Ah, mar
Gotas de água salgada.
Vem aí ele, o mar
E eu vou dormir,
Para não me afogar!
sábado, 13 de novembro de 2010
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Brisa
Brisa doce há muito anunciada
Sabe Deus que a desejo
Como a sede quer a água
Por mil anos dela soube
E por mil anos esperei.
Chegou a madrugada por fim
Em que passaria na minha estrada.
A minha vida não era aquele momento
Mas para aquele momento tinha sido vivida
Por isso não me sentei que não merecia
Sempre atento ao horizonte
Onde espreitava tímido o Sol.
Vi-a por fim. Era brisa e era doce
Como prometido na longa espera
E era muito mais que isto tudo
Eram palavras que nunca serão escritas
Ou tentadas.
Aproximou-se, e estendi a mão.
Tentei agarrá-la!
Senti-a na mão, ela beijou-ma
Mas era brisa e era doce
E eu não a agarrei.
Num ápice já lá vai, um brisa e uma vida
E para a frente, mais espera?
Pois esperarei não mais!
Ah, minto-me, esperarei.
Mas é pena que assim seja.
Pois quanto mais por algo se espera
Menos esse algo dura
E a brisa doce logo passa
E nunca a vou agarrar.
Resta-me viver p'ra esperar.
Sabe Deus que a desejo
Como a sede quer a água
Por mil anos dela soube
E por mil anos esperei.
Chegou a madrugada por fim
Em que passaria na minha estrada.
A minha vida não era aquele momento
Mas para aquele momento tinha sido vivida
Por isso não me sentei que não merecia
Sempre atento ao horizonte
Onde espreitava tímido o Sol.
Vi-a por fim. Era brisa e era doce
Como prometido na longa espera
E era muito mais que isto tudo
Eram palavras que nunca serão escritas
Ou tentadas.
Aproximou-se, e estendi a mão.
Tentei agarrá-la!
Senti-a na mão, ela beijou-ma
Mas era brisa e era doce
E eu não a agarrei.
Num ápice já lá vai, um brisa e uma vida
E para a frente, mais espera?
Pois esperarei não mais!
Ah, minto-me, esperarei.
Mas é pena que assim seja.
Pois quanto mais por algo se espera
Menos esse algo dura
E a brisa doce logo passa
E nunca a vou agarrar.
Resta-me viver p'ra esperar.
Etéreo
No sonho não há barreiras
Há mil e nenhuma maneiras
Não há trânsito nem estrada
No sonho há tudo e não há nada.
Há mil e nenhuma maneiras
Não há trânsito nem estrada
No sonho há tudo e não há nada.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Amo-te por isso adeus, até ontem
És minha.
São meus os olhos teus
Antes de os conquistar,
Como que já os tinha.
És minha.
Ah, bem chorei
E sofri
E não morri
Porque amor, um dia jurei
É de vida lei
E não de morte.
Ah, Sorte
Deste-ma. Ela é minha!
Em que me olhaste foi bela a hora
Agora, que te tenho...
Vou embora.
Porque não te quero perder. Esse sorriso que me ama quero sempre guardá-lo meu, como se eu fora uma ostra e tu a minha pérola, o meu diamante. Os diamantes são eternos. Sabes, gostava de morrer novo, mas como sou cobarde, vou morrer velho com pena de não ter morrido novo. Porque viver muito cansa, e a pele queixa-se, e o tempo não a ouve, o tempo não tem sentidos, o tempo só passa. Ah, que medo tenho dele. Ele passará para sempre, mas eu só por momentos passarei por ele. Depois morro que sou humano, e antes envelheço e choro ao olhar para trás. Não me estou a queixar, quem sou eu para implorar diferenças? Sim, amo-te, por isso adeus. Amanhã não olharei para o teu rosto do amanhã, mas recordar-me-ei, sempre, do teu sorriso de hoje. E não terei mais ninguém, sou rei de conquistar uma só terra. Vou-me sentar no meu trono de gente, enquanto Deus se ri porque Ele a todos ama e Ele todos tem. Desculpa, mas não posso ver o teu sorriso todos os dias e arriscar um dia ver o teu choro ou ver o meu por tua causa. Leva-me contigo ao teu ombro, no teu coração, no dedo mindinho do pé, sei lá, onde te der mais jeito e onde mais te lembrares de mim. Tu ficas comigo, no meu ombro, no meu coração, no meu dedo mindinho do pé. Porque depois de te ter eu já não serei eu, mas uma mescla de mim contigo a qual só serão subtraídos os anos que não olharemos juntos o horizonte nem construiremos pois o nosso. É como te digo. O amor deviam ser memórias, pois essas não se alteram. A vida muda, sei lá se o Sol nascerá amanhã, e não me venham matemáticos e astrónomos com probabilidades. Eu não sei e eles só fingem saber, porque lhes sabe bem esse sofá de lona. Para quê ficar contigo e amanhã não ver o nascer do Sol se posso ir embora e para todo o sempre recordar o pôr-do-Sol que vimos juntos? Nem eu nem tu controlamos a direcção do Amor, e eu sei lá onde aprendeu ele a conduzir. Amanhã ele pode ter um acidente e destas tragédias não há cinto nem seguro que nos valha. Perde-se perde-se, sem remédio. Por isso podes continuar sozinha, eu continuo eu, ou continuamos os dois por estradas diferentes. A nossa paragem, eumaistu, é aqui.
São meus os olhos teus
Antes de os conquistar,
Como que já os tinha.
És minha.
Ah, bem chorei
E sofri
E não morri
Porque amor, um dia jurei
É de vida lei
E não de morte.
Ah, Sorte
Deste-ma. Ela é minha!
Em que me olhaste foi bela a hora
Agora, que te tenho...
Vou embora.
Porque não te quero perder. Esse sorriso que me ama quero sempre guardá-lo meu, como se eu fora uma ostra e tu a minha pérola, o meu diamante. Os diamantes são eternos. Sabes, gostava de morrer novo, mas como sou cobarde, vou morrer velho com pena de não ter morrido novo. Porque viver muito cansa, e a pele queixa-se, e o tempo não a ouve, o tempo não tem sentidos, o tempo só passa. Ah, que medo tenho dele. Ele passará para sempre, mas eu só por momentos passarei por ele. Depois morro que sou humano, e antes envelheço e choro ao olhar para trás. Não me estou a queixar, quem sou eu para implorar diferenças? Sim, amo-te, por isso adeus. Amanhã não olharei para o teu rosto do amanhã, mas recordar-me-ei, sempre, do teu sorriso de hoje. E não terei mais ninguém, sou rei de conquistar uma só terra. Vou-me sentar no meu trono de gente, enquanto Deus se ri porque Ele a todos ama e Ele todos tem. Desculpa, mas não posso ver o teu sorriso todos os dias e arriscar um dia ver o teu choro ou ver o meu por tua causa. Leva-me contigo ao teu ombro, no teu coração, no dedo mindinho do pé, sei lá, onde te der mais jeito e onde mais te lembrares de mim. Tu ficas comigo, no meu ombro, no meu coração, no meu dedo mindinho do pé. Porque depois de te ter eu já não serei eu, mas uma mescla de mim contigo a qual só serão subtraídos os anos que não olharemos juntos o horizonte nem construiremos pois o nosso. É como te digo. O amor deviam ser memórias, pois essas não se alteram. A vida muda, sei lá se o Sol nascerá amanhã, e não me venham matemáticos e astrónomos com probabilidades. Eu não sei e eles só fingem saber, porque lhes sabe bem esse sofá de lona. Para quê ficar contigo e amanhã não ver o nascer do Sol se posso ir embora e para todo o sempre recordar o pôr-do-Sol que vimos juntos? Nem eu nem tu controlamos a direcção do Amor, e eu sei lá onde aprendeu ele a conduzir. Amanhã ele pode ter um acidente e destas tragédias não há cinto nem seguro que nos valha. Perde-se perde-se, sem remédio. Por isso podes continuar sozinha, eu continuo eu, ou continuamos os dois por estradas diferentes. A nossa paragem, eumaistu, é aqui.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Génesis
Era uma vez um velhote, que só não era mesmo velho porque para ele não existia tempo. E este velhote era pintor, mas não era um pintor qualquer. Tinha na sua paleta de pintor 4 Cores, e eram elas o Castanho, o Vermelho, o Transparente e o Azul. Sim Transparente, eu bem vos digo que não era um pintor qualquer. Este pintor, em toda a sua vida, só pintou um quadro e é desse que interessa contar.
Pois nem o quadro deste pintor especial não era também ele nada comum. Era uma esfera. A esfera se a vissem agora seria muito grande, mas para aquele velhote era muito pequena, porque para além de não conhecer o tempo, o pintor não conhecia o espaço. Por isso talvez nunca ninguém tenha visto este pintor velhote, talvez ele seja maior que o tamanho que se conheça. Adiante. Começou por preencher toda a esfera branca do seu Castanho. Pintou montanhas, planícies, vales, desertos, que depois encheu de animais e plantas e árvores. E punha muito amor nisso tudo que pintava. Quando terminou, chamou àquela primeira parte da sua obra Terra.
Depois pegou no Vermelho e desenhou uma chama, que soprou na sua esfera, e deu vida à primeira parte do quadro. Os animais mexiam-se na Terra e as plantas nela cresciam, e o pintor ficou muito feliz.
Depois com o Transparente encheu o espaço entre a esfera e a sua oficina de trabalho. Sem isto, decidiu, não haveria diferença entre a Terra e a sua oficina e a sua própria pessoa, pelo que enquanto vivessem na Terra, todos aqueles animais não poderiam existir sem ao que chamou Ar. E tudo parecia completo, os três irmãos Terra e Fogo e Ar criavam aquele belo quadro, vivo, alegre.
Mas faltava qualquer coisa. O pintor olhava para ele e via tudo e claro, gostava! Mas via tudo. Ama-se muito o que se conhece mas paixão, essa está reservada para o misterioso, para o escondido, o desconhecido. Ali, tudo era conhecido, num relance tudo se sabia. E isso deixava o velhote triste. Então, olhou para a paleta e viu o Azul. Num momento de pura genialidade, pegou nele e mais do que pintar, escavou na esfera e encheu as enormes fossas desse Azul. Criou então rios, lagos, nascentes. E criou um enorme mar.
De fora só se via azul, como que espelho dos também azuis olhos do pintor. Mas por dentro muito havia escondido. Mais animais, mais cores, mais sabores e mais nada que poderá ser aquilo que nós quisermos. Como se dentro daquele mar existissem mil esferas em branco à espera de serem preenchidas com a paleta da imaginação. Nasceu então o quarto irmão, a Água, a mais novinha dos quatro mas (e isto é segredo, shiu) a preferida do velhote pintor. De inspiração nascida, viria a Água mais tarde dar de beber a poetas e sonhadores, dando à luz ela própria inspiração. E ao contrário da Terra do Fogo e do Ar, nunca será totalmente descoberta, e mais, como se fora barro, será motivo de construção de novas realidades.
Pensará o prezado leitor sabido das ciências que nunca poderia assim ter sido, que a vida antes nascida veio deste mesmo mar. Por isso nunca poderia a Água vir em último. Mas isso, digo eu, só vem comprovar os mistérios líricos deste elemento. A menina dos olhos do pintor será sempre a sua pequenina e nunca dela se saberão verdades, ela será sempre fonte de sonhos e nunca alvo de racionalidades. Ah, e se ao saber das vossas teorias o velhote pintor se ri à gargalhada, ao ler estas minhas linhas, ele simplesmente... sorri.
Pois nem o quadro deste pintor especial não era também ele nada comum. Era uma esfera. A esfera se a vissem agora seria muito grande, mas para aquele velhote era muito pequena, porque para além de não conhecer o tempo, o pintor não conhecia o espaço. Por isso talvez nunca ninguém tenha visto este pintor velhote, talvez ele seja maior que o tamanho que se conheça. Adiante. Começou por preencher toda a esfera branca do seu Castanho. Pintou montanhas, planícies, vales, desertos, que depois encheu de animais e plantas e árvores. E punha muito amor nisso tudo que pintava. Quando terminou, chamou àquela primeira parte da sua obra Terra.
Depois pegou no Vermelho e desenhou uma chama, que soprou na sua esfera, e deu vida à primeira parte do quadro. Os animais mexiam-se na Terra e as plantas nela cresciam, e o pintor ficou muito feliz.
Depois com o Transparente encheu o espaço entre a esfera e a sua oficina de trabalho. Sem isto, decidiu, não haveria diferença entre a Terra e a sua oficina e a sua própria pessoa, pelo que enquanto vivessem na Terra, todos aqueles animais não poderiam existir sem ao que chamou Ar. E tudo parecia completo, os três irmãos Terra e Fogo e Ar criavam aquele belo quadro, vivo, alegre.
Mas faltava qualquer coisa. O pintor olhava para ele e via tudo e claro, gostava! Mas via tudo. Ama-se muito o que se conhece mas paixão, essa está reservada para o misterioso, para o escondido, o desconhecido. Ali, tudo era conhecido, num relance tudo se sabia. E isso deixava o velhote triste. Então, olhou para a paleta e viu o Azul. Num momento de pura genialidade, pegou nele e mais do que pintar, escavou na esfera e encheu as enormes fossas desse Azul. Criou então rios, lagos, nascentes. E criou um enorme mar.
De fora só se via azul, como que espelho dos também azuis olhos do pintor. Mas por dentro muito havia escondido. Mais animais, mais cores, mais sabores e mais nada que poderá ser aquilo que nós quisermos. Como se dentro daquele mar existissem mil esferas em branco à espera de serem preenchidas com a paleta da imaginação. Nasceu então o quarto irmão, a Água, a mais novinha dos quatro mas (e isto é segredo, shiu) a preferida do velhote pintor. De inspiração nascida, viria a Água mais tarde dar de beber a poetas e sonhadores, dando à luz ela própria inspiração. E ao contrário da Terra do Fogo e do Ar, nunca será totalmente descoberta, e mais, como se fora barro, será motivo de construção de novas realidades.
Pensará o prezado leitor sabido das ciências que nunca poderia assim ter sido, que a vida antes nascida veio deste mesmo mar. Por isso nunca poderia a Água vir em último. Mas isso, digo eu, só vem comprovar os mistérios líricos deste elemento. A menina dos olhos do pintor será sempre a sua pequenina e nunca dela se saberão verdades, ela será sempre fonte de sonhos e nunca alvo de racionalidades. Ah, e se ao saber das vossas teorias o velhote pintor se ri à gargalhada, ao ler estas minhas linhas, ele simplesmente... sorri.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Poema da meia-noite
Morre e logo nasce
Ah, o dia aclama o Buda.
Passa a velha noite muda
A manhã, ao fundo, faz-se.
Pena eu não ser assim
Um dia é apenas mais um
Amanheço mas não há raio nenhum
Brilhará o Sol por mim?
Ah, o dia aclama o Buda.
Passa a velha noite muda
A manhã, ao fundo, faz-se.
Pena eu não ser assim
Um dia é apenas mais um
Amanheço mas não há raio nenhum
Brilhará o Sol por mim?
Intensidades
Andei em montanhas russas
Saltei de aviões
Beijei corações
Vivi e provei
Mil sabores
Mil emoções
E peguei de mão segura
Caneta de tinta pura
E nada ao papel
Acrescentei.
Depois sorri e vi-te
Perdida algures na minha mente
Não uma memória
Algo diferente
O choro foi contente
E a mão, ah, que história.
Tremida mais que a pobre alma
Escreveu, com breve calma
Um poema
Sem tema
Só de glória.
Saltei de aviões
Beijei corações
Vivi e provei
Mil sabores
Mil emoções
E peguei de mão segura
Caneta de tinta pura
E nada ao papel
Acrescentei.
Depois sorri e vi-te
Perdida algures na minha mente
Não uma memória
Algo diferente
O choro foi contente
E a mão, ah, que história.
Tremida mais que a pobre alma
Escreveu, com breve calma
Um poema
Sem tema
Só de glória.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Dorme bem
Fecha os teus olhos quentes
Ouve só sem os abrir
Sussurro-te beijos que só tu sentes
Por serem teus são diferentes
Flores e sorrisos a abrir.
Esquece o frio e esquece o mundo
Nos meus braços não há mal
A tua alma de mim inundo
Damos um mergulho bem fundo
Só com início, sem final.
Sonha com as cores e com o mar
São tua casa, o teu aconchego
E sonha que comigo vens voar
O mundo das nuvens desvendar
Sentir euforia, num sossego.
Não possuo nenhum grande poder
Não sou mágico, não tenho varinha!
Mas ao adormecida assim te ver
Sinto-me capaz de tudo fazer
Tenho-te aqui, sem seres minha.
Ouve só sem os abrir
Sussurro-te beijos que só tu sentes
Por serem teus são diferentes
Flores e sorrisos a abrir.
Esquece o frio e esquece o mundo
Nos meus braços não há mal
A tua alma de mim inundo
Damos um mergulho bem fundo
Só com início, sem final.
Sonha com as cores e com o mar
São tua casa, o teu aconchego
E sonha que comigo vens voar
O mundo das nuvens desvendar
Sentir euforia, num sossego.
Não possuo nenhum grande poder
Não sou mágico, não tenho varinha!
Mas ao adormecida assim te ver
Sinto-me capaz de tudo fazer
Tenho-te aqui, sem seres minha.
domingo, 7 de novembro de 2010
Espelho
Nos tempos da mágica alquimia
Um sábio cientista, dito lunático
Usou-se da sua louca sabedoria
P'ra criar um espelho muito prático.
Não reflectia coisas nem pessoas
Dava só contrários sentimentos
Transformava em más as coisas boas
Mostrava risos a quem lhe desse lamentos.
Usou-o o nosso amigo cientista
Num poema que ele mesmo escreveu
Saiu uma obra nunca antes vista
Eis então o que aconteceu:
Olho à volta e vejo ódio venerado Olho à volta e vejo o amor reinante
Choro, desespero, morte, tristeza Riso, esperança, vida, alegria!
Choro também eu, envenenado Rio também eu, que é cativante
Não me sinto seguro, é tudo incerteza. Seguro estou de que é real a fantasia.
O mundo desaba sem futuro O mundo gira e cores liberta
Onde anda o amor, perdido? O amor é Deus, omnipresente
Corro e logo bato num muro Cada canto é enorme porta aberta
Frio, cinzento, infinitamente comprido. Para o mar imenso, resplandecente.
Deito-me nu entregue ao gelo Grito e elevo os braços ao céu
Onde andas, calor paixão? Aquecido pela no peito emoção
Ninguém ouve o meu apelo Todos ouvem e cantam o canto meu
O tecto é escuro, é escuro o chão. Não há paredes, fronteiras, só coração.
Imortalidade
Tive uma vez um amigo que estava apaixonado, mas só via o doce dos seus olhos uma vez por semana e nunca por mais de meia ou uma hora. Então, vivia as restantes 167 horas da semana em função daquela. Uma vez perguntei-lhe, preocupado, se não se importava de perder tanta vida por só pensar num reles hora que logo passava. Ele respondeu-me que a vida que perdia ganhava-a setenta e sete vezes mais naquela hora, por isso não perdia vida, simplesmente vivia mais do que alguma vez eu viverei.
sábado, 6 de novembro de 2010
União sem facto
Jovem sou e boa rapariga
Quer senhor meu pai casar-me
Mas não me parece que consiga
Pois nenhum homem me instiga
Não é fácil, mão no peito, agradar-me.
Pois procuro mais do que é olhado
Aquilo que só vê mesmo o coração
E não se cheira tal aroma em vão lado
P'ra que se encontre não é procurado
Encontra-se, ponto, p'ra quê explicação?
Deu-me um trovador belo pretendente
Que nem masculina é sua morada
Falou-me de calor de modo quente
Com a poesia namorou-me, eloquente
E não fiquei nada mal casada.
Quer senhor meu pai casar-me
Mas não me parece que consiga
Pois nenhum homem me instiga
Não é fácil, mão no peito, agradar-me.
Pois procuro mais do que é olhado
Aquilo que só vê mesmo o coração
E não se cheira tal aroma em vão lado
P'ra que se encontre não é procurado
Encontra-se, ponto, p'ra quê explicação?
Deu-me um trovador belo pretendente
Que nem masculina é sua morada
Falou-me de calor de modo quente
Com a poesia namorou-me, eloquente
E não fiquei nada mal casada.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Convite
A felicidade é como gotas salgadas de água. Porquê? Porque sim, sou poeta e posso fazer destas coisas. Devias experimentar.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
O texto perdido
Estava já não sei onde a fazer não sei o quê, não tenho a certeza quando; no meio de pensamentos que na altura seriam importantes, surgiu-me na mente os versos de um possível poema, como penso que acontece aos poetas a sério. Que bom poema poderá sair daqui, terei de o escrever, pensei. E realmente pareceu-me minimamente engraçado. Mas não o escrevi, distracção sempre foi um dos meus cartões visita. Ora, agora mesmo enquanto escrevo este, tentei lembrar-me dele. Mas os versos que me vieram de lado nenhum foram para nenhum lado. Agora eu pergunto: Onde andará esse poema que não nasceu, poderá ele real sem ter sido efectivamente escrito? Por momentos ele foi uma verdade, só não o pode ser durante mais tempo e para mais pessoas. Neste preciso momento vislumbrei-lhe uma sombra mas desvaneceu-se logo; ah, ele anda aí! Talvez exista um sítio, uma enorme sala de espera cheia de poemas que aguardam serem escritos, e este escolheu-me a mim para ser seu pai. Vou deixar de pensar nele e decerto ele voltará a chamar, senão resta-me o consolo de que outro poeta a sério ou a brincar, o traga a vida e assim eu o possa ler.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
A brincar
Encho-me de esperança
Quando nas minhas letras pego
Não passo de uma criança
As palavras são o meu Lego!
Quando nas minhas letras pego
Não passo de uma criança
As palavras são o meu Lego!
Do fundo de um coração
Quero dar-te um presente
E dou-to em segredo, não digas a ninguém
Não tem preço, nem corpo, nem frio, é quente
Logo faz qualquer lágrima triste, contente
Como se fora mágico sopro de mãe.
Mais ninguém o pode ter, juro
Falo de algo muito puro
Que é apenas p'ra ti.
A prenda, está
Aqui
!
Não quero perder nada
Se me deixar levar pelo pensamento de que os teus olhos não podem ser reais e acabar por adormecer para sonhar com eles, acorda-me, e lembra-me que existem cores no mundo real mais brilhantes que as que pintam o mundo dos sonhos.
A cegonha ou A História de duas vidas trocadas
Era uma vez uma cegonha que vivia no tempo em que ainda eram as cegonhas que entregavam os bebés de porta em porta a quem, por via de processos burocráticos que aqui dispensarei pormenorizar, os desejasse e encomendasse. Até este dia, a cegonha, já experiente, sempre fizera um óptimo trabalho, tinha já renome no seio da comunidade de cegonhas daquela ocupação. O seu prestígio possibilitava que fizesse entregas de grande importância, como bebés filhos de rainhas e princesas. Mas a nossa ave um dia enganou-se e claro, sempre que há algo fora do normal, há uma história para contar, que de factos regulares pouco se pode dizer.
Tinha então a nossa amiga cegonha duas entregas para fazer: dois rapazes que de tão iguais no corpo não faziam adivinhar as diferenças dos berços onde se iriam deitar. Um iria morar para um palácio enorme e só não beberia ouro porque é indigesto. O outro iria para um família pobre que quisera a única riqueza que não se paga, e fazia a importante cegonha esta entrega porque ficava a pobre aldeia a caminho do rico castelo. Pois já estará o perspicaz leitor a adivinhar o sucedido. O menino que já era pobre antes de nascer, chamemos-lhe José, foi levado para a família da realeza enquanto Francisco, o rei recém-nascido, ficou no humilde casebre.
Encontram-se então duas semelhanças entre os bebés no geral e os bolos. São ambos doces e, depois de entregues, não podem ser devolvidos. Nem houve motivo para tal enquanto não se lhes nasceu os dentes, afinal, até certa idade as necessidades são as mesmas e as naturais e pobres e ricos as podem satisfazer. Cresceram então José e Francisco em tudo diferentes um do outro; para além das casas onde foram criados, Francisco era alto e loiro e de olhos azuis, um rapagão forte. Já José, o príncipe por engano, era pequenino, cabelo crespo sempre desalinhado, selvagem. Os olhos eram negros e profundos. Uma coisa tinham, porém, em comum. Os dois viveram sempre permanentemente insatisfeitos, desafiadores do seu destino, insaciáveis de algo que simplesmente não tinham.
Francisco não suportava a pobreza e os limites intelectuais que o seu meio lhe impunham, sentia-se predestinado a um futuro de poder e conhecimento e ali em pouco mais mandava que nas vacas, e essas nem sempre lhe davam o leite quando ele queria e precisava. Era curioso e não se satisfazia com as respostas fáceis e infantis que o seu pai lhe dava, bem como desprezava as histórias surreais de gnomos e dragões com que a mãe o habituara. José, esse desenvolveu com a chegada à juventude uma alergia tanto literal como psicológica ao ouro. Era ensaboado com aulas de ciências e matemáticas e línguas e na verdade tudo aquilo lhe parecia frio, cinzento. Acreditava nas fantasias que outros livros lhe contavam, mas sempre que lhe ocorria falar nisso era reprimido e proibido de dizer tais leviandades em voz alta.
Aos poucos, o sentimento de revolta foi crescendo e ganhando força na alma de cada um. Certo dia, Francisco acordou e olhou para o seu quarto de madeira e pensou que não eram aquelas paredes que haviam de receber os seus sonhos para o resto das suas noites. Partiu então de casa antes do romper da madrugada e, noutro reino, procurou instrução e tanta era a sua sede e talento para o poder, que acabou por liderar um grupo de revoltados contra o rei do tal reino, e assim o rei Francisco encontrou o Destino que falhara por culpa da cegonha. José, na mesma madrugada de fuga de Francisco, escapuliu-se da morada real e, disfarçado de pobre deambulante, refugiou-se numa aldeia vizinha do reino, já pertencente a um outro. Lá, esqueceu as verdades absolutas que aprendera e deitou-se à escrita de canções, acompanhadas de uma guitarra que trouxera do palácio. Na aldeia sempre lhe conheceram trovador e os seus olhos negros nnca lhe denunciaram as ricas origens.
Nos caminhos de fuga das realidades desconfortáveis, José e Francisco cruzaram-se. A cegonha que voa do início deste conto para lhe acompanhar o final, sentiu a proximidade dos dois e viu, lá do alto os caminhos antagónicos que seguiram. Percebera há muito o seu erro, mas ao ver a perseguição apaixonada de felicidade, tomou uma decisão: nunca mais uma cegonha entregaria um bebé à própria família, para que assim possa lutar e viver numa permanente insatisfação positiva. Nunca ninguém viverá contente e quem se acostumar à realidade onde caiu, morrerá com um amargo sabor de vida falhada.
Tinha então a nossa amiga cegonha duas entregas para fazer: dois rapazes que de tão iguais no corpo não faziam adivinhar as diferenças dos berços onde se iriam deitar. Um iria morar para um palácio enorme e só não beberia ouro porque é indigesto. O outro iria para um família pobre que quisera a única riqueza que não se paga, e fazia a importante cegonha esta entrega porque ficava a pobre aldeia a caminho do rico castelo. Pois já estará o perspicaz leitor a adivinhar o sucedido. O menino que já era pobre antes de nascer, chamemos-lhe José, foi levado para a família da realeza enquanto Francisco, o rei recém-nascido, ficou no humilde casebre.
Encontram-se então duas semelhanças entre os bebés no geral e os bolos. São ambos doces e, depois de entregues, não podem ser devolvidos. Nem houve motivo para tal enquanto não se lhes nasceu os dentes, afinal, até certa idade as necessidades são as mesmas e as naturais e pobres e ricos as podem satisfazer. Cresceram então José e Francisco em tudo diferentes um do outro; para além das casas onde foram criados, Francisco era alto e loiro e de olhos azuis, um rapagão forte. Já José, o príncipe por engano, era pequenino, cabelo crespo sempre desalinhado, selvagem. Os olhos eram negros e profundos. Uma coisa tinham, porém, em comum. Os dois viveram sempre permanentemente insatisfeitos, desafiadores do seu destino, insaciáveis de algo que simplesmente não tinham.
Francisco não suportava a pobreza e os limites intelectuais que o seu meio lhe impunham, sentia-se predestinado a um futuro de poder e conhecimento e ali em pouco mais mandava que nas vacas, e essas nem sempre lhe davam o leite quando ele queria e precisava. Era curioso e não se satisfazia com as respostas fáceis e infantis que o seu pai lhe dava, bem como desprezava as histórias surreais de gnomos e dragões com que a mãe o habituara. José, esse desenvolveu com a chegada à juventude uma alergia tanto literal como psicológica ao ouro. Era ensaboado com aulas de ciências e matemáticas e línguas e na verdade tudo aquilo lhe parecia frio, cinzento. Acreditava nas fantasias que outros livros lhe contavam, mas sempre que lhe ocorria falar nisso era reprimido e proibido de dizer tais leviandades em voz alta.
Aos poucos, o sentimento de revolta foi crescendo e ganhando força na alma de cada um. Certo dia, Francisco acordou e olhou para o seu quarto de madeira e pensou que não eram aquelas paredes que haviam de receber os seus sonhos para o resto das suas noites. Partiu então de casa antes do romper da madrugada e, noutro reino, procurou instrução e tanta era a sua sede e talento para o poder, que acabou por liderar um grupo de revoltados contra o rei do tal reino, e assim o rei Francisco encontrou o Destino que falhara por culpa da cegonha. José, na mesma madrugada de fuga de Francisco, escapuliu-se da morada real e, disfarçado de pobre deambulante, refugiou-se numa aldeia vizinha do reino, já pertencente a um outro. Lá, esqueceu as verdades absolutas que aprendera e deitou-se à escrita de canções, acompanhadas de uma guitarra que trouxera do palácio. Na aldeia sempre lhe conheceram trovador e os seus olhos negros nnca lhe denunciaram as ricas origens.
Nos caminhos de fuga das realidades desconfortáveis, José e Francisco cruzaram-se. A cegonha que voa do início deste conto para lhe acompanhar o final, sentiu a proximidade dos dois e viu, lá do alto os caminhos antagónicos que seguiram. Percebera há muito o seu erro, mas ao ver a perseguição apaixonada de felicidade, tomou uma decisão: nunca mais uma cegonha entregaria um bebé à própria família, para que assim possa lutar e viver numa permanente insatisfação positiva. Nunca ninguém viverá contente e quem se acostumar à realidade onde caiu, morrerá com um amargo sabor de vida falhada.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Reencontro
Num dia que parecia como os outros
Algo de estranho aconteceu
No lugar onde vivem os mortos
Fala-se do estrelado céu.
Corriam as doze horas do tal dia
O Sol, bom operário, alto brilhava
Quando ao seu lado, quem diria?
Apareceu a Lua, e como brilhava!
Logo se mandaram chamar urgentes
Cientistas e astrólogos e sábios
Muito falaram essas gentes
Mas a verdade não lhes saiu dos lábios.
Entenda o leitor deste caso singular
Que todo o mundo um plano segue
E quem o cumpre sempre, frio pensar
Explicar magias... não consegue!
Pois pensar não era ali chamado
Preciso mesmo era só sentir
Mandou-se vir então um não-letrado
Poeta simples p´ra complexo descobrir.
Olhou então para o surreal sucedido
E só sorriu, nada preocupado:
"Um grande amor que esteve perdido,
Foi hoje, por fim, encontrado."
Algo de estranho aconteceu
No lugar onde vivem os mortos
Fala-se do estrelado céu.
Corriam as doze horas do tal dia
O Sol, bom operário, alto brilhava
Quando ao seu lado, quem diria?
Apareceu a Lua, e como brilhava!
Logo se mandaram chamar urgentes
Cientistas e astrólogos e sábios
Muito falaram essas gentes
Mas a verdade não lhes saiu dos lábios.
Entenda o leitor deste caso singular
Que todo o mundo um plano segue
E quem o cumpre sempre, frio pensar
Explicar magias... não consegue!
Pois pensar não era ali chamado
Preciso mesmo era só sentir
Mandou-se vir então um não-letrado
Poeta simples p´ra complexo descobrir.
Olhou então para o surreal sucedido
E só sorriu, nada preocupado:
"Um grande amor que esteve perdido,
Foi hoje, por fim, encontrado."
A manhã pode vir sozinha
Tristes os que têm sonhos de noite e não os perseguem de dia, pois amanhã, ao acordar, pode ser sempre tarde demais
Hoje não
Hoje não me apetece escrever. Nem vou, porque nas escritas nem somos operários nem patrões, ninguém manda em ninguém, talvez só o coração nas mãos. Talvez. Não vou, então, dizer mais nada. Não vou dizer tristezas contentes nem alegrias deprimidas, sejam elas por mim sentidas ou criadas para personagens igualmente de mim nascidas. Não me apetece, bolas! Não vou gastar linhas com letras que outros mais sabidos poderiam ocupar com melhores dizeres. Para quê, afinal? Para quê se um poeta nunca será mais que um pobre Sísifo, condenado ao trabalho de empurrar uma enorme rocha ao cimo de um monte, para logo a seguir ter de recomeçar, eternamente. É isso mesmo. A mistura das minhas emoções e da minha imaginação dão-me mil textos e poemas, mas por muitos que as passe para palavras, nunca direi tudo e nem por isso sentirei a alma mais leve, que realmente já me pesa de tanto sentir. Por isso, hoje não escrevo, não digo mais nada.Não me vou preocupar com rimas enfeitadas para lindamente dizerem coisas bonitas, nem linhas misteriosas cultivantes de raciocínio. Não sei se falo para mim se para quem me lê, se for para mim para quê tantas rendas e flores, se for para quem me lê, valerá mesmo a pena? Talvez seja um balanço harmonioso entre os dois, mas não me apetece pensar nem sobre isso nem sobre nada, e já disse, não quero escrever. Se uma imagem vale mais que mil palavras, tenho que arranjar outro trabalho que este não me levará longe. Depende da imagem? Dependerá, sim, mas também depende das palavras. Daqui, hoje, não saem mais, se depender de mim. Afinal, acho que já encontrei quem é operário e quem é patrão.
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