uma grave doença pulmonar. Após saber o provável destino da pequena, o pai, homem bastante rico, fizera questão de instalar no quarto que viria a ser de Leonor uma pequena unidade de cuidados intensivos, para a qual contratara também uma equipa altamente prestigiada em casos daquele foro. Sentia-se injustiçado, revoltado; a filha nunca conheceria o mundo que, por muito que de negativo pudesse ter, era belo.
De repente, uma ideia assaltou-lhe o espírito; olhou em redor, verificando que o quarto estava vazio. Alguns médicos retiraram-se, três estavam a prestar cuidados à esposa. A doutora chefe preenchia distraída uns papéis. Pegou então numa peça de roupa de bebé de corpo inteiro, abriu a máquina silenciosamente e, com um carinho e afecto que só um pai ou mãe têm, vestiu a sua menina. Calçou-lhe também umas botinhas cor-de-rosa e enrolou-a numa manta quente. Escrevinhou um bilhete à pressa, que colocou onde momentos antes estivera a bebé, para quando dessem pela ausência de ambos. E saiu, sorrateiramente, talvez louco, talvez não.
Dentro de vinte minutos estava na praia com Leonor. A bebé respirava com igual dificuldade, mas incrivelmente não chorava; faltariam-lhe forças, ou saberia a inevitabilidade do que a esperava. O pai percorreu a praia e, perto das rochas onde o mar batia furiosamente, sentou-se. Estava maré cheia.
Vês, filha? É o mar. Aqui para nós, é o elemento mais belo, nunca duvides. Um dia já o tememos, até que fomos suficientemente corajosos para o conquistar. É bonito, não é? Dentro dele vivem peixes. Uns grandes, outros pequenos. Também há lá algas; as flores do mar. E há sereias filha. Sereias são uns seres que são metade peixe e metade mulher. Cantam extremamente bem, e são quase tão belas quanto tu. Acima, azul, é o céu, Leonor. É ele que dá cor ao mar. Aquele risco lá longe é o horizonte, o ponto distante onde os dois se tocam. Se calhar vais para lá amor, não sei. Aquilo? Aquilo é o Sol princesa. Não olhes tão directamente, faz mal. O Sol é o que dá vida a toda a Terra. A Terra é onde nós vivemos doce. É um lugar majestoso. Há muitos sítios diferentes; há florestas com fadas e duendes, desertos com oásis e tesouros enterrados, pântanos com torres onde princesas aguardam o salvamento pelo seu príncipe encantado, que antes mata o dragão. Dragão é um lagarto enorme com asas que cospe fogo. Não tenhas medo, nunca te fará mal. Nada te fará mal amor, nunca permitiria. Sabes, filha, neste planeta, há muitos animais. Há girafas e macacos e leões e cavalos. E também há borboletas, que são fadas sem varinha mas que espalham magia, e se vestem de flor, e as flores são os enfeites da Terra. Aqui na praia não há flores Leonor, mas há a música do mar. E o cheiro a maresia. Aqui há poesia querida. Poesia é tudo aquilo que tu sentes ao ver, ou vês ao sentir. É complicado porque estou a tentar explicar, poesia não se explica, vive-se, sente-se, é-se. Tu és poesia amor. Ah, sim, e amor é a coisa mais bela que existe neste planeta, na Terra. Amor é o melhor amigo da poesia. Amor é um sentimento, e também é díficil de descrever. Amor é gostar muito de uma coisa ou de alguém; por exemplo, olha ali ao fundo. O mar e o céu amam-se. Amam-se tanto que não se importam de estar longe um do outro. O céu dá cor ao mar, e o mar dá-lhe música e pinta-lhe um quadro muito bonito. E amam-se tanto que não se importam de esperar. No fundo, sabem que lá ao longe, no horizonte infinito, se hão-de encontrar. Amor é também o que os Homens cá da Terra sentem uns pelos outros. Sim, todos sentem. Alguns não sabem, mas descobrem mais tarde ou mais cedo. Sem excepção. Este planeta nem se devia chamar Terra, devia chamar-se Amor. Eu amo o mundo, sabes Leonor? E sabes, tu és o meu mundo. Não te conheço, mas sei a tua cor preferida, sei que música mais gostas, sei que cor de cabelos vais ter. Sei tudo sobre ti. Porque te amo. Olho no fundo desses teus olhos e vejo-te e vejo-me e vejo a mamã também. Sei que também nos amas minha flor. Agora, tu vais partir, vais fazer uma viagem muito divertida. O papá e a mamã não podem ainda ir, mas irão ter contigo. Sim, no Paraíso, que é um sítio ainda melhor que cá a Terra. Nunca te esqueças, filha. O papá ama-te. Adeus amor.
Estas últimas palavras já foram acompanhadas de grossas lágrimas. A pequena bebé parecera por uma fracção de segundo sorrir e suspendera a respiração, quente, nos braços do pai. Morrera, e talvez a sua alma nunca tivera tão viva.
Estas últimas palavras já foram acompanhadas de grossas lágrimas. A pequena bebé parecera por uma fracção de segundo sorrir e suspendera a respiração, quente, nos braços do pai. Morrera, e talvez a sua alma nunca tivera tão viva.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Neolomentos
Ainda bem que nasci com algum jeito para a escrita, em vez de nascer mais virado para a cantoria. É que voz só há uma, e dedos, tenho-os dez. Para além disso, podemos ocasionalmente ficar afónicos. Dedónicos nunca. Por alguma razão a palavra nem sequer existe. Engraçado, isto; tudo o que existe, ou já foi pelo menos imaginado, tem uma palavra, um representante neste mundo das letras. Surge uma coisa nova, automaticamente há palavra nova. E no fundo de isto tudo, deixo dois desejos, o segundo muito relacionado com o primeiro: o de querer saber coisas inapalavradas e não lhes encontrar descrição, e que se faça justiça para aquelas cujas palavras encontradas são demasiado curtas e redutoras. Vá lá, amor só com quatro letras? Poesia, cinco? Paixão, seis? Que sejam sentidas, porque só descritas, são muito pobres.
Peter Pan
Se eu fosse alquimista, não procuraria pedra filosofal que transformasse vil metal em ouro, mas sim um mapa que me indicasse a Terra do Nunca. E queria ter a minha fada apaixonada, a minha juventude eterna, o meu eterno inimigo. E quanto a sombras, só as queria a mim cosidas pelo amor da minha vida.
Nascente
Árvore vive eterna
Despe-se ao frio
E reveste-se ao Sol queimante
E fita comovida o vazio
Como no Padrão o Infante.
Dá frutos e é roubada
Fazem dela papel que riscam
E desenham e poetizam
Aqueles que sob sua sombra
Têm varinha como de fada.
Árvore é alimento e inspiração
A fonte de poesia, imortal
Por ela morre e dá coração
Pedaço de madeira folha e paixão
Que só sabe a bem, não mal.
Despe-se ao frio
E reveste-se ao Sol queimante
E fita comovida o vazio
Como no Padrão o Infante.
Dá frutos e é roubada
Fazem dela papel que riscam
E desenham e poetizam
Aqueles que sob sua sombra
Têm varinha como de fada.
Árvore é alimento e inspiração
A fonte de poesia, imortal
Por ela morre e dá coração
Pedaço de madeira folha e paixão
Que só sabe a bem, não mal.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Ses
Por entre o vidro percebia-se o frio que fazia no exterior. A chuva caía implacável, sem olhar onde nem a quem. Molhava, era a sua função. E o frio congelava, contrastando com o calor do autocarro, tão confortável, diferença figurada no vapor que me saía da boca e embaciava a janela. Ia absorto nas minhas poesias de transporte enquanto ouvia a sempre fiel e vadia música quando o veículo deu um pequeno solavanco, chiou baixinho e parou. Desviei o olhar da rua e fixei-o na porta, interessado nas pessoas que vinham a entrar. Não que esperasse ver alguém conhecido; não, simplesmente sempre me deleitei com o tão variado tipo de pessoas que se vê num qualquer transporte, e por mais que utilizemos sempre o mesmo, à mesma hora, são sempre diferentes. Hoje, uma senhora idosa entrara primeiro, depois de agradecer ao jovem que a deixara passar. Depois do rapaz, entrou um sujeito gordo, de barba rala, extremamente molhado. De seguida uma senhora de meia-idade e
o Paraíso. Sim, é o Paraíso. É, tenho a certeza. O autocarro pareceu arrancar a toda a velocidade enquanto permanecera parado, o quente do veículo tornara-se frio e todas as gotinhas de chuva lá fora pareciam convites irrecusáveis a passeios e corridas e sorrisos. Entrara uma rapariga, completamente encharcada, completamente majestosa. No intervalo que corresponde ao espaço em branco acima, ela entrou e sentou-se de maneira a que os olhos verdes continuavam na minha direcção, vindos do meio do céu, ou seja, dos cabelos molhados que trazia colados à cabeça. Entretanto, o senhor gordo abeirou-se de mim e pediu licença para ocupar um lugar cujo acesso eu estava a impedir, ao que eu tentei balbuciar um com certeza, que se revelou pouco mais que um pedaço de saliva que foi cair no colo. Tentei limpá-lo com a manga do casaco, mas apenas consegui fazer embater o cotovelo no banco da frente; tudo parecia confuso e absurdo, mas quando levantei o olhar e a contemplei, tudo fez sentido e era belo e felicidade. O coração parecia querer sair e ir deambular algures, preso por um peito que de tão esforçado já queimava. A minha paragem passou, mas as pernas decerto tinham ido dar o passeio que o coração desejava, pelo que ali figuei. Passaram-se cerca de dez minutos (podem ter sido dez segundos ou dez horas, não sei) e ela levantou-se. Quis seguir aquela rainha, aquela princesa, aquele bocadinho de alegria e Sol no meio de um dia tão triste e frio. Mas as pernas não tinham voltado ainda. Com elas tinham ido a coragem e o atrevimento e eu e tudo. Ela saiu, e eu fiquei. Nunca mais a vi.
E se eu tivesse ido atrás dela?
o Paraíso. Sim, é o Paraíso. É, tenho a certeza. O autocarro pareceu arrancar a toda a velocidade enquanto permanecera parado, o quente do veículo tornara-se frio e todas as gotinhas de chuva lá fora pareciam convites irrecusáveis a passeios e corridas e sorrisos. Entrara uma rapariga, completamente encharcada, completamente majestosa. No intervalo que corresponde ao espaço em branco acima, ela entrou e sentou-se de maneira a que os olhos verdes continuavam na minha direcção, vindos do meio do céu, ou seja, dos cabelos molhados que trazia colados à cabeça. Entretanto, o senhor gordo abeirou-se de mim e pediu licença para ocupar um lugar cujo acesso eu estava a impedir, ao que eu tentei balbuciar um com certeza, que se revelou pouco mais que um pedaço de saliva que foi cair no colo. Tentei limpá-lo com a manga do casaco, mas apenas consegui fazer embater o cotovelo no banco da frente; tudo parecia confuso e absurdo, mas quando levantei o olhar e a contemplei, tudo fez sentido e era belo e felicidade. O coração parecia querer sair e ir deambular algures, preso por um peito que de tão esforçado já queimava. A minha paragem passou, mas as pernas decerto tinham ido dar o passeio que o coração desejava, pelo que ali figuei. Passaram-se cerca de dez minutos (podem ter sido dez segundos ou dez horas, não sei) e ela levantou-se. Quis seguir aquela rainha, aquela princesa, aquele bocadinho de alegria e Sol no meio de um dia tão triste e frio. Mas as pernas não tinham voltado ainda. Com elas tinham ido a coragem e o atrevimento e eu e tudo. Ela saiu, e eu fiquei. Nunca mais a vi.
E se eu tivesse ido atrás dela?
Uno
A vida é bela, delisciosa, cheirosa. Dificuldades? Até o mais belo arco-íris é feito de Sol e Chuva.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Cascata
Tenho saudades do presente. Do passado não vale a pena, já lá vai. O presente é que me é agora e sei que não o viverei como é devido, logo tenho saudades daquilo que não faço e podia fazer. Nunca é tarde, mas quando dou conta, já o é. Agarrem esse relógio, que é ladrão.
Colectivo
Uma rosa só, é rosa
Muitas formam roseiral
Muitos sorrisos são prosa
Um só é poesia, especial.
Muitas formam roseiral
Muitos sorrisos são prosa
Um só é poesia, especial.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Devaneio
Sou rei e dono do que me é
Sou poeta e chaves de mundo tenho
Posso quero e faço e tenho fé
Que barco faço de podre lenho.
E regras são como espelho
E água e barro e massa
Não há infância em que não pinte velho
Não desastre que feliz não faça.
Sou livre e sou o ar!
Rima sem métrica nem folha e linha.
Sou poeta e chaves de mundo tenho
Posso quero e faço e tenho fé
Que barco faço de podre lenho.
E regras são como espelho
E água e barro e massa
Não há infância em que não pinte velho
Não desastre que feliz não faça.
Sou livre e sou o ar!
Rima sem métrica nem folha e linha.
Trago ao meio (tão bom quebrar)
Nem rei na Média tão grande poder tinha.
Poesia louco e apaixonado
E tudo isto
Num quarto.
Fechado.
E tudo isto
Num quarto.
Fechado.
Nozes
Se for aberta a portinhola de uma gaiola, logo o pássaro que lá estiver sai a voar, livre, feliz como nunca fora em cativeiro. Nós não temos gaiolas, temos asas mais fortes que as de um frágil passarinho e nunca saímos do mesmo sítio.
Getsemani
A agonia invade quem é de amor sinónimo, um grito silencioso de ajuda que sabe não poder vir, para que a paixão vença intemporalmente uma guerra que trava entre si e sua ausência, pois amor é gravura e escultura e pintura e ódio é traço de giz, que cruz apaga.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Grito
Para onde vamos? Que se passa?
Houve um tempo em que a Terra era toda unida, e o mar era um uno e vasto oceano.
O Universo, hoje, constantemente afasta-se do centro que já foi.
Mas isso é a Lei da Natureza.
Mas, os Homens?
Porque se afastam? Que força os move?
Quando toda a Humanidade for sinónimo de Amor, quando o ódio não passar de uma palavra arcaica para algo que já nem se sabe o que é, quando o Homem quiser, então, a teoria do expansionismo do Universo será uma anedota e os planisférios terão que ser radicalmente modificados.
Parece díficil. E é.
Se não fosse, já teria acontecido.
E nunca tinha a mesma piada, algo fundamental.
Porque rir é a chave.
Abram portas!
Houve um tempo em que a Terra era toda unida, e o mar era um uno e vasto oceano.
O Universo, hoje, constantemente afasta-se do centro que já foi.
Mas isso é a Lei da Natureza.
Mas, os Homens?
Porque se afastam? Que força os move?
Quando toda a Humanidade for sinónimo de Amor, quando o ódio não passar de uma palavra arcaica para algo que já nem se sabe o que é, quando o Homem quiser, então, a teoria do expansionismo do Universo será uma anedota e os planisférios terão que ser radicalmente modificados.
Parece díficil. E é.
Se não fosse, já teria acontecido.
E nunca tinha a mesma piada, algo fundamental.
Porque rir é a chave.
Abram portas!
?
Sinto-o a afogar-me o coração, a transbordar-me da alma, a queimar-me a garganta. Formiga-me nos dedos, congela-mos mas fá-los mexer, frenéticos, apaixonados. Comove-me e dá-me lágrimas alegres, sorrisos tristes, choros felizes e gargalhadas melancólicas. É em mim paradoxo e antítese e metáfora e hipérbole. Pega nos meus sentidos físicos e molda-os como se foram barro e faz deles o que quer, faz-me ver azul e verde em preto e cheirar chuva sob sol radiante e saborear doce no que é amargo e sentir macio na dura rocha do oceano e ouvir música na voilência das ondas que nela batem. Invade-me e faz-me mover, é em mim fim e príncipio e é a minha identidade. Sou eu.
Há quem lhe chame amor, há quem lhe chame poesia, há quem lhe chame paixão.
Eu, eu não sei que nome dar a isto.
Há quem lhe chame amor, há quem lhe chame poesia, há quem lhe chame paixão.
Eu, eu não sei que nome dar a isto.
Terá nome?
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Canção de embalar
Está escuro mas é tudo belo e colorido, estás aqui comigo. Estamos os dois deitados, e, ainda que cegos, olho na direcção onde sei estar o teu rosto e deixo o meu coração acelerar com a eterna beleza que dele emana. Olha também para mim, olha-me e sente este momento. Não sei onde nem quando estamos, mas sei como estamos e não há mais nenhum lugar ou tempo ou modo em todo o mundo em que eu preferisse estar. Fica acordada, por favor, vamos eternizar este momento que por ser perfeito vai acabar, não o sendo, portanto. Fica acordada.
Eu, vou dormir.
Vou dormir porque afinal nem tudo é belo e quente e do fundo de uma qualquer luz celeste percebo que afinal não estás comigo, choro e percebo que a unica maneira de te ter é sonhar e por isso vou dormir só para te ter, por momentos que seja. E tenho a certeza que, no meu mundo, tu és presente.
Eu, vou dormir.
Vou dormir porque afinal nem tudo é belo e quente e do fundo de uma qualquer luz celeste percebo que afinal não estás comigo, choro e percebo que a unica maneira de te ter é sonhar e por isso vou dormir só para te ter, por momentos que seja. E tenho a certeza que, no meu mundo, tu és presente.
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