Fim. O veludo ondulante fecha-se no abrir das luzes. As batidas do meu peito ecoam nas palmas que suaves percorrem as madeiras, numa percussão harmoniosa. Abraço cada um com os meus olhos cerrados, dou-lhes cada sorriso e lágrima que brotam disto que se sente aqui. Deste alto tão alto, tão acima até dos corredores dos fantasmas. Deste tempo que não contei, em que apenas as minhas cordas vibraram pelo pinho e por entre as peles tão bem vestidas. Em vénia olho o chão, e sorrio; sei-me pequeno, e é assim que me delicio na ocasião de ser tão grande. Ao descer, sento-me lá ao fundo ao lado deles e vejo-me como eles, nunca para me aplaudir no fim mas tão somente para o ver de novo.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Ostra
As ostras e os astros,
De inícios e fins contrários,
Encontram semelhança no entretanto
De assim serem.
Enfeitam e prendam os azuis que escurecerem
Dando à ausência brilhos de tons primários.
Assim, por querer todos os astros dos céus,
Quero uma ostra.
Guardar as areias do meu fundo
No profundo mar,
Sereias e castelos com as mãos fecundo dos grãos seus.
A linha deste colar que coso
Não traz pérolas nem espera.
E se ouso navegar
É devagar.
Vela sem cera,
Chama de vento, sincera
Chama-me e leva-me
A arder.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Astrónomo
Amo a pequena estrela, não sabendo já cego desse amor se é somente estrela, se já morreu e é só luz, se é o Sol. Amo-a e já é o Sol e é cadente e por só a amar a ela é-me mil constelações desenhadas no peito que lhe dou, quadros da minha tinta mas da sua arte e inspiração. Sou para ela o céu, faz do que tenho breu azul e de azul fecundo o mar que em ondas sai de mim. Nascemos um e somos nascente desse oceano de signos e contos, pontos e continuações. Das linhas e beijos faço coroa, coroo-a rainha e eu sou rei. Legitimamos até o ar que se inspira, expiramos suspiros que podem ser brisas ou tornados, tornados nados assim, por nós. E do que damos por nos darmos nada esperamos senão tão só que o rio corra, espelho alegre do céu que nos deu à luz e que alumiamos.
domingo, 14 de junho de 2015
O mar
O mar olha para ti e chama-te pelo nome,
Ele o sabe e sabe quando precisas de o amar
E quanto.
Canta as baladas tanto ensaiadas no mar
De amores dos corações dos poetas
Como as marés que de paragens secretas
Vêm sempre e sempre certas.
Protege-te sem te tocar,
Dá-te a mão e colos doces
Quando só parece ter sal para dar.
Apaixona-te e tu ficas
Embalado, não queres ir
Porque se fosses
Far-te-ia falta o mar.
E ele diz-te que tu a ele
Que de nada serve tanta água
Se não ferve por uma mágoa
Ou celebra qualquer beijo.
São um,
Sentes o sangue ondas na praia.
És a corrente,
Maior que a gente
Que assim não caia
No voo
De se fazer ovo
No ninho azul.
E nascer de novo.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Alado
O pássaro canta para mim. Na sua poesia assobiada, sossega-me; pede-me que não tanto anseie voar como ele. Diz-me que também voo mas mais que isso caminho, e que nesse caminho abraço e dou a mão enquanto a ele tudo foge. Voam dele os amores e as cores ao longe são manchas até que poise, como eu, e até que a sua natureza num bater de asa o leve de novo ao céu. O leve de si. Chora-me paixões apontando-me as nuvens que só se vêem e mal são o que quer que seja, somente sonhos. Vai tecendo um canto que me embala e mostra que tenho o mundo na mão e a sua cara. Adormece-me, por fim, e faz-me sonhar, mostra-me que as minhas penas são beijos e eu voo na sua vez, rasgo os céus e amo-os, como nunca o pássaro poderá amar.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Bodas de Trigo
Da sua margem, a única que conhecia, o menino viu um fogo que ardia do outro lado. Estranhamente, não o temeu. Não agradeceu a protecção do rio, não se confortou com a segurança da sua margem. Apaixonou-se por ele. Quis tê-lo, havia nele uma luz e um calor que não se vê no Sol, que ilumina a todos. Aquele fogo ardia somente para o menino e era isso que o chamava. Pelo nome. Quanto mais o menino amava mais o fogo ardia, quanto mais o menino se chegava à berma da margem mais alto o fogo se punha. Arrebatado, o menino lançou uma ponte frágil, de madeira. Nela pôs tudo de si pois já nada era seu sem aquela chama, nada lhe pertencia senão fazer parte daquele fogo. Lançou a ponte pensando-se alfaite, almejando fazer de duas margens uma, sem abismos para o rio. Mas tudo o que o menino tinha para dar foi pouco. Tanto ardeu o fogo seu que aos poucos, parecendo troçar da ilusão, lhe queimou a ponte, obrigando-o regressar à sua margem. Não o matou, nem de queda nem de queima, porque este fogo não mata, só se esfuma como as promessas que traz consigo. Agora, na sua margem, o menino descansa à sombra da árvore sua, só sua, embalado pelo canto do pássaro seu, só seu. Já não há fogo nem ponte, só fogos e pontes nas nuvens lá do céu. Até que chova.
terça-feira, 7 de abril de 2015
O bêbedo
Ele conta os tempos da noite por goles de uma qualquer garrafa ou copo. Nessas horas, a sede é de trago que mais que a ela mate, cada um um degrau mais subindo a esse tapete que faz voar a mente e o pensamento. Bebe e dança, cambaleante, até tonto cair na pista de algodão e linho. Dorme. Afogado no veneno doce, a carne clama tão somente por água. Talvez se sinta morta e anseie pelo que dá vida. Todavia, ele dorme. E não acorda. Não o move aquela angústia como a fome pela bebida. E nessa dormência os sonhos ainda embriagados dão-lhe torneiras e poços frescos, e ele bebe, bebe, bebe. Cada trago traz aquele mágico momento em que a simples água nos sabe a tudo, como se não houvesse mais nesse mundo que nos pudesse saciar e saber tão bem. Mas o bêbedo, por mais que nos sonhos beba, não fica saciado. Na manhã - que ela o salvasse - o sonho prossegue nesse pesadelo. Ele aceita a dança e dança ao ritmo dos oásis miraginais, sempre marginais à sua roda. Pensa que chegará um dia, mas o dia não chega e dança até que não mais.
domingo, 29 de março de 2015
Não minhas, para mim
(...)
"Sabes, há muitos cépticos por aí dizendo que não existem almas gémeas, nem amor eterno. Eles não conhecem o amor. Sofreram com algo idêntico, mas não o conhecem. Aos poucos, tu mostras-me o que é amar alguém de corpo e alma, entregar o coração e cuidar cegamente sem limites. Fazes-me sentir que tenho uma vida inteira pela frente para cuidar e desfrutar. Não falo da minha, mas sim da nossa.
(...) disse que gostei de ti. Sim, usei o pretérito perfeito porque isso está bem lá no passado. Hoje, eu vivo-te, eu amo-te de uma forma que espero só eu fazer, é tão único e especial que eu não me importo de ser egoísta e querer todo este sentimento só para mim."
"Sabes, há muitos cépticos por aí dizendo que não existem almas gémeas, nem amor eterno. Eles não conhecem o amor. Sofreram com algo idêntico, mas não o conhecem. Aos poucos, tu mostras-me o que é amar alguém de corpo e alma, entregar o coração e cuidar cegamente sem limites. Fazes-me sentir que tenho uma vida inteira pela frente para cuidar e desfrutar. Não falo da minha, mas sim da nossa.
(...) disse que gostei de ti. Sim, usei o pretérito perfeito porque isso está bem lá no passado. Hoje, eu vivo-te, eu amo-te de uma forma que espero só eu fazer, é tão único e especial que eu não me importo de ser egoísta e querer todo este sentimento só para mim."
14/02/2013
sábado, 28 de março de 2015
Embalo
Leva-me o mar ao seu sabor, a maré não me ama nem me sabe mas sabe levar-me oh, e quero ir. Leva-me e eu vou, ondas fortes protectoras e assassinas, mas tão fortes, tão fortes que me deixam somente a escolha de escolher não querer saber, só querer aquela água que não sacia mas promete. Vem, vamos, sussurra-me horizontes e beija-me de luz, o dedo que se estende lá do alto. Do céu fazes-te, vestes-te de azul e espuma e pedes-me a mão dando-me asas. O mar assim me leva, baptiza-me Cícero e eu afogo-me no frio, vivo e quente, colo materno, terno, eterno.
terça-feira, 24 de março de 2015
Acordar
Naquele momento em que o sono e o real se confundem, em que sonhos enganam o despertar ou seduzem a mente frágil que repousa na almofada, senti-te. Sorri, de novo, num momento sem segundos em que mais que a cama me davas o conforto de ti. Aninhei-me e procurei-te com as minhas mãos quentes, sedentas de aquecer as tuas frias, mas nada achei. A tua presença tão ausente despertou-me como gelo, e as minhas mãos já nada aquecem senão a caneta com que te traço em mim. Onde? De onde vem esta promessa de ti que me mente e de mim faz troça? Da minha camisola veio um aroma, que ainda é teu. Ali estavas. Mas a lã não me beija como as linhas doces dos teus lábios.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
A fábula dos pequeninos
Era uma vez uma larva que seguia rastejando pelo seu mundo castanho. Podia ser uma estrada de terra ou um monte baldio, mas claro, a larva não o sabia. Não vê como nós. Mas esta larva em concreto, não vendo como nós, pensa. E sente. Podemos considerar esta uma larva especial. Logicamente, diria eu, pois se se tratasse de um comum insecto, não se escreveria sobre ele.
Reflectia constantemente a larva na sua triste vida. Sabia-se feia, pequenina, indefesa. Comia, rastejava, voltava a comer, sempre rastejando, temia a cada segundo os predadores que a ela queriam comer e era assim que desenhava a sua existência. Mas não era isso o que mais a preocupava, não, era o sentido. Porquê? Qual seria o fim daquele caminho tão cinzento, perdão, castanho? Tudo aquilo seria suportável se soubesse a que objectivo almejava. A verdade é que de cada vez que o Sol fazia sorrir as flores, a larva se encontrava de novo no seu calvário sem significado. Até essas flores invejava, imaginava-se como elas. Começam por ser frágeis, à mercê dos males do mundo, inibidas de movimento e de vontade, mas acabando por ser belas, por se destacar, por dar cor ao pano azul.
A nossa larva via outras, e nem essas a consolavam. Não podiam falar nem ouvir, porque a nossa e essas demais não falam nem ouvem. E do que observava, a larva só via mais razões para temer. As suas irmãs eram levadas por pássaros, pisadas por homens, umas. A maioria rastejava até desistir e fechar-se num caixão que elas mesmas faziam, preferindo o conforto da morte às inquietudes da vida. Sempre que uma irmã o fazia, a larva chorava, o que quer que isso signifique neste pequenino mundo. Seguia rapidamente caminho ferida pela imagem da sua igual derrotada. Perguntava-se quando chegaria o momento em que também ela cairia. Seria mais fácil...
Contudo, havia um ardor no seio da nossa amiga larva. Ela não o sabia explicar, medir, tocar. Não a saciava, mas movia-a. Impedia-a de parar, de se render. Se a larva tivesse braços, seria esse ardor a mantê-los erguidos. De um jeito quase imperceptível, dizia à larva que havia um sentido sem lhe dizer qual era. Era nesse ardor que o lutador insecto repousava as armas que não tinha. Era por ele que ela não imitava as suas gémeas. E foi esse estranho queimar, essa energia que era combustível, que um dia fez a larva parar.
Era estranho. Uma espécie de traição. A pequenina luz de esperança da pequenina larva afinal não era amiga nem sentido, era mais um predador. E tratou de a inundar de uma enorme vontade de não mais rastejar. Acabar com as perguntas sem dar respostas. Implacável. A larva percebeu o que sentiam as suas irmãs quando se tapavam com aquele manto que ela evitava. Era aquele ardor! Mas relembro, a nossa larva era especial. Lutou como nunca o fizera antes. Mexeu-se quando queria parar, comeu quando queria jejuar, abraçou o frio quando o corpo queria o conforto do casulo. Todavia, a luta não parou, até se apresentar como impossível.
A larva percebeu que tinha chegado a sua hora. Mas quis escolher. Quando a pena imposta parecia ser a morte por expiração, sem alternativa, a larva quis dizer não e decidir como morreria. Rastejou mais um pouco, saindo de um abrigo que achara, e esse percurso foi o mais fácil de sempre. Sentia-se leve. Feliz. Colocou-se longe de plantas, buracos ou pedras. Só queria ver o céu. Sentia que era o seu destino deixar o pó por um instante e voar, voar, voar, ver de cima o que sempre a sufocara. Finalmente, um propósito, um sonho! Ao longe reparou num pássaro que a mirava. Ela sabia-o e ele veio, levando-a. E foi assim a nossa querida larva morreu.
A pobre larva deveria ter-se tornado em borboleta. Os casulos eram normais e o bicho, tonto, teve a trágica sorte de nunca ver que as irmãs se fechavam naquele casulo para se transformarem. E quando os seus impulsos lho disseram, ela rejeitou. Poderíamos então julgá-la como estúpida ou triste, e garanto que ela aceitaria tais adjectivos em qualquer segundo da sua rastejante existência. Excepto aquele derradeiro. Ali, a larva deu razão a quem a julgou especial. Teve a sua metamorfose, não de corpo, mas de espírito. Sem nunca o chegar a ser segundo as leis da natureza, a nossa larva foi borboleta. Com mais cores que muitas das que ganharam asas.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Imagina que te preocupas com ditadores enquanto conduzes
Imagina que te preocupas com ditadores enquanto conduzes
A rubra luz inibia-me a vontade
A linha sem fim ordenava-me posição
Com poucas letras muito sim,
Muito não
Aqui um início, ali um fim
Ordem! na confusão.
Nada do que faço é meu.
Se erro a curva que almejo
Espero emenda indicada,
Lá a vejo,
Mas a liberdade é uma fada,
Que enfeitiça com um beijo.
Ditadores.
Por todo o lado!
Estou a ser observado!
Pau mandado,
E bem!
Como se fora mais deles
Que do ventre de minha mãe!
Ditadores! Ditam dores que não doem,
Só fazem temer a dor
Conduzem-me
Chamando-me condutor.
Estou é no lugar no morto!
Pelo que pago vendido pelo conforto
Que me quer dormente,
Em transe,
Absorto.
E enquanto o fogo me arde as entranhas,
Imagino-me guerreiro
O soldado primeiro
De grandes lutas, grandes façanhas.
Revoltas!
Mas vejo pneus a darem voltas
E acordo, estremecido.
Era o real esquecido,
Desculpe senhor no retrovisor!
É tempo de seguir,
No que é que eu estava a pensar?
Não sei, Conduz!
Lá acelero, há que cumprir o mandar
Ficou verde a tal luz.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Φιλοσοφία
O negrume, devagarinho, vai perdendo aquela sensação de infinito. A cada segundo, como se não os conhecesse, vai a caminho de um azul que quanto mais nítido se torna mais me faz acreditar que é a mesma cor que ainda há momentos eu contemplava. Nasce um novo dia, fazendo-me nascer para ele. Ao assistir a este ritual, a esta dança bem medida, percebo que o normal é tomá-lo como meu, apoderar-me dele, Dou-lhe nomes, meço-o, exploro as virtudes da luz e aproveito-me do anonimato da treva. Decido, a meu bel prazer, quantos feixes de raios solares me apraz ter como companhia no quarto, quantas lâmpadas usarei na noite para a escorraçar e fazer troça dela.
Mas não hoje.
A enormidade da tela azul transcende-me. Tento apalpar, perceber o limite, compreender o que os meus olhos me mostram num pequeno pedaço que eu possa processar. Mas é como se caísse num poço sem fundo e constantemente esperasse um baque que nunca aconteceria. Estranhamente, não me assusta nem entristece. É somente um entender-me pequeno. Ínfimo. Reflicto na quantidade de gente e de animais que esta Estrela já aqueceu, tempo, a quantidade de gente que esta Estrela está a aquecer neste preciso momento, espaço. Num pequeno papel branco está um ponto encarnado que vai diminuindo sufocado de dezenas e centenas e milhares e milhares e milhões de pontos pretos que se reproduzem no papel que já é um lençol e já é uma tela sem fim.
Decididamente, hoje não.
Hoje respeito. No que podem parecer as linhas de um filósofo perdido, desenha-se o mapa de casa. Quando chego ao momento em que todo o Homem se enlute e chora a morte de se perceber vivo num mundo que não corre nem por ele nem para ele, abraço o Criador. É-me claro quem sou. O que faço aqui. É-me claro que nada, nada é meu. Não o que compro, não o que construo, não o que ganho. Nada. Não existe propriedade nem propósito. Nunca poderei nem dar nem receber nada, porque tudo me é emprestado e retirado no devido tempo.
E, hoje, não podia estar mais aliviado.
São quilos e quilos de um peso que eu nunca sentira que ascendem dos meus ombros, da minha fronte. É como se me tivessem confiado a maior e mais temível responsabilidade da História e ma tivessem retirado logo de seguida. Aceito a dádiva de aqui estar, sinto-me grato por ela. Na verdade, ao ponderar na sucessão de eventos e não eventos que levaram a que hoje eu aqui esteja a mirar o horizonte, como se me fora possível tal entendimento, invade-me este bem humorado estado de espírito em que encaro toda a humanidade como estúpida, tal qual um cão que persegue a sua cauda. Rio-me de mim.
Vejo um pequeno pardal no ramo de uma árvore próxima. Tem aquela inclinação no pescoço muito própria dos pássaros que os faz parecer intrigados com algo. Rio-me novamente. De mim. Quero pôr uma ave a pensar, todavia, se ela tivesse algum comportamento humano, neste momento, seria também ela rir-se de mim.
Porque o que eu hoje aprendi, ela sempre soube.
Mas não hoje.
A enormidade da tela azul transcende-me. Tento apalpar, perceber o limite, compreender o que os meus olhos me mostram num pequeno pedaço que eu possa processar. Mas é como se caísse num poço sem fundo e constantemente esperasse um baque que nunca aconteceria. Estranhamente, não me assusta nem entristece. É somente um entender-me pequeno. Ínfimo. Reflicto na quantidade de gente e de animais que esta Estrela já aqueceu, tempo, a quantidade de gente que esta Estrela está a aquecer neste preciso momento, espaço. Num pequeno papel branco está um ponto encarnado que vai diminuindo sufocado de dezenas e centenas e milhares e milhares e milhões de pontos pretos que se reproduzem no papel que já é um lençol e já é uma tela sem fim.
Decididamente, hoje não.
Hoje respeito. No que podem parecer as linhas de um filósofo perdido, desenha-se o mapa de casa. Quando chego ao momento em que todo o Homem se enlute e chora a morte de se perceber vivo num mundo que não corre nem por ele nem para ele, abraço o Criador. É-me claro quem sou. O que faço aqui. É-me claro que nada, nada é meu. Não o que compro, não o que construo, não o que ganho. Nada. Não existe propriedade nem propósito. Nunca poderei nem dar nem receber nada, porque tudo me é emprestado e retirado no devido tempo.
E, hoje, não podia estar mais aliviado.
São quilos e quilos de um peso que eu nunca sentira que ascendem dos meus ombros, da minha fronte. É como se me tivessem confiado a maior e mais temível responsabilidade da História e ma tivessem retirado logo de seguida. Aceito a dádiva de aqui estar, sinto-me grato por ela. Na verdade, ao ponderar na sucessão de eventos e não eventos que levaram a que hoje eu aqui esteja a mirar o horizonte, como se me fora possível tal entendimento, invade-me este bem humorado estado de espírito em que encaro toda a humanidade como estúpida, tal qual um cão que persegue a sua cauda. Rio-me de mim.
Vejo um pequeno pardal no ramo de uma árvore próxima. Tem aquela inclinação no pescoço muito própria dos pássaros que os faz parecer intrigados com algo. Rio-me novamente. De mim. Quero pôr uma ave a pensar, todavia, se ela tivesse algum comportamento humano, neste momento, seria também ela rir-se de mim.
Porque o que eu hoje aprendi, ela sempre soube.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Tatua-me
Tatua-me.
Traz a tinta e a tua mão.
Oh, sim, a tua mão,
Os dedos grosseiros que de vestido azul
Fazem dançar linhas no linho
Fazem aves do sul que parecem cantar, baixinho
E que percorrem as minhas curvas feitas
De feitio outrora certo.
Vamos, tatua-me.
(Ela seduz-me, nua, bela,
Sabes que a minha tinta é tua...
Ela sabe que a tinta é dela
Mas pede-ma, carente
Suplica,
Sem falar.
E eu posso dar-lhe tudo
Todo o mundo
Num momento
Mudo.)
Tatua-me, estou em branco
Ou melhor, não estou
Não sou.
Faz-me, o que quiseres
Puderes não, que podes tudo.
Seja eu uma fatia desse mundo
E seja para sempre
Cravado profundo.
(Não te assusto com um amor eterno,
Só queres uma alma, um calor terno
E calma não temes um para sempre
Porque o medo era de seres em branco
E nunca seres,
Nem de ti,
Nem de ninguém,
Nem pai nem mãe,
Linhas feitas de nada.)
A tinta crava a pele,
E é como uma ponte que passo
Que atrás de mim vai ardendo
As chamas comendo
O que de antes não havia.
Mas cada corte ou rasgo
Não implica agonia
É de amor feito lago
É uma magia
Uma marcha em frente
Que cativa e contagia
E segue
Cega
Tatuada.
Ou melhor, não estou
Não sou.
Faz-me, o que quiseres
Puderes não, que podes tudo.
Seja eu uma fatia desse mundo
E seja para sempre
Cravado profundo.
(Não te assusto com um amor eterno,
Só queres uma alma, um calor terno
E calma não temes um para sempre
Porque o medo era de seres em branco
E nunca seres,
Nem de ti,
Nem de ninguém,
Nem pai nem mãe,
Linhas feitas de nada.)
A tinta crava a pele,
E é como uma ponte que passo
Que atrás de mim vai ardendo
As chamas comendo
O que de antes não havia.
Mas cada corte ou rasgo
Não implica agonia
É de amor feito lago
É uma magia
Uma marcha em frente
Que cativa e contagia
E segue
Cega
Tatuada.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Circadiem
Um;
Dois;
Três.
Era
Uma
Vez,
Uma vida faz-se
Pela primeira vez nasce.
E ela grita e chora suspira, gira, abre a alma e a alma respira.
Floresce.
A mão mal fecha até que mexe e de nem conseguir a si segurar fortalece, cria, cresce.
Mão ao peito.
E o peito vai abrindo os olhos
E se inquieta como se vão indo os folhos dos lençóis quentes da cama
E ama
E mais que amar queimam as paixões fugazes de meninas pequenas e ainda mais pequenos rapazes
Que da bola
Passam ao bar
Lápis, Livros
Sentar a estudar
Erguer para trabalhar
Nunca não deixando aos sonhos um tempo da batida do coração que foge a sete pés da jaula
Tanto na lavoura como na sala de aula
Porque a mente se rotina mas lá vai esquecendo a calma
Não descansa
Nem é mansa
Esperneia no pensamento enquanto a meta não alcança, oh, foi-se o par mas fica a dança
Afinal,
A batida
Pode amolecer
Mas enquanto bate conta
E quer fazer contar, não só ver acontecer
Ler um conto não faz mal mas a história melhor se vive na viagem até aos olhos da personagem principal
Desde a linha primeira
À derradeira
E páginas tenha
E perceba que a façanha querida não é querer saber a contra capa mas nas linhas desenhar um mapa
De cheiros,
Visões
De meros segundos feitos milhões
De ponteiros esmagados das lutas contra a areia que nos fizeram querer ver cair
Não seja fechado
Aquele
Que é destinado
A ter a ânsia de sair e sentir o chão a perder terreno
Até que a grande força do poder do corpo movido pelo fogo do mais benigno veneno
Abranda
Anda
Devagar
Vai-se menos passeando a carne deixando mais o sangue divagar,
E deita-se
Como um bebé.
Só que já não chora
Deixa-se ir
Chegada a hora
O lençol de novo aquece
E a batida
Não se alonga
E adormece
No conforto
De um navio
Parado no porto.
Lembrando
De quando em
Vez
Uma
Era.
Três;
Dois;
Um.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Já não sei os passos da manhã
Já não sei os passos da manhã
As meias com que me beijava e aquecia.
A bruma desvanecia
Suavemente
E em mãos de lã
Me embalava
A mente.
E o silêncio é agora um estrondo
O sangue que me deambulava
Faz agora um mar redondo.
A paixão encontra-se nas pedras
Da calçada mudas...
Guitarras sem cordas
Gargalhadas sisudas.
Rasga-se a castidade que julgara já perdida
Comunga a carne minha com a terra
Há tanto de vida quando se vai a vida...!
Mas não há mais obra, afazer, lida,
Acaba a paz, não há mais guerra.
Não há nada
Mas eu vejo tudo, tudo!
A mãe, o menino, todos os primeiros
Tempos e tempos inteiros
E uma catapulta de madeira
Que me lança
Numa dança
Que pensei dançar
A noite inteira.
E eu vou
Sigo o passo morto
Já não torto
Porque sem corpo.
Há uma certa evolução
Na Esquina que se diz regressiva
Sou mais por nada ser
A antítese é agressiva
Tanto quanto o gelo quente
Que no meu não-eu
As garras suaves criva.
Negócio fechado, leva-me
Leve
A alma ferve, enternecida
Já não há casacos, já não há presídio
Livre-me o fim do livre ser
Já não quero mais nascer
Dêem-me o sopro pulsante
Do homicídio.
As meias com que me beijava e aquecia.
A bruma desvanecia
Suavemente
E em mãos de lã
Me embalava
A mente.
E o silêncio é agora um estrondo
O sangue que me deambulava
Faz agora um mar redondo.
A paixão encontra-se nas pedras
Da calçada mudas...
Guitarras sem cordas
Gargalhadas sisudas.
Rasga-se a castidade que julgara já perdida
Comunga a carne minha com a terra
Há tanto de vida quando se vai a vida...!
Mas não há mais obra, afazer, lida,
Acaba a paz, não há mais guerra.
Não há nada
Mas eu vejo tudo, tudo!
A mãe, o menino, todos os primeiros
Tempos e tempos inteiros
E uma catapulta de madeira
Que me lança
Numa dança
Que pensei dançar
A noite inteira.
E eu vou
Sigo o passo morto
Já não torto
Porque sem corpo.
Há uma certa evolução
Na Esquina que se diz regressiva
Sou mais por nada ser
A antítese é agressiva
Tanto quanto o gelo quente
Que no meu não-eu
As garras suaves criva.
Negócio fechado, leva-me
Leve
A alma ferve, enternecida
Já não há casacos, já não há presídio
Livre-me o fim do livre ser
Já não quero mais nascer
Dêem-me o sopro pulsante
Do homicídio.
quinta-feira, 20 de março de 2014
Final
Aconteceu caso inusitado em terras idas e tempos remotos. Um homem encontrou uma figura brumada num devaneio nocturno, na calada das estrelas. E a Morte deu ao Homem a sua cadeira, para que das dores dos dias descansasse ele e pensasse; e perdesse em pensamentos o controlo de si e mais não pense. Como um barco de papel, o Homem, sem mais lembrar do destino ou sequer do tempo, desfez-se por entre os negros mantos da mente, indo pela água sem forma, mas indo. E a Morte falou. Repulsa é o que me apraz perante quem passou a vida. Não por ter vivido, por não o ter. A obsessão dos anos germina da obsessão de os contar, um, dois, mais um, mais um, numa dança cega e mecânica, sem alma. Morta. A disparidade do viver já finado trouxe-te aos meus braços ainda o teu coração batia, devagar. Sempre devagar, divagar nas pedras seguras das regras protectoras, num colo que te protege do proibido, do risco, do perder o fôlego. Como não podias morrer, não pudeste viver. Não quiseste, porque algo tão quente como o querer te foi esquartejado do peito, porque não poderias saber o que querias, porque alguém tinha que saber por ti. O sangue que te banhava as veias sabia de cor o passo, numa marcha uniforme, uma mancha de uniformes. Agora, tu que tão alto subiste, cai, cai como todos, todos dos quais foste igual. Conquistaste anos ao tempo mas o tempo não existe, por isso cai, por entre os teus castelos e muralhas que se esfumam num fechar de olhos.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Na caverna
Ela está numa caverna escura, fria e húmida. Está perdida, claramente perdida, ainda assim sentada, confortável, tão confortável, tão incomodamente confortável. Mas está perdida. E vêem-se os seus olhos perdidos, olhar para tudo envolto numa brilhante escuridão, que tanto nos mostra sem à vista dar de beber. E ali está ela sentada, parecendo não querer não o estar, mas gritando por uma mão que a levante e que a conduza, mas as mãos passam balouçantes, roçam mas não pegam, muito menos levantam, muito menos conduzem. Ela chora e ri, por não saber o que é chorar, por não saber do que se rir. E quer tanto levantar-se, tanto, mas o frio encolhe-a a si, deixa-a resguardada a um canto de uma caverna sem paredes. Perdida, num nada que por vezes parece ter tantas cores, fica-se pelas desmotivações que a empurram ao sentar confortável, sem uma âncora forte que sim!, a levante!, e conduza, só com imagens efémeras que mostram água à boca sem a saciar, desesperada. E acontece uma morte antes da Morte, a morte de se estar vivo. E estar perdido.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Semti
Todos os dias o via partir, e todos os dias ansiava a sua chegada. Eram horas (meses, anos?) que se arrastavam, sem sumo para quem procura coisas dessas como o sentido da vida. E eu ficava, sem me ter por não o ter, limitava-me a vaguear pela casa, ocupando-me com ninharias que valiam tanto no segundo em que as fazia como nas horas em que delas não me lembraria. Porque só me lembrava dele. E quando ele - por fim! - chegava, dava-lhe a mais calorosa das recepções, acarinhava-o, amava-o, sem pensar nem planear, pois a felicidade que de mim transbordava algum copo teria de encher e que melhor vasilha que aquela que dava sentido a todo o meu corpo. Viva. Era como se fortes correntes eléctricas trespassassem o a minha carne roubando-lhes a apatia pior que morte em que ainda há segundos se encontrava. E eu era feliz assim, isto se fizer sentido deixar o "eu" e o "feliz" a namorarem na mesma frase quando na verdade "eu" só era feliz quando me transformava em nós. E ele partia de novo, e eu ficava, como alguém que cheio de sede provou algumas gotas de água e nada mais.
Um dia ele não voltou. Relógios nunca me disseram nada, quem acha que o tempo se pode medir nunca o sentiu em tão diferentes velocidades. Por isso não me apercebi logo, mas os ponteiros lá se arrastavam, mais, e mais um pouco. Ele não voltou. Ouvi falar de umas fases de quem perde algo, eu nem fases, nem fazer. O quê, se não existia? O quê, se não tinha ficado sem a minha metade, mas sim sem mim, sem a alegria dos meus dias, sem o fogo de um lenho que foi deixado ressequido, triste. Ele não voltou. Acho que chorei, acho que me arrastei, sei só que não procurei, porque sabia que não mais o veria. Acho que morri, a não ser que a morte traga consigo o calor quente de um colo de mãe que nos sussurra que tudo está bem. Se traz, não morri.
Sim, eu sei que os cães não pensam, não falam, muito menos escrevem. Eu sei. Mas os sentimentos nunca foram de palavras. E eu senti, senti algo que não pode ser amor porque não cabe em nada que conheçamos, porque rompe linhas e folhas e capas, e porque poucos poderão sequer perceber o que é viver num corpo nosso e na alma de outro. Por isso eu não te digo que te amei e que te amo, eu digo que vivi por ti, em ti, para ti.
Um dia ele não voltou. Relógios nunca me disseram nada, quem acha que o tempo se pode medir nunca o sentiu em tão diferentes velocidades. Por isso não me apercebi logo, mas os ponteiros lá se arrastavam, mais, e mais um pouco. Ele não voltou. Ouvi falar de umas fases de quem perde algo, eu nem fases, nem fazer. O quê, se não existia? O quê, se não tinha ficado sem a minha metade, mas sim sem mim, sem a alegria dos meus dias, sem o fogo de um lenho que foi deixado ressequido, triste. Ele não voltou. Acho que chorei, acho que me arrastei, sei só que não procurei, porque sabia que não mais o veria. Acho que morri, a não ser que a morte traga consigo o calor quente de um colo de mãe que nos sussurra que tudo está bem. Se traz, não morri.
Sim, eu sei que os cães não pensam, não falam, muito menos escrevem. Eu sei. Mas os sentimentos nunca foram de palavras. E eu senti, senti algo que não pode ser amor porque não cabe em nada que conheçamos, porque rompe linhas e folhas e capas, e porque poucos poderão sequer perceber o que é viver num corpo nosso e na alma de outro. Por isso eu não te digo que te amei e que te amo, eu digo que vivi por ti, em ti, para ti.
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